Política

Em meio à polêmica, Jair Bolsonaro demonstra seu apoio ao ex-juiz Sergio Moro

O ex-magistrado anticorrupção e hoje importante ministro do governo está enfraquecido pela revelação de sua parcialidade na condenação do ex-presidente Lula

14/06/2019 12:37

Jair Bolsonaro e Sergio Moro em cerimônia militar (Marcos Corrêa/AP)

Créditos da foto: Jair Bolsonaro e Sergio Moro em cerimônia militar (Marcos Corrêa/AP)

 

Após quatro dias de silêncio, Jair Bolsonaro fingiu negar o desconforto, lançando-se a um fervoroso elogio ao seu ministro em perigo. Quinta-feira, 13 de junho, enquanto novas revelações comprometiam um pouco mais Sergio Moro à frente da pasta da justiça, o chefe de Estado assegurou: o antigo magistrado anticorrupção "faz parte da história do Brasil".

"O que ele fez não tem preço (...) ele mostrou as entranhas do poder, sua promiscuidade com a corrupção", disse ele, referindo-se ao papel do ex-juiz que esteve no cargo de chefe da operação anti-corrupção "Lava Jato", uma vasta operação judicial que levou à demissão de caciques de negócios e da política, como o ex-presidente, Luiz Inácio Lula da Silva (Lula).

Finalmente, pensando em silenciar dúvidas sobre seu apoio inabalável ao ex-juiz, Jair Bolsonaro acrescentou: "Ontem foi o dia do amor, (...) beijei minha esposa (...) e dei um beijo hetero no nosso querido Sergio Moro. O ex-magistrado participou no dia anterior de um jogo do campeonato brasileiro ao lado do chefe de Estado.

Imparcialidade em questão

Um "beijo hetero", mesmo quando dado pelo líder da extrema direita brasileira pode não ser suficiente para salvar a carreira e a imagem daquele que era há alguns meses ainda visto como um "salvador a pátria ".

Desde a divulgação de mensagens trocadas entre Moro Sergio e o procurador da Lava-Jato, Deltan Dallagnol, domingo, 9 de junho pelo site Intercept, a imparcialidade do ex-juiz está em questão. Suspeita-se, em particular, que tenha instrumentalizado a instrução contra Lula, a fim de evitar o retorno ao poder do velho metalúrgico. O primeiro conjunto de revelações foi explosivo. O segundo, desencadeado na noite de quarta-feira, 12 de junho, promete afetar um pouco mais quem prtendia limpar o país de seus canalhas.

Assim, somos informados que, em 2016, alguns meses antes do "impeachment", a destituição controversa da presidente de esquerda Dilma Rousseff , o procurador Deltan Dallagnol conversou com o juiz do Supremo Tribunal Luiz Fux. A questão: garantir o apoio da mais alta corte a Sergio Moro que, poucas semanas antes, havia revelado uma conversa privada entre Dilma Rousseff e Lula. O conteúdo da conversação impediu que o ex-sindicalista se juntasse ao governo de sua dauphine para evitar o impeachment.

A divulgação ilegal dessa conversa presidencial valeu a Sergio Moro uma reprimenda de Teori Zavascki, juiz da Suprema Corte. Alguns meses depois, Deltan Dallagnol envia uma mensagem tranquilizadora às equipes da "Lava Jato": "Caros, falei com Fux (...) ele me disse que poderíamos contar com ele. Só faltou, como um bom carioca, que ele me convidasse para ir a sua casa, ah ah ", escreveu o procurador, falando em seguida sobre o apoio necessário da Suprema Corte a " nosso novo governo ", embora na época o impeachment de Dilma Rousseff ainda não tivesse ocorrido. Em resposta, Sérgio Moro diz "In Fux we trust" (em Fux nós confiamos).

"Traidor"

Nas redes sociais, a palavra-chave #MoroTraidorDaPatria rapidamente subiu a novos patamares de popularidade, enquanto os pedidos pela renúncia do ministro se multiplicaram.

O caso, de fato, confirma as suspeitas de violência política do ex-juiz contra Lula, avançadas por simpatizantes do Partido dos Trabalhadores (PT, de esquerda). Também parece revelar a personalidade de um magistrado pronto a flertar com a ilegalidade para alcançar seus objetivos. O juiz, que já havia perdido sua aura se juntando em janeiro ao governo de Jair Bolsonaro, agora se parece com Rastignac.

O descrédito é tal que o furo do Intercept poderia levar a uma revisão do julgamento de Lula, preso desde abril de 2018 por corrupção, dizem alguns juristas. Já, o Supremo Tribunal pretende considerar um pedido de habeas corpus (o direito de não ser preso sem julgamento) apresentado pela defesa do ex-presidente.

Neste momento, ninguém se atreve a anunciar a desgraça de Sergio Moro. O juiz mantém forte apoio, especialmente do eleitorado de Bolsonaro. "Para eles, ou não há nada a retificar em seus propósitos, ou para pegar Lula valeu a pena quebrar certas regras. Outros também acreditam que tudo isso é uma conspiração para derrubar Bolsonaro ", disse Oliver Stuenkel, professor de relações internacionais da Fundação Getúlio Vargas em São Paulo.

Mas o cerco se fecha sobre o antigo magistrado. De acordo com pesquisa do Instituto Atlas Politico, Sergio Moro perdeu 10 pontos de popularidade desde a emergência do caso, sendo avaliado positivamente por 50,4% dos entrevistados contra 60% em maio.

E o escândalo não acabou: o jornalista americano Glenn Greenwald, co-fundador do The Intercept, promete agir como fez no caso Snowden. "No início do relatório de Snowden, o governo dos EUA não sabia que provas tínhamos, então ele começou a mentir e, quando o fez, publicamos documentos mostrando que a defesa deles era falsa. Moro e Deltan não podem mentir ou encontrar desculpas porque temos evidências e fatos ", escreveu ele no Twitter.

Sergio Moro é esperado no Senado em 19 de junho para explicar sua conduta.

*Publicado originalmente no Le Monde | Tradução de Aluisio Schumacher

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