Política

Falta de dinheiro faz candidatos à direção do PT improvisarem

10/08/2005 00:00

São Paulo – O Processo de Eleição Direta (PED) do PT, que possibilita, através do voto, a participação direta dos filiados na escolha das direções municipais, estaduais e nacional do partido, transformou-se internamente no principal palco da disputa pelo poder partidário entre as várias correntes petistas. Agendado para 18 de setembro, este PED, porém, além de estar sendo profundamente marcado pela crise política do PT e do governo, enfrenta outro grave problema: a afirmação da direção do partido de que não há dinheiro para custear as campanhas nacionais, conforme prevê o regimento do PED.

De acordo com o coordenador da Comissão de Organização Eleitoral Nacional (COEN) do PED, Francisco Campos, que falou à Carta Maior nesta quarta (10), o montante necessário para "bancar tudo que está garantido no regimento" seria cerca de R$ 3 milhões. Mas até agora a tesouraria do PT, além de afirmar que não existem verbas para o processo (que, regimentalmente, deveriam cobrir ao menos transporte, hospedagem e alimentação das chapas e dos candidatos presidenciais em todos os estados do país para a realização de debates), não sinalizou com nenhuma mudança no quadro de penúria financeira do processo eleitoral.

"Esta será a eleição da criatividade. A tesouraria até agora não garantiu nada [de verbas], e diz que [o partido] tem dívidas mais urgentes. Isto sem dúvida pode gerar distorção e desigualdade no processo, já que algumas candidaturas têm mais condições financeiras que outras. Mas mesmo assim as campanhas estão na rua. O que foi proposto na última reunião do COEN é que os gastos feitos pelas campanhas serão reembolsados conforme as notas apresentadas assim que tivermos dinheiro para isso", explica Campos. A única garantia do PT, segundo ele, é que será rodado o jornal das teses de chapas nacionais e candidatos à presidência em "número suficiente".

O temor das candidaturas de esquerda de que, enfraquecido pela crise, o campo majoritário do PT daria um jeito de adiar o PED, como se rumorejava internamente no partido, é infundado, garante Campos. Ao menos depois dos últimos acontecimentos.

Segundo ele, espera-se que, dos cerca de 800 mil filiados, pelo menos 200 mil votem, o que significa uma entrada importante de receita, já que para participar do pleito os filiados terão que quitar suas dívidas com o partido (o valor mínimo da anuidade é de R$ 5,00). Isso, aliado aos pagamentos já efetuados pelos candidatos às 81 mil vagas de dirigentes deste PED no último dia 20 de julho, pode significar um pequeno alívio financeiro para o PT, mas até agora não se tem informações sobre onde estes recursos serão aplicados.

Cada um por si
Não sabe-se ainda se o PT vai bancar os custos dos debates entre os candidatos do PED. O primeiro, em todo caso, marcado para o próximo fim de semana (12 e 13/08) no Amapá e no Pará, foi adiado para início de setembro.

Enquanto isso, os candidatos se viram como podem. Dos sete - Tarso Genro (campo majoritário), Maria do Rosário (da tendência Movimento PT), Raul Pont (Democracia Socialista), Valter Pomar (Articulação de Esquerda), Markus Sokol (O Trabalho), Plínio de Arruda Sampaio (independente, apoiado pela Ação Popular Socialista) e Gegê (ligado ao movimento de moradia) – dois (Tarso e Gegê) não se organizaram ainda, e cinco estão mais ou menos na estrada.

A pindaíba dos novos tempos de certa forma fez com que o "comportamento de novo rico" dos dirigentes petistas, como Valter Pomar definiu a irresponsabilidade com os gastos no partido ("depois que a militância foi substituída no PT pela captação de recursos privados e de fundo público" para engraxar a máquina partidária), fosse coisa do passado. Viagens de jatinho, como as de José Dirceu no PED de 2001, obviamente são impensáveis, mas é a militância e os parlamentares das diversas tendências que basicamente estão financiando as campanhas.

