Política

Especialistas debatem economia e segurança dos Estados Unidos em nova configuração geopolítica

 

13/12/2019 07:40

(Reprodução/Facebook)

Créditos da foto: (Reprodução/Facebook)

 
Na esteira de debates da Conferência Brasileira de Estudos Políticos sobre Estados Unidos, promovida pelo INCT-NEU na PUC-SP, os professores Mônica Hirst (Universidade Torcuato di Tella), David Sogge (Transnational Institute – Holanda), Lia Vals (FGV-RJ) e Leonardo Ramos (PUC-MG) debateram o tema “Estados Unidos no mundo: economia política e segurança internacional”. A mediação da mesa ficou por conta do professor Tulio Vigevani (PRGRI, Unesp, Unicamp e PUC-SP).

Ao fazer um balanço da geopolítica desde a Guerra Fria, os debatedores foram unânimes na crítica às políticas de “ajuda humanitária” promovidas pelos Estados Unidos em outros países do mundo. Todos concordam que esta prática sempre vem acompanhada de um projeto de intervenção e desrespeito à soberanias lastreado em poder militar. O resultado, em diferentes épocas e regiões do mundo costuma ser bastante parecido: economia destruída e cenário político fragilizado, quando não, destruído.

Lia Vals explica que o que muda na configuração contemporânea é o peso da China neste tabuleiro que cada vez mais avança no campo de tecnologia e defesa. Para a economista, esta será a grande disputa do século, uma vez que o comércio exterior não debate mais tarifa e sim patentes e regulamentações. “O tema da governança do comércio é mais complexo que a área financeira ou de segurança hoje num mundo globalizado. Porque as regras de comércio tem a ver com as políticas comerciais e industriais de cada país então como é que organiza isso?”, questiona.

A Organização Mundial do Comércio tem tido muita dificuldade com estes novos desafios, explica. O debate é urgente também porque mudaram os atores que participam. “Esses novos temas ganham importância porque a sociedade quer discutir isso. Antes existia a discussão só em torno do produtor. Hoje você tem também uma discussão do lado da sociedade, principalmente na Europa e nos EUA que defendem determinados tipos de padrões e normas que você tem que acomodar. E isso significa formas diferentes de se organizar. A questão do meio ambiente tem isso muito claro. Diferente dos anos 80, hoje não se quer só harmonizar e reduzir custo. Agora tem que fazer convergências regulatórias e estabelecer os níveis de precaução. A OMC tem muita dificuldade com essa nova agenda”.

Segundo Lia, quem avançar nesta corrida tecnológica vai dominar o cenário das próximas décadas e a China vem despontando. “A China tem um projeto muito claro de ascender ao primeiro mundo e isso significa liderança tecnológica. Então ela busca espaço para

ter suas políticas respeitadas e garantir que vai passar de ser chão de fábrica para ser uma economia líder em termos por exemplo de tecnologia e serviços”.

Entretanto, este posicionamento mais incisivo da potência asiática não deve ser visto como uma ameaça ao mundo ocidental, garante Lia. “Os chineses não estão querendo conflito com o mundo ocidental, mas nas instituições multilaterais de comércio eles precisam de avanços porque eles operam o comércio como um todo, num princípio eles não querem só ficar na Ásia e o dinamismo da economia chinesa exige uma formação comercial muito mais ampla. Na verdade, eles querem hoje da OMC coisas que os EUA e a Europa já quiseram no passado, são formulários de autorização para exceção”.

Em meio a esta nova configuração global onde a disputa é tecnológica, o Brasil deveria “ser sempre muito discreto e manter sua posição multilateral para tirar proveito da situação quando for possível com jogo de cintura. Além disso, ter propostas propositivas”, defende a professora.

Ajudas humanitárias e políticas de guerra

O professor David Sogge é autor de diversos livros sobre o impacto das ajudas humanitárias norte-americanas pelo mundo. Para o debate na PUC, preparou uma retrospectiva histórica a fim de esclarecer que esta prática de intervenção dos EUA é antiga e em diferentes períodos históricos foi mais ou menos intensa. “Depois da primeira guerra mundial a ‘ameaça dos bolcheviques’ foi um ponto que recebeu muita atenção na Casa Branca”.

