Política

Eleito no 1º turno, Maia ganha porte de presidenciável em 2006

04/10/2004 00:00

Rio de Janeiro – Depois de um final de apuração eletrizante, onde a decisão sobre a necessidade de realização de segundo turno nas eleições do Rio de Janeiro era disputada voto a voto, o prefeito Cesar Maia, do PFL, conseguiu se reeleger para mais quatro anos à frente da prefeitura. A vitória de Cesar no primeiro turno estava ameaçada pelo crescimento, ocorrido nos últimos dias de campanha, da candidatura de Marcelo Crivella, do PL. A confirmação da reeleição do prefeito só aconteceu no início da madrugada desta segunda-feira (4), com 99% das urnas apuradas, e se deu por uma margem de apenas cinco mil votos.

Ao final da apuração, Cesar obteve 50,11% dos votos válidos e Crivella confirmou o segundo lugar com 21,83% da preferência dos cariocas. Em terceiro lugar chegou o candidato do PMDB, Luiz Paulo Conde, que obteve somente 11,18% dos votos, apesar do apoio do governo estadual. O fracasso da esquerda se confirmou na melancólica disputa pelo quarto lugar entre Jandira Feghali (PCdoB) e Jorge Bittar (PT). A comunista levou a melhor por uma pequena margem, ficando com 6,9% dos votos, contra 6,3% conquistados pelo petista. Nilo Batista, do PDT, chegou em sexto lugar com 1,38% dos votos válidos, seguido por Lenine Madeira (Prona, 1,2%), André Corrêa (PPS, 0,77%), Octacílio Ramalho (PSTU, 0,23%) e Thelma Maria (PCO, 0,08%). Houve 4,92% de votos nulos e 2,17% de votos em branco. A abstenção no Rio foi de 18,88%.

Consagrado pelos cariocas nas urnas pela terceira vez – ele cumpriu um primeiro mandato de 1993 a 1996 – Cesar Maia sai destas eleições com estatura de presidenciável em seu partido, o combalido PFL, que já iniciou um processo de rearrumaçao interna. Além disso, se firma como o político com maior capacidade de combater no estado o projeto de poder criado em torno de Anthony Garotinho. Foi em nome desse combate que Cesar fez com que o PFL apoiasse os candidatos do PT, contra os candidatos de Garotinho, em cidades importantes como Niterói e Nova Iguaçu. Com o sucesso da aliança, que vai para o segundo turno nas duas cidades, Cesar conquistou a simpatia do Planalto e deve tocar sua administração em céu de brigadeiro ao menos pelos próximos dois anos.

Aos 59 anos, Cesar é um fenômeno eleitoral no Rio. Levando-se em conta que em 1996, quando ainda não existia o dispositivo da reeleição, ele elegeu como sucessor seu secretário de Urbanismo – Luiz Paulo Conde, até então um ilustre desconhecido – percebe-se que ele venceu as quatro últimas eleições na cidade, fato inédito no irrequieto coração político da antiga capital da República. Dessa vez, precisou de 1,8 milhão de votos para vencer no primeiro turno, e precisa de apenas mais cinco meses governando para se tornar a pessoa que ocupou a Prefeitura do Rio de Janeiro por mais tempo em toda a história da cidade. Até hoje, o recorde de oito anos e quatro meses pertence ao prefeito biônico Henrique Dodsworth que, nomeado pelo então presidente Getúlio Vargas, permaneceu de 1937 a 1945 à frente do governo municipal.

Evidentemente feliz com a vitória, que garantiu não estar esperando já no primeiro turno, Cesar afirmou na manhã desta segunda-feira (4) que seu primeiro ato após a reeleição será tentar resolver os problemas da área de saúde, onde sua administração foi mais atacada pelos adversários: “Percebi que esse é mesmo o maior problema. Talvez proponha uma gestão independente do Sistema Único de Saúde (SUS). Vou negociar com o governo federal”, disse, já aproveitando a renovada via de diálogo com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O prefeito também se dirigiu aos eleitores: “Guardei com emoção cada aplauso, mas prestei ainda mais atenção às críticas de cada eleitor que me dizia ‘isso aqui está errado, mas confio que o senhor é o mais capacitado para consertar’. Para estes, quero dizer que vou procurar solucionar cada problema de minha administração, seja na saúde, nos transportes ou até mesmo na segurança”, disse.

