Política

Entre o cabo Hitler e o capitão Bolsonaro

 

25/04/2019 09:31

 

 
Quando, o capitão (da reserva) Jair Bolsonaro assumiu a presidência do Brasil, em janeiro deste ano, três livros pousavam sobre sua mesa de trabalho: a Bíblia, a Constituição e “O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota”, uma compilação de textos do youtuber Olavo de Carvalho.

Três meses depois, o governante visitou Jerusalém, e ao sair do museu da Memória Yad Vashem (Museu do Holocausto), manifestou: não há dúvidas de que o nazismo foi um movimento de esquerda. Uma afirmação que o próprio centro de investigação do museu, refuta em sua página web: “Hitler e o Partido Nazista chegaram ao poder devido a circunstâncias sociais que caracterizaram o período entre guerras na Alemanha. Muitos alemães não podiam admitir a derrota de seu país na I Guerra Mundial e (…) essa frustração, junto com a resistência intransigente e os alertas sobre a crescente ameaça do comunismo, criou um terreno fértil para o crescimento de grupos radicais de direita na Alemanha, o que gerou entidades como o Partido Nazista”.

O suposto de que o fascismo e o nazismo foram movimentos de esquerda seduz os aderentes do centrismo, e certas expressões neo ou pós-direitistas. Olavo de Carvalho, por exemplo, acredita que o socialismo tem três eixos: o fabiano (que nega a luta de classes), o marxista e o nacional socialista.

O jornalista Pablo Stefanoni explica que o fabianismo seria uma espécie de confraria mundial poderosa, que inclui de Barak Obama até os militares desenvolvimentistas da ditadura militar brasileira (1964-85), enquanto os nazistas e marxistas estão mais interessados em debilitar o capitalismo. Stefanoni, por exemplo, agrega que a ideia de que o fascismo e o nazismo são de esquerda foi uma fake news criada para refutar a acusação de que o ex-capitão Bolsonaro seja um fascista.

Se torna necessário, então, recordar que o movimento nazifascista também teve forte apoio popular na Itália e na Alemanha, e que, em ambas sociedades, sua condução política esteve regida pelos setores mais retrógrados, obscurantistas e conservadores.

Benito Mussolini, socialista em sua origem, traiu os ideais de seu partido e se identificou com o Partido Nacionalista e o futurismo, movimento liderado pelos poetas Gabrielle D’Annunzio e Filippo Marinetti. O berço ideológico do fascismo se encontra no futurismo, escreveu Benedettto Croce, em 1924.

Adolf Hitler, cabo condecorado e pintor de brocha, começou sua carreira política como um vulgar alcaguete do Exército alemão. Em 1919, Hitler ingressou no minúsculo Partido Operário Alemão (POA), dirigido pelo engenheiro Gottfried Feder, que assegurava que o capital produtor era próprio da raça ariana, em oposição ao capital especulativo dos judeus.

No POA, Hitler leu o folheto chamado “Meu despertar político”, de Anton Drexler, um velho serralheiro intimamente ligado a Feder, o qual se pode dizer que foi o verdadeiro fundador do nacional-socialismo.

O fato é que Hitler se transformou no sétimo membro do Comitê diretor do POA, agrupação que contava com 60 aderentes. Mas, em poucos anos, enquanto os comunistas apontavam os socialdemocratas como seus inimigos principais, o Partido Nazista somava 13 milhões de militantes, colaboradores e simpatizantes.

Aí estavam Ernst Roehm e Dietrich Eckart. O primeiro era capitão do Estado Maior em Munique, e foi o organizador das tropas de assalto (as chamadas SS, ou camisas pardas), enquanto o jornalista Eckart (fundador espiritual do nacional-socialismo), profundamente anti judeu, colocou Hitler em contato com Alfred Rosenberg (intelectual nascido na Rússia, de ascendência alemã) e Rudolf Hess (o verdadeiro redator do clássico Mein Kampf). Logo, viria Herman Goering, herói da aviação na I Guerra.

Por sua vez, o capitão Bolsonaro se aliou ao bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal (neopentecostal) e coautor do livro “Plano de Poder” (2018), que para o jornalista brasileiro Kiko Nogueira é “quase um Mein Kampf, em quanto à sinceridade, falta de pudor, ambição, fanatismo religioso e loucura. O crescimento dos evangélicos é considerado algo estabelecido na própria Bíblia (…) se trata de um livro que sugere a resistência e a tomada do poder”.

Durante um encontro com pastores evangélicos, Bolsonaro disse que os crimes do Holocausto podem ser perdoados. Contudo, nesta mesma ocasião, e diferente do primeiro caso (quando nenhum funcionário de Tel Aviv questionou o seu grande aliado da América do Sul), o presidente israelense, Reuven Rivlin, resolver contestá-lo:

“Sempre seremos opostos àqueles que negam a verdade, ou àqueles que desejam apagar a nossa memória (…) os historiadores são os que descrevem o passado e investigam o ocorrido. Ninguém deve entrar no terreno do outro”.

Que grande ironia! Rivlin preside a entidade neocolonial que, desde 1948, entrou no terreno do outro, e que a partir de então passou a negar e a apagar a memória do povo palestino.

José Steinsleger é um jornalista e escritor argentino residente no México, e colunista do La Jornada

*Publicado originalmente no La Jornada | Tradução de Victor Farinelli



Conteúdo Relacionado