Política

Estudo analisa estratégia de PSDB e PFL para 2004

07/07/2004 00:00

O PSDB e o PFL já anunciaram que pretendem nacionalizar o debate político nas eleições municipais deste ano, procurando explorar pontos de desgaste do governo Lula junto à população. A estratégia oculta uma incoerência básica. Principais partidos da base de sustentação do governo Fernando Henrique Cardoso, ao mesmo tempo que aplaudem e elogiam a manutenção das linhas gerais da política macroeconômica da gestão anterior, criticam e pretendem explorar eleitoralmente efeitos negativos dessa mesma política, como baixo crescimento e desemprego.

Esse tema é objeto de análise no último boletim mensal da Fundação Perseu Abramo, ligada ao PT. Em artigo intitulado "Para onde vão os votos dos brasileiros?", o boletim da Perseu Abramo aponta a incoerência da estratégia da coalizão PSDB-PFL e defende que "não é a nostalgia dos anos FHC, mas a pressão para que o governo Lula deixe para trás os anos de crescimento pífio, desemprego alto e privilégios para o sistema financeiro que move os sentimentos dos brasileiros".

Em uma análise anterior, intitulada "A oposição programática de FHC ao governo Lula", a Perseu Abramo havia apontado o ressurgimento do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso no cenário político brasileiro, interpretando-o como um claro movimento para assumir a coordenação da oposição de centro-direita no país. Esse texto já identificava a incoerência que está na base desse movimento: ao mesmo tempo que FHC e seus aliados apóiam abertamente os princípios norteadores da gestão da economia no governo Lula (elogiando o papel desempenhado pelos ministros responsáveis pela condução dessa política), denunciam o que consideram ser "a retomada de um sentido intervencionista e nacionalista do Estado brasileiro em vários ministérios". Justamente os ministérios e órgãos conduzidos por petistas e não-petistas contaminados, segundo FHC pelo "mal desenvolvimentista": Reforma Agrária, Cidades, Relações Exteriores, Meio Ambiente, Integração Nacional e BNDES, centralmente. Onde reside exatamente a incoerência?

Estratégia cínica e instrumental
Trata-se, segundo essa análise, de uma estratégia cínica e instrumental, pois "são justamente os princípios que continuam governando a gestão macroeconômica a fonte principal de desgaste, como o demonstram em geral as pesquisas de opinião, da queda de popularidade do governo". O tema do aumento do salário mínimo seria exemplar, neste sentido, pois, ao contrário do que fizeram no período FHC, parlamentares do PSDB e do PFL defenderam um reajuste incompatível com as metas da política macroeconômica.

No entanto, tal estratégia estaria baseada em uma avaliação equivocada, a saber, julgar que o eventual desgaste do governo Lula será automaticamente canalizado para os candidatos da coalizão PSDB-PFL. "Entre a insatisfação com os resultados econômico-sociais do governo Lula até agora, principalmente no que diz respeito ao desemprego, e a adesão aos símbolos e personagens que a consciência democrática do povo brasileiro derrotou em 2002, há um campo de disputa aberto. E não há nenhuma indicação de que o povo brasileiro deseja retroceder aos anos FHC", sustenta o boletim da Fundação Perseu Abramo.

O texto também analisa o modo como essa estratégia vem sendo tratada pela mídia. O campo político liberal-conservador, organizado em torno da figura de Fernando Henrique Cardoso, estaria unificando os veículos mais influentes da grande mídia brasileira. O exemplo principal disso seria a revista Veja, que, em sua edição de 9 de junho, deu destaque de capa ao ministro da Fazenda, Antonio Palocci, apontando-o como o mais popular e poderoso do governo Lula. "É óbvio que ainda há problemas, e problemas graves, mas o desempenho de Palocci até aqui tem sido estrondoso", disse a Veja, que, ao mesmo tempo, identifica quais seriam os ministros adversários do titular da Fazenda: Olívio Dutra (Cidades), Miguel Rossetto (Desenvolvimento Agrário), Marina Silva (Meio Ambiente) e Ciro Gomes (Integração Nacional).

Movimentos similares são identificados em outros veículos, como Valor Econômico, O Globo e Folha de S. Paulo. A estratégia seria a mesma: elogiar e defender a "responsabilidade fiscal" do governo Lula e, ao mesmo tempo, criticar qualquer indício de "desenvolvimentismo" no mesmo.

A população quer voltar aos anos FHC?
Segundo essa estratégia, poderia parecer que existe uma relação direta entre a decepção daqueles que esperavam mais do governo Lula e um suposto desejo de volta aos anos FHC. Na avaliação da Perseu Abramo, após os anos FHC, o PSDB e o PFL não tem credibilidade junto à população para se instituir como símbolo de uma alternativa ao atual governo. O estudo da fundação cita números da última pesquisa CNT/Sensus para sustentar essa afirmação. Conforme essa pesquisa, quando perguntados sobre quais eram os problemas do governo atualmente, os entrevistados apontaram os mesmos itens das pesquisas anteriores: emprego (66,9%), distribuição de renda (10,4%) e saúde (8,2%).

A partir desses números, conclui que a contradição principal desses partidos está instalada no coração do discurso que vem empregando para falar do governo Lula: "Como conciliar o elogio à política econômica do governo Lula, como o faz reiteradamente FHC, e cobrar a resolução dos problemas de emprego, renda e distribuição de renda?"

Mas as contradições e incoerências da estratégia do PSDB e do PFL não implicam uma vida fácil para o PT nas eleições municipais desse ano. Pelo contrário, o PT tem as suas próprias contradições a resolver, especialmente aquelas relacionadas com a trajetória e o desempenho do governo Lula até aqui. O texto da Perseu Abramo reconhece esse problema e aponta seus riscos: "Centro de gravidade do governo Lula, de sua composição ministerial e de sua base parlamentar, a cultura petista trem sofrido nesta primeira metade do mandato de Lula um choque de realismo que ameaça colocar em risco a sua própria identidade".

É como se o lado utópico do partido, acrescenta, "tivesse sofrido as pressões inauditas dos poderes do mundo". E propõe, por fim, como caminho para superar esse problema um reequilíbrio das dimensões realistas e conservadoras do governo, "através dos impulsos transformadores do partido e de suas bases sociais". "Há muito de verdade nos juízos do povo brasileiro. Saber dialogar com ele com humildade é melhor do que fazer marketing em torno de números nem sempre analisados em todas as suas dimensões", conclui o texto, que pode ser encontrado em sua íntegra na página na internet da fundação.




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