Crivella sobe, Conde desce
Apesar de não ter conseguido chegar ao segundo turno por apenas 0,11% dos votos, outro que sai das urnas com sensação de vitória é o candidato do PL, Marcelo Crivella. Bombardeado por denúncias na mídia desde o início da campanha, por conta das irregularidades na sua declaração de patrimônio e da participação acionária na TV Record (que tentou esconder), Crivella acabou conquistando uma fatia importante dos votos. No início de um mandato de senador, e também bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, Crivella mostrou mais uma vez a força que tem hoje no Rio o eleitorado evangélico e deve ser levado em conta daqui pra frente como uma das mais expressivas lideranças políticas regionais.

Os fiéis da Igreja Universal protagonizaram um fenômeno que outrora tinha como símbolo a estrela vermelha do PT. Aos milhares, saíram às ruas na última semana de campanha, num verdadeiro arrastão de convencimento, fazendo crescer a candidatura do PL. Concentrados sobretudo na zona Oeste, onde as pesquisas registravam o maior número de eleitores indecisos, os militantes evangélicos venceram o duelo com os simpatizantes do peemedebista Conde que, devido o apoio de Garotinho, tentava chegar ao segundo turno pescando votos nas mesmas águas. Sempre misturando religião e política durante a campanha, Crivella não mudou de tom ao reconhecer a derrota: “Fiquei triste. Mas, considerando que esta foi a vontade de Deus, estou feliz”, garantiu.

Na disputa pelo voto evangélico, Garotinho convenceu Conde a aceitar como vice em sua chapa o pastor Manoel Ferreira, principal líder da Assembléia de Deus. O péssimo desempenho do candidato do PMDB, no entanto, colocou em xeque o domínio eleitoral do grupo de Garotinho sobre esse setor, e deve contribuir ainda mais para o afastamento entre ele e Conde. Sem demonstrar muito interesse pela disputa na capital, a governadora Rosinha disse que “eleição se ganha e se perde, é assim mesmo”, enquanto seu marido preferiu manter o silêncio. 

Derrotado pela segunda vez consecutiva, brigado com Cesar, sem espaço na esquerda e a um passo do rompimento com os Garotinho, Conde é o principal perdedor individual dessas eleições. Ainda é vice-governador, mas para 2006 só lhe resta tentar a carreira parlamentar.

Esquerda melancólica
A esquerda confirmou nas urnas o mau desempenho que demonstrou nas pesquisas de opinião realizadas ao longo da campanha. Na melancólica disputa particular pelo quarto lugar, Jandira Feghali (PCdoB) levou a melhor sobre Jorge Bittar (PT), conseguindo 20 mil votos a mais que o petista. Apesar da proximidade histórica entre os dois partidos no Rio, Bittar e Jandira chegaram a se hostilizar durante a campanha, fato que se repetiu no ato de reconhecimento da derrota. Avaliando que a vitória de Cesar “é ruim para a democracia no Rio”, Bittar lamentou a “pequenez política” da candidata comunista: “A Jandira me atacou mais do que ao Cesar. Fez campanha para marcar posição individual contra o governo Lula, e não para ganhar as eleições”, disse o petista, que demonstrou amargura também com a “falta de observações construtivas” do deputado-federal Chico Alencar (PT-RJ), um dos principais críticos dos rumos tomados pela campanha do PT.

Jandira, que no derradeiro debate na TV disse que Bittar não era um deputado de esquerda porque votara “contra os servidores na reforma da Previdência e a favor desse salário mínimo”, preferiu não partir para ataques diretos, mas se disse “orgulhosa” porque o povo soube reconhecer que sua candidatura “era a que representava o pólo de esquerda e progressista”. Depois dessa batalha fratricida, não se sabe como será a relação entre PT e PCdoB no Rio daqui pra frente, mas o fato é que, isoladamente, os dois partidos atravessam um mau momento e precisam de tempo para se reorganizar e renovar as energias políticas. Na cidade do Rio, o trabalho não será fácil: o PCdoB conta com seu único vereador, reeleito, enquanto o PT reduziu sua bancada para apenas três vereadores. 

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