Política

Feministras: um governo de mulheres

Será que o exemplo espanhol fará com que o cacarejado argumento de que 'não encontramos mulheres para todos os cargos' seja finalmente exposto como algo tão falso e perverso quanto as próprias estruturas patriarcais?

07/06/2018 19:05

 

 
 
Por Ana Pardo de Vera, para o Público.es
 
Não tenho muito mais o que dizer além do que já foi dito sobre o novo Conselho de Ministras, com a permissão da Real Academia Espanhola e do seu diretor, meu professor e compatriota Darío Villanueva, que será responsável pela atualização e modernização de uma instituição vital para a inserção transversal das mudanças sociais, com uma linguagem mais inclusiva. Uma tarefa que eu não invejo, mas confio nele, e aguardo os resultados.

Apesar de ser politicamente incorreto uma jornalista felicitar com entusiasmo o presidente de um governo, hoje quero plasmar aqui, claramente, o meu agradecimento a Pedro Sánchez, por algo tão simples como o fato de ele fazer justiça com as mulheres deste país, deixando um recado bastante contundente: em um governo de indiscutível validade e legitimidade, independentemente dos resultados que o esperam no futuro, as mulheres constituem uma maioria absoluta e ocupam 11 dos 17 ministérios. Mas, diga-nos presidente, foi muito difícil encontrar mulheres com a trajetória de Carmen Calvo (ministra-chefe da área política, que acumula também a função de vice-presidenta), com a competência de Nadia Calviño (Economia), a credibilidade de Teresa Ribera (Transição Ecológica), a valentia de Carmen Montón (Saúde e Bem-Estar Social), a força de Magdalena Valerio (Trabalho, Migrações e Seguridade Social) ou a tenacidade de Meritxell Batet (Política Territorial), entre outras qualidades delas e das demais? Será que o cacarejado argumento de que “não encontramos mulheres” será finalmente exposto como algo tão falso e perverso quanto as próprias estruturas patriarcais?

Este é um momento muito importante para todas nós. Para todas, sem exceção, sejamos de direita ou de esquerda, centro, meio-centro ou quarto minguante, para as que gostamos e para as que não gostamos ou somos indiferentes a este governo. Nós, as feministas, lutamos pela igualdade de todas e este gabinete de ministras é uma vitória das feministas, da pressão social dos últimos anos e da revolução violeta do 8-M. Ainda está por ver-se quanto há de verdadeiramente feminista na política impulsada pelo Executivo, mas o que virá não tira o sabor deste momento. E não esqueçamos que o PSOE (Partido Socialista Operário da Espanha, do qual faz parte o presidente Sánchez) terá Adriana Lastra como sua porta-voz na Câmara dos Deputados, uma lutadora e feminista assumida. Muita coisa ainda tem que acontecer, mas a porta da História foi aberta hoje. Pedro Sánchez entendeu a mensagem de mudança, e isso é já é um fato positivo.

Neste ofício, é difícil evitar que as lágrimas escapem: as notícias chegam como uma enxurrada na redações, entre cruéis assassinatos, tragédias como as da Guatemala, feminicídios, anciãos encontrados mumificados após anos de esquecimento, crianças desnutridas, estupros que terminam em quase impunidade, pessoas desalojadas de seus lares por falta de dinheiro, crianças desnutridas, bebês maltratados... Dramas, coisas que doem, e passam, e doem de novo, e logo vem a seguinte notícia, e outra, e outra.. Coisas desse que eu chamo, como antes chamava García Márquez, o ofício mais belo do mundo, apesar de ferir permanentemente.

Com todas as minhas duas décadas de experiência, hoje eu chorei ao constatar que o governo de Sánchez seria majoritariamente feminino e feminista. Chorei porque me lembro dos 39 feminicídios e assassinatos na Espanha em 2018, e dos 99 em 2017, e das centenas de outros casos que conhecemos, e dos que nem sabemos, que sequer entram para a estatística. O histórico Conselho de Ministras é também das assassinadas pelas mãos dos homens.

