Política

Entrevista a Vicenç Navarro: "o ultranacionalismo é um disfarce para enfiar o neoliberalismo goela abaixo da classe trabalhadora"

Entrevista com o cientista político Vicenç Navarro

28/05/2020 15:23

(EFE)

Créditos da foto: (EFE)

 
O cientista político Vicenç Navarro atribui a crise atual ao austericídio e às prioridades que o neoliberalismo impôs à população da Espanha e de outros países. Um dos reflexos disso é o enfraquecimento dos serviços públicos, incluindo o de saúde. Portanto, é urgente um grande investimento social, destinado a diferentes aspectos, desde a ampliação das estruturas de saúde até o estabelecimento de uma renda vital mínima.

O prestigioso professor de ciências políticas e sociais da Universidade Pompeu Fabra vê um mundo diferente após a pandemia do novo coronavírus, embora acredite que os governos devam aprender a se impor sobre os interesses das grandes empresas para criar uma sociedade mais justa e solidária.

Uma tarefa difícil, embora necessária para impedir que as desigualdades aumentem. Hoje é o futuro, um presente que precisa de mais Estado e um “New Deal social”.

“Os recursos para criá-lo existem, mas são distribuídos injustamente”, diz o também professor de Políticas Públicas da Universidade Johns Hopkins.

Pergunta: Guardadas as devidas proporções, pode-se dizer que esta crise é mais complexa que a de 2008? Que efeitos econômicos você vê a longo prazo? Quem pagará esta conta?

Vicenç Navarro: A atual crise econômica é muito diferente da de 2008. É uma crise repentina e muito mais profunda que a daquele então, e com causas muito diferentes. A de agora foi causada pela crise financeira decorrente da atividade especulativa do capital financeiro, que havia crescido enormemente como resultado do crescimento da dívida privada, o que, por sua vez, foi causado pela queda nos salários derivados da aplicação de políticas neoliberais.

A crise de 2008 vinha se formando há vários anos. Esta crise, no entanto, foi repentina. Em menos de quatro semanas, a atividade econômica ficou praticamente paralisada devido a uma pandemia. E seus efeitos serão muito maiores que os da crise anterior. Isso terá um efeito devastador na qualidade de vida e no bem-estar da população, principalmente das classes populares.

Não há dúvida de que o mundo pós-pandemia será diferente do mundo anterior. E pode ir na direção de acentuar a necessidade de criar uma sociedade mais justa e solidária, ou na direção de continuar as políticas cruéis e discriminatórias que já haviam começado com as políticas neoliberais que dominavam a atividade econômica.

Não excluo a possibilidade de que, na Espanha, o caminho tomado será o segundo, devido à enorme influência das forças conservadoras no Estado, o que aumentaria ainda mais as enormes desigualdades existentes em nosso país atualmente.

Pergunta: As grandes empresas se beneficiarão da demissão ou redução de salários? Forçarão novas reformas trabalhistas? Por outro lado, que consequências a pandemia terá no futuro? Alguma mudança no modelo econômico e social? Estamos diante de uma oportunidade de modificar o sistema?

Navarro: Meu pessimismo é baseado no fato de que parece não haver consciência de que as prioridades que o neoliberalismo tem imposto à população nos levaram à situação atual.

O austericídio explica a grande profundidade da crise. O que aconteceu nos Estados Unidos, na Itália, na Espanha, no Reino Unido, entre outros países, é um exemplo disso. Os serviços estatais de assistência social, como os serviços de saúde, foram bastante enfraquecidos por essas políticas neoliberais.

Os serviços do estado de bem-estar social devem estar no centro de qualquer sistema econômico, pois são a condição de sua segurança e soberania. E temo que essa visão de senso comum não esteja penetrando nos establishments econômicos, políticos e midiáticos desses países, incluindo a Espanha. Daí a necessidade de mudar a ordem econômica atual, na qual os interesses das minorias empresariais vêm sistematicamente antes do bem comum.

Pergunta: A oposição espanhola critica a gestão da saúde do governo, mas as gestões de suas referências internacionais não podem ser descritas como exemplares. Um governo de direita faria melhor?

Navarro: A via neoliberal atinge sua expressão máxima no trumpismo, que mostra a enorme crueldade da qual o ser humano pode ser capaz. Trump, Bolsonaro, Johnson e outras figuras políticas de extrema direita representam a defesa dos interesses de grandes grupos econômicos contra os protestos populares que suas políticas geraram. É a versão do Século XXI do que era o fascismo do Século XX.

Seu extremo nacionalismo é um disfarce usada para esconder seu ultraneoliberalismo profundamente anti operário, enfiá-lo goela abaixo da classe trabalhadora. Seu papel é semelhante ao do fascismo no Século XX para frear o socialismo em todas as suas versões. Seu triunfo seria o estabelecimento de regimes autoritários e xenófobos, sexistas e profundamente reacionários.

Devemos ter em mente que, na Espanha, existe um amplo e fértil terreno para esta via, uma vez que a transição não foi um rompimento com o regime ditatorial anterior, e a extrema direita continuou a exercer uma grande influência sobre o Estado espanhol.

As esquerdas dominantes foram parcialmente responsáveis %u20B%u20Bpor isso, devido à sua idealização da transição, que foi apresentada como exemplar.

Na Espanha, a enorme hostilidade da direita com relação ao governo de coalizão de esquerda é um exemplo claro de uma atitude tão antidemocrática e de sua hostilidade expressa no momento em que a profundidade da pandemia exige imediata solidariedade e unidade de ação.

Pergunta: Essa situação nos leva a um túnel ou devemos transformá-lo em um farol para nos guiar ao futuro?

Navarro: Essa atitude está dificultando a mudança de orientação das políticas econômicas do atual governo espanhol. No momento, é necessário um grande investimento social, reforçando serviços de saúde, serviços sociais, habitação social, serviços de apoio à família – como creches e assistência domiciliar – e transferências sociais, como uma renda mínima garantida, entre outras medidas. Tudo isso como parte de um “New Deal social”.

Também é necessário reordenar todo o sistema produtivo, orientando-o para o bem comum. Precisamos fabricar mais respiradores que evitem a morte dos doentes, e menos automóveis; mais máscaras, luvas e outros materiais de proteção, e menos roupas de marca para as classes ricas; mais vacinas para prevenir pandemias e remédios para curá-las, e menos armas que são inúteis, exceto para matar. E, assim, uma longa lista de etceteras.

A demanda popular por isso é clara e se expressa no fenômeno maciço das oito da tarde todos os dias, e isso ocorre nos dois lados do Atlântico Norte – de Barcelona a Nova York, de Sevilha a Estocolmo. Os aplausos aos trabalhadores da saúde e aas vítimas que morrem significam uma crítica ao vitimador, que não é outro senão o poder econômico, que prioriza os interesses econômicos e financeiros das minorias sobre o bem comum.

Os recursos para criar o “New Deal social” existem, mas são distribuídos injustamente. O nível extremo de desigualdade que existe hoje na Espanha, e que está aumentando durante a pandemia, é profundamente injusto. Portanto, o Estado deve apoiar medidas que colocam o bem comum acima de tudo, enfrentando os interesses adquiridos que dominam a vida econômica e política do país.

Eles devem colocar como objetivo a correção das desigualdades de renda, como propriedade do país. Sem essa correção, esse “New Deal social”, que a Espanha precisa tanto quanto o ar que se respira, não poderá ser criado. Simples assim.

*Publicado originalmente em 'Público' | Tradução de Victor Farinelli



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