Política

Empréstimo do FMI adia crise e ata mãos do futuro presidente

O governo festeja o acordo, mas é preciso ter cautela. Além de amarrar o futuro presidente, trata-se apenas de um emplastro, uma vez que a fragilidade da economia não está nos gastos públicos, mas no custo da dívida

09/08/2002 00:00

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O governo está festejando, como sempre festejou em ocasiões anteriores, o empréstimo que provavelmente será concedido pelo FMI (provavelmente porque depende ainda da aprovação de seus termos pela Diretoria Executiva da instituição), a fim de conter a crise cambial. Ocorre que a crise cambial, tal como a ocorrida em setembro de 1998, foi criada e estimulada pela aliança dos especuladores internos e externos com o próprio governo.

Diante da possibilidade, cada vez mais concreta, de perder as eleições para uma candidatura de esquerda, criaram-se os espantalhos, e os espantalhos ganharam vida. O governo não pode festejar o empréstimo como uma vitória – ele deve ser visto como a comprovação de sua derrota. Derrota técnica, com a elevação desmesurada da moeda norte-americana no mercado brasileiro, quando se encontra em queda nos mercados europeus e asiáticos. E derrota política, porque não conseguirá “faturar” o acordo para o seu candidato oficial (José Serra) nem para o seu candidato “in pectore” (Ciro Gomes) o acordo com o Fundo.

É preciso ver com cautela a operação. Em primeiro lugar, se trata de um simples emplastro, uma vez que a fragilidade da economia brasileira não se encontra nos gastos públicos, e, sim, no custo da administração da dívida, com os juros que estamos sendo obrigados a pagar. É elementar em ciência econômica, desde David Ricardo, que os juros não podem ser mais elevados do que os lucros: um país que vem mantendo, durante o governo Fernando Henrique, os vergonhosos índices de crescimento, não tem como pagar os juros que vem pagando. Em suma: estamos pagando mais do que crescemos.

Em segundo lugar, a ajuda do Fundo nos ajudará a ir mais para o fundo: qualquer que venha a ser o candidato eleito daqui a dois meses, ele estará submetido ao leito de Procusto: não poderá fazer mais nem menos do que determinam as cláusulas do contrato. Ou lhe espicham os braços, ou lhe cortam as pernas. Isso exige do eleitor a escolha de alguém que esteja disposto realmente a retomar o desenvolvimento econômico, com a ampliação do mercado interno. Será a única forma de sair do círculo infernal da dívida e da corrupção que a alimenta.

De qualquer maneira, o anúncio serviu para aliviar um pouco a situação.

As razões do FMI

O Fundo, entenda-se, não socorreu o Brasil pensando em nossas próprias razões, mas na estabilidade do sistema. O jornal “Washington Post”, em seu editorial de quarta-feira, era muito claro na advertência ao governo norte-americano de que a Argentina é a Argentina, e o Brasil é o Brasil. Uma situação incontrolável no Brasil levaria, inexoravelmente, a uma crise mundial, com todas as suas conseqüências políticas. Mas o “Washington Post” vai além, ao advertir que, no caso brasileiro, não bastam meias medidas: é preciso ir fundo na “ajuda”.

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