Política

Estamos em guerra

 

25/03/2021 10:59

(Reprodução/bit.ly/3lMFPVS)

Créditos da foto: (Reprodução/bit.ly/3lMFPVS)

 
“Em vez de sofrer cortes, como outros ministérios, recursos para as Forças Armadas subiram e chegaram a 8,32 bi; para a área de saúde, houve um aumento de apenas R$ 1,2 bi em relação ao projeto que foi enviado no ano passado”, noticiou o “Estadão” em 23/03/2021.

Bacana, isso, não?

O pessoal da linha de frente da saúde, que vive um estresse diário absurdo nos hospitais, como também alunos e professores sem acesso à internet, não chegam nem perto dessas contas.

Parece que “vamos muito bem, obrigado” nas áreas da saúde, da educação e do meio ambiente e que os servidores civis que trabalham nesses setores “supérfluos” da nossa “promissora sociedade” devem estar vivendo numa boa, com um bom estoque de “leite condensado” para suas necessidades básicas.

Diga-se de passagem, que não chegamos nessa situação, em que se privilegia a corporação do presidente da república, por acaso. A nossa “promissora sociedade”, que gosta e venera qualquer cidadão de farda para chamar de seu, votou no “mito” para colocar os militares num projeto de permanência de, pelo menos, uma geração no poder.

Na minha modesta opinião, do setor militar, somente deveriam existir o pessoal do Corpo de Bombeiros e das Bandas de Músicas para se ouvir umas marchinhas de carnaval, uns chorinhos e os clássicos do Glenn Miller. Fora isso, com todo respeito, não vejo muita função para as outras categorias a não ser ficar assistindo, indignado, o aparelhamento do estado, como a ditadura que aí está funcionando a todo o vapor.

Para interromper esse processo insano, concordo plenamente com o Fernando Haddad, que perguntou faz pouco tempo, depois de saber o resultado de uma pesquisa de opinião: "Que tal uma eleição?"

No entanto, entendo que esperar a eleição de 2022 é muito tempo e não teremos saúde para aguentar o tranco, se esse não for mesmo o plano do governo de plantão. Por que não antecipar as eleições utilizando-se as vias legais do Tribunal Superior Eleitoral e do Congresso Nacional para isso?

A cassação da chapa militar eleita, a elaboração de regras e calendário, entre outros assuntos correlacionados, teriam que entrar logo em discussão nos poderes judiciário e legislativo, porque motivos existem de sobra para uma movimentação nesse sentido. Ou existe algum impedimento constitucional para que as eleições não possam ser antecipadas, se os trâmites legais forem respeitados?

Por exemplo, o trecho da “Nota da Defesa do Presidente Lula” de 23/03/2021, emitida logo após o final julgamento no Supremo Tribunal Federal sobre o caso da suspeição do juiz de Curitiba, aponta um bom motivo para antecipar as eleições: “Os danos causados a Lula são irreparáveis, envolveram uma prisão ilegal de 580 dias, e tiveram repercussão relevante inclusive no processo democrático do país.”

Aliás, o processo democrático do país, que vem sendo atropelado diariamente, nos faz lembrar um programa humorístico que passava na TV aberta, nos anos de chumbo da década de 70, que era o “Faça Humor, Não Faça Guerra”. Nesse programa tinham dois louquinhos, o Lelé e o Da Cuca, interpretados pelos humoristas Jô Soares e Renato Corte Real. 

No hospício que virou o Brasil hoje não temos mais esses dois personagens inventados e a loucura é bem real. Hoje são mais de 300 mil os mortos por causa do coronavírus. Assim, como o dia 31 de março se aproxima, data que os militares gostam tanto de lembrar, fica aqui uma sugestão comemorativa: por que eles não se cotizam, fretam um navio de cruzeiro com exclusividade, e partem para uma excursão rumo ao Pinatubo?

Se a tropa de militares comissionados no governo que embarcar nessa excursão pedagógica tiver um mínimo de paciência, quando chegar ao Pinatubo, quem sabe não terão o prazer de assistir uma manifestação geológica dele, como uma comprovação definitiva de que a Terra é realmente plana.

A viagem pode ser longa, mas vale a pena. E, por favor, levem o chefe junto.

Heraldo Campos é Graduado em geologia (1976) pelo Instituto de Geociências e Ciências Exatas da Universidade Estadual Paulista – UNESP, Mestre em Geologia Geral e de Aplicação (1987) e Doutor em Ciências (1993) pelo Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo - USP. Pós-doutor (2000) pelo Departamento de Ingeniería del Terreno y Cartográfica, Universidad Politécnica de Cataluña - UPC e pós-doutorado (2010) pelo Departamento de Hidráulica e Saneamento, Escola de Engenharia de São Carlos, Universidade de São Paulo - USP



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