Política

Em ato inédito, líderes sociais adotam forte discurso pró-Lula

Em ato inédito, líderes sociais adotam forte discurso pró-Lula

21/11/2003 00:00

Brasília - A presença in loco do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, nesta sexta-feira (21), para apresentar os planos do governo em relação à reforma agrária aos cerca de 2.500 trabalhadores e trabalhadoras rurais reunidos em um pavilhão de exposições na capital federal foi a sinalização que os movimentos sociais esperavam para poder manifestar apoio incondicional a Lula, fato inédito desde a sua posse.


A bênção ao presidente da República, invocada por dom Tomás Balduíno, presidente da CPT (Comissão Pastoral da Terra) - que criticara duramente o governo em várias ocasiões ao longo do ano - foi o prenúncio do tom dos discursos que estavam por vir. Lula foi abençoado pelos presentes, inclusive pelas lideranças dos movimentos sociais que estavam no palanque, para ser o "construtor da reforma agrária, da democracia, da igualdade e da cidadania no país".

A defesa mais enfática do governo, porém, ficou surpreendentemente por conta de João Pedro Stédile, da coordenação nacional do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra). "É a primeira vez que o povo pode dizer companheiro presidente", conclamou Stédile, depois de dizer que a classe dominante do país fica com raiva quando os sem-terra chamam Lula de companheiro em vez de Vossa Excelência. "A marcha veio até aqui não para escutar promessas e números. Eles vieram aqui para te conhecer. Nós confiamos nos companheiros. O seu gesto de vir à nossa casa (pavilhão onde os camponeses estão alojados) já revela o companheirismo."

Stédile destacou três pontos de destaque em sua enfática defesa dos 11 primeiros meses de governo do presidente Lula. O primeiro deles foi a decisão do Brasil de não aceitar uma Alca (Área de Livre Comércio das Américas) contrária aos interesses do país, preservando a soberania nacional. Na seqüência, o líder do MST elogiou o "puxão de orelha no [ministro da Fazenda, Antônio] Palocci", supostamente dado pelo presidente por causa do anúncio da prorrogação do acordo com o FMI (Fundo Monetário Internacional). Outra medida que recebeu reverências de Stédile foi o projeto de lei de Biossegurança, enviado pelo Palácio do Planalto ao Congresso.

Segundo o líder do MST, Lula é um "presidente que tem sensibilidade de colocar em primeiro lugar a vida, os sentimentos. A classe dominante não entende isso. Só pensa em ganância". Ele concluiu o discurso dizendo que "a reforma agrária é um problema da sociedade". "O desemprego é o problema maior da sociedade, e a reforma agrária é a forma mais rápida de gerar emprego. E através da reforma agrária, podemos mudar a política econômica", argumentou, oferecendo os militantes do MST como "soldados" na batalha contra setores refratários às mudanças no campo.

Luiz Marinho, presidente da CUT (Central Única dos Trabalhadores), também aproveitou o momento para fazer a defesa da gestão do presidente Lula. Marinho inflamou a platéia com perguntas como "o governo tem apoio ou não tem?", respondidas positivamente, com entusiasmo, pelos lavradores e lavradoras presentes.

"Não podemos ter vergonha de mostrar que apoiamos o governo", completou Manoel dos Santos, presidente da Contag (Confederação dos Trabalhadores da Agricultura). Chamado várias vezes de "histórico", o encontro de Lula com os movimentos sociais foi, para dom Tomás Balduíno, um "sinal da grande mudança esperada pela população brasileira, que está chegando agora nesse momento que fecha o arco dos 500 anos do Brasil".

Entre os milhares que não puderam subir ao palanque, a trabalhadora rural Teresinha da Rocha Alves, de Bom Jesus da Lapa (Bahia), carregava um cartaz com os seguintes dizeres: "Queremos reforma agrária no chão e não na televisão". Emocionada, ela disse à Agência Carta Maior que confia em Lula. "Eu espero o quanto for preciso. Sei que ele vai fazer a reforma agrária quando tiver condições", desabafou a viúva de 56 anos, que tem uma filha, de 35 anos, também viúva e trabalhadora da roça.


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