Política

Entre comprimidos de cloroquina e balas de revólver

 

13/04/2021 16:44

(Reprodução/Youtube)

Créditos da foto: (Reprodução/Youtube)

 
Desde o começo da pandemia da Covid-19, o presidente do Brasil empenhou-se em não se empenhar. Optou pelo negacionismo, pelo deboche, pela indiferença e pelo desprezo. No enfretamento da pandemia, sua política de morte já resultou em 350.000 mortes. Como ele agiu? Desautorizando peritos, confundindo a população, debochando das vítimas, subvertendo protocolos de segurança e mandando tocar sanfona. Desqualificou o uso de máscaras, desmentiu o distanciamento, provocou aglomerações ostensivas, recusou ofertas dos laboratórios, parcerias internacionais, fez corpo mole para a imunização e sabotou as formas cientificamente comprovadas de diminuir os riscos de contaminação. Zombou das famílias, deixou testes perderem a validade e permitiu mortes por asfixia. Enquanto diversos países – inclusive em condições semelhantes às nossas – se preparavam e traçavam estratégicas de enfretamento, ele logrou censurar alguns epidemiologistas públicos e peritos em saúde, em geral. Ministros da saúde que ensaiaram fazer algo, foram sumariamente demitidos. Em seu lugar, o presidente quer paus mandados. Se hoje ele finge usar máscaras ou apoiar a vacinação, é porque sentiu o impacto do retorno de Lula ao cenário político, o que pode atrapalhar seus planos de reeleição.

Bolsonaro ainda insiste numa farsa, desde o ano passado: um suposto tratamento precoce à base de cloroquina e outras drogas, totalmente ineficiente, obscuro e prescrito apenas por médicos cujas inclinações ideológicas sobrepõem-se às científicas. Não obstante as evidências contrárias, o presidente insiste no engodo, cujos resultados objetivos foram as mortes dos pacientes “tratados”, as complicações clínicas pelo uso indevido de tais medicamentos e o desperdício de verba pública de 90 milhões de reais.

Passariam a vigorar a partir de 13/04/2021 os decretos que facilitariam ainda mais o acesso a armas de fogo no país, não fosse a suspensão de boa parte deles pela ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal. Os decretos inviabilizariam a fiscalização e o rastreamento das armas por parte do Exército, facilitariam a obtenção de laudos psicológicos, viabilizariam o porte de armas, permitiriam a compra de grandes quantidades de armas e munições por categorias específicas (caçadores, atiradores e colecionadores - CACs) e permitiriam inclusive que menores de 14 anos tivessem acesso a elas, para fins desportivos.  

Na prática, os decretos permitiriam que civis adquirissem arsenais privados e montassem seus exércitos privados, isto é, milícias, retirando do Estado o monopólio das armas. Um retrocesso civilizatório imenso, pois somente o desarmamento e o uso exclusivo das armas pelo Estado pode garantir um mínimo de estabilidade e ordem ao convívio social. Sem a concentração das armas nas mãos das forças de segurança, o Brasil pode transformar-se num grande faroeste. 

São claras as ameaças à vida e à democracia. Além da óbvia correlação entre aumento do número de mortos em função da maior circulação de armas, seus apoiadores, pouco afeitos a instituições republicanas, podem se converter, junto de policiais igualmente politizados, em grupo paramilitar a serviço de aventuras golpistas e autoritárias do presidente.

O que a negligência no combate à pandemia e a diligência no armamento têm em comum? Qual a semelhança entre comprimidos de cloroquina e balas de revólver?

Por meio das armas e da cloroquina, Bolsonaro quer desresponsabilizar-se de questões que não sabe nem quer enfrentar, recorrendo, assim a soluções simplistas, mas que satisfazem sua plateia. Na saúde, é muito mais fácil deixar que morram, enquanto ignora uma atuação coordenada com estados e municípios para assistir a população e assegurar isolamento social, já que, por culpa sua, a oportunidade de vacinação em massa está perdida. Na segurança, é mais simples eximir o Estado do conflito social e deixar que civis armados duelem à vontade. O próprio “excludente de ilicitude” é o licenciamento da política de extermínio e a homologação das milícias. Abuso impune é o sonho dos genocidas. E testemunho da incapacidade do Estado em gerir a segurança pública.

Politicamente, não fazer nada é, sim, fazer algo. A inação é uma forma de agir e tem consequências. Politicamente, não fazer nada é, sim, fazer algo. Populista que é, Bolsonaro prefere divertir sua plateia a agir, de fato. Armas e cloroquina são o disfarce para sua inércia. Justificam sua inação e inapetência. Finge trabalhar, enquanto abastece seus apoiadores com populismos rasteiros que, embora possam lhes custar a vida, os mantêm engajados.

Armas e cloroquina têm os mesmos efeitos políticos: evidenciam a política de morte já em curso. Cloroquina para deixar morrer e armas para matar são a mesma coisa. Facilita-se o acesso a revólveres e a escopetas, não a vacinas. Num momento em que a pandemia deveria ser prioridade, as armas somam-se à cloroquina como mais uma causa de mortes no Brasil. A próxima epidemia será a da violência armada.

Como quem combate fogo com gasolina, Bolsonaro prescreve remédios sem eficácia e oferta munição como soluções para questões que ele não sabe nem quer enfrentar. Soluções que só agravam o mau que prometem combater. É mais fácil, mais conveniente e mais palatável para seu eleitorado fiel, mais interessado em incendiar do que chamar os bombeiros. Armas são a cloroquina da segurança pública.

Thiago Antônio de Oliveira Sá é sociólogo, professor e doutor em Sociologia

Conteúdo Relacionado