Política

Eugênio Aragão ataca judiciário: é poder autoritário e gera 'fake news'

Ex-ministro da Justiça durante o governo de Dilma Rousseff, procurador do MPF aposentado teceu duras críticas à sua corporação em Porto Alegre

23/01/2018 13:26

Frente Brasil Popular/ Ireno Jardim

Créditos da foto: Frente Brasil Popular/ Ireno Jardim

Naira Hofmeister, de Porto Alegre

Procurador aposentado do Ministério Público Federal (MPF), o ex-ministro da Justiça sob o governo Dilma Rousseff Eugênio Aragão foi duro com sua corporação em uma análise feita em Porto Alegre, na noite de segunda-feira. A cidade concentra milhares de militantes que chegam para prestar solidariedade ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que será julgado em segunda instância no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4) na próxima quarta.

“O judiciário está inerte, misturando covardia e oportunismo”, disse na largada de sua fala, a última entre vários juristas que manifestaram contrariedade e apontaram inconsistências na sentença do juiz Sergio Moro que condenou Lula a 9 anos e meio de prisão no caso do triplex do Guarujá.

Aragão criticou “a entrada do Judiciário na era da pós verdade”, mencionando, além do caso Lula a exposição da imagem do ex-governador Sergio Cabral com algemas nos pés e nas mãos ao ser transferido para Curitiba após ser constatado que recebia favorecimento na cadeia onde estava. Para o ex-ministro da Justiça, houve uma “exibição pornográfica” desnecessária no caso do ex-governador.

“Ninguém está mais preocupado com a realidade. É a era da pós-verdade, se está na Globo ou se a Justiça diz que é assim, as pessoas aceitam”, lamentou.

O procurador aposentado do MPF teceu críticas severas sobre a maneira como vem agindo o Judiciário. No caso de Moro, apontou que o juiz de primeira instância “mostra sua posição política” ao participar de “convescotes com Aécio Neves” e se deixar fotografar ao lado de João Dória. “Existem sim juízes que fazem política partidária descarada. Mas como ele é homenageado na mídia, as pessoas acham que isso é normal”, completou.

Também qualificou a atuação de seus colegas da procuradoria como uma tentativa de gerar ‘fake news’ – notícias falsas – porque “faz manobras, sem provas, para criar um cenário que possa render para a imprensa”.

Na sua opinião, embora hajam integrantes do sistema Judiciário descontentes, “eles nãoa abrem a boca com medo de se expor”, uma vez que a Justiça é um poder “autoritário tanto para fora como para quem está dentro dela”.

Para Aragão, “o golpe de 2016 foi inteligente porque não usou coturnos” e se aproveitou de “fragilidades corporativistas da nossa sociedade”: “usaram (como justificativa) para se manter no topo da cadeia alimentar do serviço público”.

Ao final de sua fala, conclamou o público – que lotava o auditório da Federação dos Trabalhadores e Trabalhadores em Instituições Financeiras do Rio Grande do Sul – à resistência: “é fundamental contra a deterioração da função jurisdicional do Estado”.

Calor da militância impressiona senadores petistas

Não foi apenas o auditório da Fetrafi que ficou lotado nesta segunda-feira. Todos os ambientes do edifício sede da entidade estavam tomados pela militância pró-Lula e até na calçada em frente ao prédio havia grande concentração de gente.

Era tanta gente que chamou atenção do aposentado Paulo Roberto Dias, de 55 anos. Ele voltava para casa após o treino diário de basquete e percebeu o movimento anormal. “Sempre fui um homem de esquerda, acho a sentença de Moro política e não jurídica, mas estava meio por fora dessa programação. Agora estou me atualizando e vou acompanhar mais de perto”, celebrou.

Dentro do salão retangular onde as falas foram feitas, a plateia se manteve firme ao longo das mais de três horas de análises jurídicas, embora não houvesse cadeiras para todos e muita gente tenha ficado em pé ou preferido sentar no chão.

Em muitos momentos as falas foram interrompidas pelo público que cantava “olê, olê, olê, olá, Lula, Lulaaaaa”. Palavras de ordem contra a Globo e a sua retransmissora local, a RBS, também foram ouvidas.
O calor da militância impressionou os senadores petistas que participaram do ato, Lindbergh Farias e Gleisi Hoffmann – também presidenta nacional do Partido dos Trabalhadores. “Obrigada pela energia de vocês! É tão bom estar aqui, ver essa disposição para a luta”, disse, sensibilizada, Gleisi.

Para Gleisi, desde a deposição da ex-presidente Dilma Rousseff, esse é o momento em que a esquerda está recebendo mais apoio. “Acumulamos força política desde o golpe. Antes a população não tinha sentido os efeitos diretamente sobre sua vida”, observou.

Gleisi assinalou ainda que a presença dos simpatizantes lulistas em Porto Alegre é importante “não para pressionar a Justiça, pois isso não nos cabe”, mas sim “chamar atenção do mundo para o golpe continuado”: “A nossa jovem democracia foi abalada e precisa ser defendida”, bradou.

Lindbergh invoca Leonel Brizola

Antes de Gleisi, o também senador petista Lindbergh Farias já havia elogiado o público: “É bom ver uma plateia animada, focada e consciente do momento histórico que representam esses três dias”.

Jogando com o habitual bairrismo gaúcho, Lindbergh disse que uma audiência como aquela só poderia acontecer no Rio Grande do Sul “o único estado no País em que a História tem o peso que tem”. – em seguida enumerou personalidades e eventos políticos cujas trajetórias tiveram como palco o Rio Grande do Sul: o ex-presidente Getúlio Vargas, criador das leis trabalhistas, João Goulart, deposto pelos militares e o comandante da Cadeia da Legalidade, em 1961, Leonel Brizola: “Queria invocar ele especialmente hoje, no dia em que faria 96 anos, 22 de janeiro”, anunciou, para delírio da plateia.

Lindbergh avaliou ser “impossível não fazer um paralelo” entre o que aconteceu em 1961, quando havia um movimento para impedir a posse de João Goulart após a renúncia de Jânio Quadros – a dupla era sui generis; na eleição, Jânio era o candidato a presidente dos setores conservadores, e Jango estava no lado oposto do espectro político, porém, na época, era possível eleger presidente e vice de chapas diferentes.

“Com a renúncia de Jânio, a elite não queria deixar Jango assumir”, recordou o senador. “Foi então que o bravo Leonel Brizola convocou a Cadeia da Legalidade e durante 14 dias tensos comandou a resistência do Palácio Piratini e garantiu a posse”, complementou.

Para Lindbergh, as forças que derrubaram Dilma da presidência e tentam impedir Lula de disputar a eleição foram as mesmas que levaram Getúlio ao suicídio, que pressionaram contra a posse de Jango e finalmente instituíram o regime militar em 64. Em comum em todos esses momentos, na avaliação do senador, além da presença da “elite que não tem compromisso com a democracia”, estão os Estados Unidos: “Algum dia a história vai revelar o papel dos norte-americanos. É muito sintomático que Dilma tenha sido mais espionada do que líderes da China e da Rússia, conforme revelou Eduard Snowden”.

Os atos seguem ao longo desta terça-feira (23) em Porto Alegre, e contarão com a participação da ex-presidente Dilma, durante a manhã, em um evento das mulheres, e do próprio Lula, ao final da tarde, em uma caminhada com saída marcada para a Esquina Democrática.





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