Na minha mente, que hoje não me deu trégua, também surgiram os pequenos cadáveres de bebês e crianças assassinadas junto com suas mães, ou mortas em vida, por homens que disseram que as amavam, mas que só queriam possui-las.

No meu coração, mais que em nenhum outro dia, está a jovem vítima da “manada” (um caso de estupro coletivo, que aconteceu em Pamplona, em 2016), vítima das leis e legisladores injustos, e dos meios sensacionalistas. A adolescente violentada, cujo sofrimento se projeta sobre o de todas as mulheres que já sofremos violência sexual, que haveremos de ser a totalidade, em maior ou menor grau. A mulher cuja impotência enfurece as mulheres violadas que falam e as que se calam, as que denunciam e são insultadas, questionadas e humilhadas, ou, no pior dos casos estigmatizadas. Este governo é o da vitória do sofrimento e do fim do silêncio. De Juana Rivas, maltratada, agredida e que perdeu a guarda dos filhos por tentar fugir daquele abuso com eles, graças a juízes sem alma nem decência.

Tenho hoje, ao meu lado, os nomes das feministas insultadas, ameaçadas e violentadas nas redes sociais, entre elas, muitas jornalistas, que denunciam a desigualdade de oportunidades e professionais que revelam seus salários infames, que são mais baixos porque são elas e não eles. Tantas. Tantas!

Na torrente de sentimentos encontrados, me lembro de Carmen Chacón e seu arrojo feminista como primeira ministra de Defesa, e seu abraço de mulher cuidadora de outros, menos dela mesma; me vem à cabeça Bibiana Aído e Nuria Varela, construindo o primeiro Ministério da Igualdade, o que lhes custou ânimo e saúde na luta contra a besta patriarcal; o brilho de Zaida Cantera e sua coragem diante da poderosa cúpula militar; a aguerrida Irene Montero e as aberrações cuspidas por homens e mulheres após ela começar a viver junto com o pais dos seus gêmeos, ou as tentativas de desprestigiar a Inés Arrimadas por “sua cara bonita”, porque aí também aparecem os imbecis, e nenhuma mulher está a salvo do machismo cotidiano, desenfreado. Nem mesmo Ana Botín, que pode ser presidenta do Grupo Santander, mas também enfrenta situações de desprezo diante dos senhorões engravatados.

Penso sem parar nas granjas de mulheres para parir bebês como coelhos em troca de dinheiro para comer, graças a um país onde se alugam seus ventres-recipientes.

E como não resgatar neste dia, diretamente na alma, a sordidez dos prostíbulos, que torturam mulheres vítimas de tráfico delas mesmas, e da luta de Mabel Lozano contra essa desumanidade.

E no meio dessa intensidade e alegria cansada, recebo o bálsamo dos referentes vitais. Sobretudo, de longe, minhas compatriotas ilustres: Emilia Pardo Bazán e Rosalía de Castro (“só cantos de independência e liberdade balbuciam por meus lábios, embora tenha sentido para os que se aproximam, desde o berço do ruído das correntes, eu deveriam me aprisionar para sempre, porque o patrimônio da mulher são os grilhões da escravidão... Quando os senhores da terra me ameaçam com um olhar, querem marcar na minha testa uma mancha de reprovação, eu não vou rir como eles se riem, e faço, talvez aparentemente, minha iniquidade maior que a sua  grande que a iniquidade. No fundo, não obstante, meu coração é bom; mas não acato os mandatos de meus iguais, e creio que são feitos do mesmo que eu sou feito, e que sua carne é igual à minha carne. Eu sou livre. Ninguém pode conter a marcha dos meus pensamentos, e eles são a lei que rege o meu destino”). E a carne da minha carne, minha avó e sua filha, minha mãe. Os faróis de quem se conforma com ser a metade de valentes que elas foram.

A revolução era isto. E chegamos.

Mas seguimos lutando por mais.
 
Ana Pardo de Vera é diretora-chefe do periódico Público.es





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