Política

Eles querem sangrar o Brasil

O objetivo que move os Aloysios da vida não é o de se opor democraticamente ao governo, mas de paralisá-lo, impedi-lo de cumprir as sua funções.

12/03/2015 00:00

Gerdan Wesley / Liderança do PSDB no Senado

Créditos da foto: Gerdan Wesley / Liderança do PSDB no Senado

Deu no jornal: o Senador Aloysio Nunes Ferreira disse que não defende o impeachment de Dilma Roussef; o que ele quer é sangrá-la.

Mas o que ele quis dizer com isso?

Ora, é óbvio atalhará o leitor. E com toda razão. Com efeito, o Senador acha que foi claro, e todos parecem concordar com ele: ninguém duvida do significado de sua afirmação.

Entretanto, o espanto diante do óbvio costuma ser uma atitude intelectualmente produtiva. Quando submetemos um enunciado óbvio à dúvida metódica muitas vezes descobrimos que ele diz muito mais do que o seu autor pretendia.  

Insisto, portanto, na pergunta: o que o prócer tucano tem em mente quando expressa seu desejo de sangrar a Dilma?

Não vale aplicar ao caso o tratamento cretino que seus pares dão às afirmações de inimigos -- como quando tomam ao pé da letra a menção de Lula ao “exército de Stédile”, e sugerem que o ex-presidente deveria responder na justiça por esse ato subversivo.  O senador tucano tem fama de violento, mas não é razoável imaginar que -- tendo saído ileso do país para um exílio parisiense, em sua juventude -- tantos anos depois ele queira devolver a antiga companheira de armas às câmaras de tortura.

A palavra sangrar foi usada em sentido figurado, e é isso que justifica a pergunta. Mas não a responde. Sangrar, mas de que maneira, em que sentido?

Podemos supor que Aloysio tenha recorrido a uma metáfora terapêutica. “Sangria: modalidade de tratamento médico que estabelece a retirada de sangue do paciente como tratamento de doenças. Pode ser feita de diversas maneiras, incluindo o corte de extremidades, o uso de sanguessugas ou a flebotomia.”

Mas, ainda que o senador seja muito mais cordato do que parece, sua boa vontade não chega a tanto. Ele não quer ver Dilma curada, muito pelo contrário. Pelo menos, do ponto de vista político.

Aí a obviedade. O que a oposição deseja é debilitar o governo, bloquear suas políticas, negar-lhe os meios necessários para por em prática o seu programa. E convencer a opinião pública de que ela, oposição, tem um programa melhor, somente ela pode realizá-lo a contento. É isso que a oposição faz nas democracias, e é esse o intuito  que se expressa na fala do senador.
 
Mas, se é assim, a metáfora sanguinária não tem cabimento.

E há ainda um outro problema. A oposição acusa a presidente de ter traído o seu eleitorado, de aplicar agora o receituário de política econômica que antes criticava. Austeridade fiscal, realismo tarifário, saneamento das contas públicas -- remédios amargos para corrigir as distorções criadas pelos seus seus próprios erros. Essas medidas eram pregadas pelo adversário.  Nisso, o PSDB e seus aliados convergem com muitos críticos na esquerda: o governo adotou o programa econômico da oposição.

Não penso assim, mas isso é o de menos. O importante é que se esta avaliação é sincera e o mote ”sangrar a Dilma”  é absurdo. Muito ao contrário disso, a oposição deveria apoiar as iniciativas do governo -- contra as resistências de muitos dos partidários deste! -- ao menos naquilo que elas coincidissem com as suas próprias propostas.

Ora, a oposição vem se aplicando sistematicamente ao trabalho de “sangrar a presidenta” muito antes do anúncio de seu ministério e das metas de seu segundo governo. Fez isso quando desqualificou o voto que lhe garantiu a vitória. Fez isso quando tentou impugnar a sua diplomação. E voltou a fazê-lo, com maior empenho, ao convocar manifestações de rua para repudiá-la, poucas semanas depois de sua eleição.

Quando levamos em conta esse padrão de conduta  -- confirmado a cada dia, desde então, e intensificado agora, na preparação do ato de 15 de março, puxado pela palavra de ordem “fora Dilma!” --  percebemos que a frase em causa envolve duas metáforas.
 
O objetivo que move os Aloysios da vida não é o de se opor democraticamente ao governo, mas de paralisá-lo, impedi-lo de cumprir as sua funções constitucionais. Se este caminho levar a um impeachment, muito bem. Se não, tanto faz. O importante é evitar que o governo possa ser exercido em sua plenitude, que ele volte a operar em condições de normalidade.

Para isso é preciso que a situação econômica se agrave, a inflação aumente, o desemprego campeie, setores produtivos inteiros entrem em colapso. E que a convivência política no país seja degradada pela intolerância, traduzida em manifestações cotidianas de ódio.

Por enquanto a oposição tem tido algum sucesso nessa empreitada. Mas estamos apenas no começo da história. Para o que vem a seguir, é fundamental entender que quando falam de Dilma é o Brasil que eles querem sangrar.  

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