Os Estados Unidos usaram como justificativa a ascensão da União Soviética após a revolução de 1917 para impulsionar ainda mais suas políticas intervencionistas. “Em 1918 o secretário de Estado norte-americana deu o seguinte conselho: ‘a intervenção armada para proteger a ajuda humanitária… seria muito preferível à ação armada antes do início dessa ação’. Significa que seria muito melhor uma ação humanitária antes de uma intervenção militar. Esse conselho tem um eco dez anos depois num documento escrito por um pensador alemão do partido nazista bem conhecido sobre humanitarismo, Carl Shmitt, deu o seguinte conselho em termos teóricos e práticos para tomadores de decisões sobre intervenções imperialistas: ‘o conceito de humanidade é um instrumento ideológico especialmente útil de expansão imperial, e em sua forma ético-humanitária, é um veículo específico do imperialismo econômico”.

Com o passar dos anos, as políticas norte-americanas estão um pouco mais polidas (bem pouco), mas a essência é a mesma, garante o professor. “Hoje temos um conceito de paz liberal, mas as linhas do FMI e do Banco Mundial continuam a ser mais ou menos os mesmos, apesar de um novo discurso. Privatização, austeridade, boa governança são conceitos bem conhecidos que estavam muito em destaque nos anos 2000 até 2010, agora já está um pouco menos, mas continuam a ser formalmente uma linha a seguir”.

Segundo o estudioso, os alvos escolhidos pelos Estados Unidos têm alguns pontos em comum e o resultado costuma ser igualmente agressivo em todos. “Uma das linhas é apoiar democracias, mas democracias de baixa intensidade e assim surgem os momentos de coerção, como reforma econômica coercitiva, mas nunca de libertação. Há também os projetos de cooperação com governos que não tem nada a ver com democracia”.

Um dos casos emblemáticos dessa política externa norte-americana é a primeira invasão no Iraque, nos anos 90. Passados quase 30 anos, hoje existem relatórios que admitem o fracasso da ação. Também é considerada fracassada a invasão no Afeganistão, bem como a mais recente investida de ajuda humanitária no Haiti. “Um novo relatório do Brookings, que está perto do coração das tomadas de decisão de Washington, concluiu recentemente que a intervenção no Iraque foi um fracasso porque faltava, entre outras coisas, uma abordagem que criasse condições de empregos principalmente para os jovens. E como vocês sabem, ultimamente cada dia há protestos nas ruas”, explica o professor.

O especialista conclui que “a ajuda militarizada, em via de regra, produz poucos empregos decentes, faz uma distribuição de renda ‘pra cima’ [ou seja, aumenta ainda mais o fosso social uma vez que concentra riqueza ao invés de distribuí-la], amplia as desigualdades horizontais e verticais, traz retrocessos nas áreas de habitação e na vida cotidiana dos povos pobres, além de causar impactos negativos no meio ambiente e nos serviços públicos”.

O impacto da nova configuração geopolítica na América Latina

A professora Mônica Hirst trouxe um amplo estudo sobre o mundo multipolar focado nas três potências: Estados Unidos, Rússia e China e o impacto disso especificamente na América Latina. Segundo ela, a política externa norte-americana costuma usar de duas ferramentas, ou alinhamento automático, ou coerção, e no caso do território latino-americano a primeira tem surtido efeito. Ela cita os exemplos dos governos do Brasil, Colômbia, Chile, Argentina (no período de Maurício Macri) que formaram o que ela chamou de “brigada de subalternos” disposta a defender os interesses externos em detrimento das soberanias nacionais.

“O que parece ter sido percebido como mais útil e mais à mão é um multilateralismo de segunda classe, toda a funcionalidade, a instrumentação da OEA como um espaço de revisitação de uma agenda hemisférica. Ela foi construída historicamente à luz da política de contenção dos anos 40 vinculada a uma agenda hemisférica de contenção, e neste momento ela está colocada e percebida pela Casa Branca e pelo Departamento de Estado como parte desta política de promoção internacional vinculada aos EUA primeiro”, explica.

Fora o alinhamento automático e a coerção, os EUA usam também o discurso brando para manipular outros Estados. “Não há dúvida nenhuma de que a retórica, a presença de uma ideologia de extrema-direita com conteúdos muito concretos e claramente identificáveis são e devem ser percebidos como instrumentos de poder brando nessa construção. Não são, de maneira nenhuma, acidentais, nem decorativos. Eles cumprem uma função política concreta de vinculação e sentido de pertencimento”.