Entre os candidatos até agora mais estradeiros, estão Raul Pont, Valter Pomar e Plínio Sampaio. O primeiro, sediado em Porto Alegre, esteve recentemente em Salvador, Fortaleza, Florianópolis, Brasília, São Paulo e outras capitais, onde procurou falar tanto com a militância petista quanto articular apoios com parlamentares locais.

"Em São Paulo, por exemplo, estamos nos reunindo com a chapa de José Eduardo Cardozo (deputado federal expulso da chapa nacional do campo majoritário e hoje cabeça de uma chapa estadual), tivemos um encontro em Sorocaba (SP) com militantes de 25 cidades da região, em Florianópolis tivemos um debate com o Bloco Parlamentar de Esquerda, estamos programando outra importante reunião em Barra Mansa, no sul fluminense, e continuaremos a viajar o país paralelamente às agendas dos debates oficiais", explica um dos coordenadores de campanha de Pont, Joaquim Soriano.

Segundo Soriano, os gastos com as viagens são rateados entre parlamentares da tendência e seus dirigentes, "cada um pagando um trecho de avião", os estados bancando materiais mistos entre as chapas locais e a nacional, "tudo no velho estilo da vaquinha".

Estratégia parecida tem sido adotada por Pomar, que, desde dezembro de 2004, fez campanha em 17 estados e pretende, antes do dia 18 de setembro, visitar os 10 restantes. "Tenho viajado muito, visitado as sedes do partido nos estados, procurando ocupar os meios de comunicação locais, enfim, me comunicar com toda a militância", explica.

Segundo ele, os custos também são bancados pela tendência (Articulação de Esquerda) e seus parlamentares, que devem descontar os gastos da contribuição mensal ao partido. "Tenho uma dívida de 40 mil reais com gráfica e outros, e calculo a minha campanha em cerca de 200 mil. Isso contando com a ajuda que recebemos da tendência nos estados".

Enquanto Pont, Pomar e, principalmente, a deputada Maria do Rosário (que, em função de seus compromissos na Câmara Federal, não tem viajado muito) contam com uma representação razoável de parlamentares em suas chapas (importante fonte financiadora, a chapa de Rosário conta com 12, a de Pont com nove e a de Pomar com oito deputados federais), Plínio Sampaio se escora mais na militância, segundo sua assessoria.

"Plínio tem viajado bastante, mas geralmente atendendo a convites de entidades e organizações para falar de conjuntura ou reforma agrária, ou devido a sua ligação com a Igreja. Estando com passagem e hospedagem pagas, tem aproveitado estas oportunidades para fazer campanha. Foi assim nas últimas semanas em Vitória, Porto Alegre, São Luiz, Fortaleza, Curitiba e no interior de São Paulo. Mas estamos investindo também no contato com intelectuais, e para setembro estamos organizando um grande encontro com economistas para debater a conjuntura", explica Edson Miagusko, que cuida da agenda do candidato.

Assessor do deputado federal Ivan Valente, Miagusko foi liberado, como forma de contribuição, para acompanhar as atividades de Plinio. Segundo ele, o mandato de Valente e o do deputado estadual Renato Simões estão neste suporte, emprestando pessoas para a campanha e para fazer a pagina na internet.

Já Maria do Rosário, que lançou sua campanha nesta terça (9) em Brasília, e Sokol, cuja tendência O Trabalho é pequena e só conta com alguns vereadores, não fizeram viagens. Disposta a participar dos debates do PED a partir de agora, Rosário investiu em material de campanha como folders e adesivos, e conta com a ajuda dos membros de sua chapa nos estados.

Sokol, por outro lado, se mostra bastante reticente quanto a investimentos pessoais na campanha, "já que não existem garantias de que seremos reembolsados. Mandei meu material para o PT, que o publicou na página do PED, e exijo que o partido cumpra seu dever de financiar o processo".

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