Política

Educação e envolvimento social reduzem índices de acidentes em Brasília

01/10/2012 00:00

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Créditos da foto: http://www.brasilia.df.gov.br/
Brasília - Vinte anos após a criação da primeira escola para condutores do país e 15 anos depois da adoção do respeito à faixa de pedestre como norma, Brasília ainda colhe os frutos do seu pioneirismo em educação para o trânsito. Apesar do aumento expressivo da frota de veículos, a cidade ainda mantém um bom ritmo de redução em número de mortos e acidentes no trânsito. “São 125 mil novos veículos por ano no trânsito e, mesmo assim, estamos conseguindo conter todos os índices de acidentes”, afirma o diretor de Educação do Departamento de Trânsito do Distrito Federal (Detran-DF), Marcelo Granja.

Dados do órgão demonstram que, no início da década de 1960, ocorriam cerca de 16 mortes no trânsito por grupo de 10 mil veículos. Em 2003, o índice já havia caído para sete. Neste ano, o índice é de 3,3 óbitos por grupo de 10 mil veículos. “Nos países desenvolvidos, a média está entre dois e três por grupo de dez mil”, compara Granja. O número, entretanto, ainda não é muito inferior ao de outras capitais brasileiras. “As demais cidades registram apenas os óbitos ocorridos no momento do acidente. Nós fazemos um acompanhamento das vítimas por mais 30 dias. Nossos números são altos, mas muito mais próximos do real”, justifica.

O pioneirismo brasiliense em educação para o trânsito teve início em 1992, quando um grupo de servidores de carreira do Detran propôs a criação de uma escola obrigatória para a habilitação de condutores, com carga horária inicial de 20 horas/aula. Um deles é justamente o atual diretor de Educação do órgão. “A primeira escola de trânsito, que passou a ser obrigatória em 1993, rendeu resultados tão favoráveis que acabou sendo adotada na legislação federal e foi repassada para todo o país”, avalia.

Segundo Granja, após sua implementação, as pessoas se tornaram mais críticas e começaram a exigir novas ações de governo para melhorar o trânsito. Ele explica que o passo seguinte foi lançar, em 1997, uma grande campanha pela paz no trânsito, envolvendo ações para a redução de velocidade, utilização do cinto de segurança e, a mais famosa delas, o respeito à faixa de pedestre. “Essas ações foram mais uma demanda da própria sociedade do que uma ação de governo. Depois que passamos a trabalhar a educação, as pessoas ficaram mais críticas e começaram a nos cobrar: se há uma faixa de pedestres, por que ela não é respeitada?”, recorda.

Resistência
A jornalista Ana Júlia Pinheiro, diretora da ONG Rodas da Paz, afirma que a campanha foi concebida após uma série de matérias publicadas pela imprensa sobre os problemas no trânsito, em 1996. “O governador da época, Cristovam Buarque, reuniu os diferentes setores da sociedade para tentar envolver a sociedade na campanha. Participaram entidades de classe, sindicatos, igrejas, empresas, escolas, universidades. Em 1997, decidimos implantar o respeito à faixa”, conta.

Ela lembra que, a princípio, o governo resistiu bastante, temendo atropelamentos. “Mas a campanha preventiva foi extensa. No primeiro mês, os policiais ficavam nas faixas oferecendo flores aos motoristas que respeitavam a faixa e folhetos explicativos aos que desrespeitavam. Só após um mês de adaptação vieram as multas. E o resultado foi um sucesso. Mesmo hoje, 15 anos depois, o respeito ainda é grande”, relembra.

O diretor do Detran-DF admite que o governo não queria arriscar a exigir o respeito à faixa por temor ao aumento do número de acidentes. “No início, foram muitas colisões, engavetamentos. Mas não ocorreram atropelamentos e acidentes graves, como esperávamos. A população reagiu muito bem à campanha. Inclusive, o respeito ao pedestre aumentou a autoestima do brasiliense, que passou a ter orgulho do trânsito mais civilizado. A própria população passou a criticar os motoristas desrespeitosos, como ainda ocorre”, esclarece.

Ana Júlia também considera o envolvimento da população com a campanha fator determinante no seu sucesso. “Nós passamos praticamente por 12 anos de desmobilização, com os governos de Joaquim Roriz e José Roberto Arruda. Mesmo assim, a prática permanece. Mas hoje temos novos desafios. A questão da mobilidade urbana está cada vez mais complicada, o que exige novas ações”, aponta. Pesquisas do Detran apontam que, em média, o respeito à faixa é regra para 82% dos motoristas brasilienses.

Granja avalia que o fracasso das demais cidades brasileiras em adotar o respeito à faixa decorre exatamente da falta de investimentos prévio em educação. “A educação teve um papel crucial. Muito maior do que as medidas punitivas, que só serviram para regular o sistema. Nós só conseguimos obter sucesso porque a sociedade já estava toda mobilizada. A escola já funcionava há cinco anos e as campanhas eram intensas”, avalia.


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