Para conseguir formar essa “brigada de subalternos” na América Latina, os EUA precisaram isolar a Venezuela, uma vez que o país liderado por Nicolás Maduro se posicionou como um empecilho para a expansão norte-americana em território latino-americano. Para fazê-lo, a Casa Branca usou ferramentas antigas, muito aplicadas contra Cuba, que são as sansões e os bloqueios econômicos.

“O isolamento da Venezuela foi extremamente funcional para aglutinar o rebanho. Criar uma lógica de construção de interpretação obviamente de conflito, de exclusão, de legitimação de medidas e posições coercitivas, existe uma coerência entre isolar a Venezuela e votar a favor do bloqueio a Cuba na Assembleia das Nações Unidas. É uma lógica de aceitação de políticas de instrumentos da coerção, da diplomacia da coerção no âmbito interamericano e isso inclusive termina fazendo com que aquele multilateralismo de segunda chegue quase à terceira”.

Segundo a professora, com esta tática os EUA conquistaram o que ela qualifica como um “grupo de apoio de baixo custo de transação” na América Latina. “Chile, Colômbia e Brasil fazem parte deste grupo”. Entretanto, essa política não tem tido as consequências esperadas e “de fato houve um erro de cálculo que nesse momento leva a uma retração”.

Na visão de Mônica, é possível esperar uma reação progressista uma vez que “o governo de Sebasitán Piñera (no Chile) está contestado, o governo de Iván Duque (Colômbia), contestado, a política externa e a atuação do Brasil é disfuncional em sua exacerbação ideológica; Juán Guaidó está desidratado e a Venezuela perde sua função neste contexto. O golpe na Bolívia é uma retirada honrosa desse próprio projeto uma vez que não conseguiu mudar o regime”.

Financeirização, endividamentos e crise econômicas nos EUA

Por fim, o economista Leonardo Ramos recapitulou episódios do sistema financeiro norte-americano desde a década de 70 e jogou luz onde ele acredita que será o foco da próxima crise econômica do país, quiçá até equivalente à grande bolha de 2008, que atingiu em cheio a economia de parceiros comerciais.

Segundo Leonardo a partir da década de 70 é possível observar principalmente duas tendências nos EUA: fortalecimento do setor financeiro, que diz respeito à ascensão do Vale do Silício e este modelo econômico muito baseado na figura do CEO; e endividamento, que está associado principalmente à emergência da classe média.

“O endividamento tem uma consequência distinta do desemprego, uma vez que é uma experiência individual, cada um tem uma relação diferente com seu endividamento. Diferente do desemprego em massa que tem uma consequência de gerar uma experiencia coletiva, a tendência do endividamento é gerar uma atomização. Isso gera um saco de batatas e pode levar mesmo a um bonapartismo, ou ao czarismo, mas não necessariamente um processo coletivo fascista como nos anos 30. A tendência mais próxima é de alguém que equilibra esse processo”.

Com esta análise, Leonardo explica a chegada de Trump à Casa Branca que, para ele, está intimamente ligada a um discurso destinado à classe média endividada e defensora de valores nacionalistas. “Um sujeito que ascende politicamente articulando um discurso que busca mobilizar essa classe trabalhadora nacionalmente orientada. Seja porque essa classe está perdendo seus empregos, em contraposição ao que seria uma nova burguesia de orientação global e que se expressaria em Wall Street. Esses CEO de alta remuneração… Então o Trump tem um discurso de ataque a essas elites que ganham também ligadas ao ascendo da China”.

Contudo, apesar do discurso sinalizar para um enfraquecimento do modelo de financeirização, a ação prática vai para o lado oposto, uma vez que a economia norte-americana depende desde sistema para se reciclar. “Em última instância o que a gente chama de ‘limites do processo Trump’ é um discurso voltado para um setor específico, mas com práticas que atendem também quem ele a princípio criticava”.

“A possibilidade de uma crise sistêmica ainda está presente, a financeirização ainda continua como um ator central, e quando eu penso exatamente o caso no âmbito internacional se essa possibilidade de crise aparecer, a situação atual do Fundo Monetário Internacional não é das melhores… Dependendo do modelo econométrico que for usado, as medidas adotadas que podem gerar um crescimento econômico num curto prazo, mas no médio prazo vai aumentar endividamento, a desigualdade e a financeirização. O que mostra que em breve teremos péssimas notícias”.

Confira a íntegra da Mesa-Redonda clicando aqui (parte 1) e aqui (parte 2)






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