Política

Ex-líder do governo FHC é maior adversário do petista Raul Pont

01/10/2004 00:00

Porto Alegre - O ex-senador José Fogaça, da coligação PPS-PTB, consolidou sua posição em segundo lugar na disputa eleitoral na capital gaúcha, conforme aponta pesquisa publicada nesta sexta-feira pelo jornal Correio do Povo. Se os números da pesquisa estiverem certos, Fogaça deve disputar o segundo turno com Raul Pont (PT). O candidato petista aparece com 36,8% na pesquisa estimulada (36,1% na anterior) e com 31,7% na espontânea. Fogaça tem 21,9% na estimulada (19,2% na anterior) e 17,2% na espontânea. Em terceiro lugar, bem atrás de Fogaça, vem o deputado federal Onyx Lorenzoni (PFL), com 9,1% no levantamento estimulado e 7,5% no espontâneo. A pesquisa do Correio do Povo ouviu 1,5 mil eleitores entre os dias 28 e 30 de setembro e tem uma margem de erro de 2,4 pontos percentuais para mais ou para menos.

Na noite de quinta-feira foi realizado o último debate entre os candidatos, na RBS TV, antes da eleição de 3 de outubro. Foi o debate mais agressivo de todos os realizados durante a campanha. Jogando suas últimas cartadas, a maioria dos candidatos da oposição fez duros ataques ao PT, ao governo Lula e à Administração Popular. O candidato Onyx Lorenzoni, da coligação PFL-PSDB, foi o mais agressivo de todos, chegando a lembrar inclusive o assassinato do prefeito de Santo André, Celso Daniel, procurando vincular o fato a uma suposta "maracutaia" entre administrações petistas e empresas de transporte e de controle de trânsito. Raul Pont, por sua fez, procurou reafirmar as conquistas da Administração Popular nestes 16 anos, destacando que a principal entre elas é a construção de um modelo de democracia participativa que tornou Porto Alegre conhecida no mundo inteiro.

A estratégia de Fogaça
Já o candidato José Fogaça manteve sua linha de campanha baseada em um discurso que elogia e diz que vai manter as principais realizações dos governos petistas, com ênfase para o Orçamento Participativo e o Fórum Social Mundial. Apresentando-se como "a cara da cidade" e como o único candidato capaz de implementar uma "mudança tranqüila", Fogaça vem se esforçando para desvincular sua candidatura de seu passado político recente.

Ex-líder do governo Fernando Henrique Cardoso no Senado, Fogaça foi relator e articulador de algumas das principais políticas daquele período, incluindo aí, entre outras coisas, o processo de privatizações e a aprovação da Lei Kandir. No Rio Grande do Sul, Fogaça sempre esteve ligado ao PMDB até que, em 2002, trocou o partido pelo PPS junto com um grupo ligado ao ex-governador Antônio Britto. Derrotado nas eleições estaduais de 2002, Britto anunciou sua saída da política e foi trabalhar como diretor executiva de uma grande fábrica de calçados do RS.

A tentativa de se desvincular desse passado é fundamental para a estratégia eleitoral de Fogaça, que procura se apropriar de alguns dos principais símbolos das administrações petistas. Afinal de contas, esses símbolos (como o OP e o FSM) foram construídos em um período em que Porto Alegre navegou contra a maré neoliberal que tomou conta do país, concentrada especialmente nos dois governos de Fernando Henrique Cardoso. E foi justamente navegando contra a maré e apostando no fortalecimento da democracia e do espaço público, contra a lógica da privatização da economia, do Estado e da política, que Porto Alegre se tornou uma referência mundial não só para a esquerda, mas para todos os setores que, de algum modo, tentaram resistir à hegemonia do pensamento único neoliberal predominante nos anos 90.

Em vários aspectos, Porto Alegre tornou-se uma espécie de trincheira de resistência a essas políticas. De resistência e de criação de alternativas, que têm no Orçamento Participativo, no Fórum Social Mundial, na valorização do público e em um conjunto de políticas de inclusão social seus principais símbolos.

Caras e máscaras
Neste processo, Fogaça estava do outro lado e, agora, para ele é vital tentar se apresentar com uma "cara nova" que sempre esteve ao lado da cidade. A disputa eleitoral na capital do Fórum Social Mundial reveste-se, assim, de um cenário onde caras e máscaras se confundem na disputa pelos corações e mentes dos eleitores. No debate da RBS TV, Raul Pont procurou mostrar que a cara nova de Fogaça é, na verdade, uma máscara. O candidato petista perguntou a Fogaça se, caso eleito, pretendia adotar a política de privatizações que caracterizou os governos que apoio nos últimos anos. O candidato do PPS tangenciou a pergunta, procurando jogar o ministro da Fazenda, Antonio Palocci no colo de Pont, lembrando que ele, quando prefeito de Ribeirão Preto, privatizou o serviço de água do município. Fogaça negou que pretenda privatizar qualquer empresa pública no município e reafirmou seu apoio ao Orçamento Participativo e ao Fórum Social Mundial.

Mas, nos últimos dia da campanha eleitoral em Porto Alegre, apareceu um problema que ameaça abalar a estratégia do ex-senador. Seu candidato a vice, o deputado estadual Eliseu Santos (PTB), um anti-petista assumido, reafirmou em um debate na televisão discursos que fez na tribuna da Assembléia Legislativa, chamando o FSM de encontro de "terroristas, traficantes, desocupados e seqüestradores". Eliseu Santos também é um velho crítico do OP, o qual já chamou de "famigerado OP" e de "orçamento falsificativo". As declarações do vice causaram contrariedade na coordenação da campanha de Fogaça, que desautorizou as palavras de seu companheiro de chapa. Afinal, um dos elementos centrais de sua campanha está em justamente manifestar apoio ao OP e ao FSM. Essa fissura entre os dois candidatos poderá ter repercussões no segundo turno, caso ele se confirme.

Tendências para o segundo turno
Nessa disputa, a tendência é que Raul Pont receba apoio explícito apenas do candidato Beto Albuquerque (PSB) que, nos últimos dias de campanha, já começou a bater forte em Fogaça, denunciando sua estratégia de esconder o passado e sua falta de experiência em qualquer cargo executivo. Os outros cinco candidatos de oposição devem se alinhar com Fogaça, mas esse movimento depende também de alguns acertos prévios. O PMDB, por exemplo, até hoje não engoliu direito a deserção do ex-senador junto com o grupo de Britto. Há quem diga que, na base do PMDB, muita gente votaria em Pont e não em Fogaça, por considerá-lo um "vira-casaca", falta grave na tradição política do RS.

Quanto aos dois pequenos partidos de esquerda, o PSTU e o PCO, a tendência é que suas direções se manifestem pelo voto nulo, o que pode ocorrer também com o grupo ligado à deputada federal Luciana Genro, engajado hoje na construção do P-Sol. Até agora, porém, não há nenhuma manifestação oficial neste sentido. Essa decisão pode ter um peso importante na reta final da eleição, uma vez que os candidatos do PSTU, Vera Guasso, e do PCO, Guilherme Giordano, juntos, podem ter mais de 1% dos votos. Seja como for, a confirmação desses movimentos só ganhará contornos mais nítidos a partir dos números que emergirem das urnas na eleição de domingo.



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