Política

Foi Pedro Malan quem puxou o fio da tomada

Luiz Pinguelli Rosa, físico da UFRJ, é taxativo: ''Se há uma responsabilização criminal, tem de cair sobre Malan''. Ele atribui responsabilidades também à imprensa e à oposição

01/06/2001 00:00

Fernando Henrique Cardoso e Pedro Malan (Associated Press)

Créditos da foto: Fernando Henrique Cardoso e Pedro Malan (Associated Press)

 

Em 1995, o físico Luiz Pinguelli Rosa entregou um relatório ao vice-presidente da república, Marco Maciel, alertando que o modelo de privatização das estatais elétricas poderia resultar em desabastecimento de energia no futuro, pois não previa investimentos na expansão do setor. Mais do que isso, o vice-diretor da Coordenação de Programas de Pós-Graduação em Engenharia (Coppe) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) demonstrava o seu descontentamento com a estratégia neoliberal de transformar energia em mercadoria de consumo. Seis anos depois, deu no que deu. O país vive a pior crise energética de sua história e o governo dá diariamente sinais de que não sabe o que fazer.

Para Pinguelli, o culpado pela crise não está no Ministério das Minas e Energia, na Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), nem nas empresas estrangeiras que investiram no país. “Está no Ministério da Fazenda, é o Pedro Malan”, dispara. “Se existir uma responsabilização criminal, tem de cair sobre ele, que é quem controla tudo e assinou o acordo com o FMI”. Com bom trânsito nos partidos de esquerda, o físico também não poupa críticas à oposição – “achavam que nós estávamos exagerando” –, nem à imprensa – “está tentando tirar o foco do problema”.

Nesta entrevista à Carta Maior, Pinguelli apresentou alguns caminhos para a superação da crise, disse que o governo não toma algumas medidas para não contrariar os interesses das empresas elétricas e que “a maneira mais simples (de resolver o problema no curto prazo), se fosse um governo de esquerda, seria o corte diário por certas horas e com rodízio”.

Carta Maior - Como o senhor avalia a reação do governo à crise energética?
Luiz Pinguelli Rosa - O governo demorou demais para tomar algumas medidas. Dentre elas, as que eu considero um absurdo são os itens que dizem respeito ao consumidor residencial, com o aumento de tarifas e ameaça de corte de energia. Isso é um exemplo de autoritarismo stalinista. Fico perplexo como é que a sociedade e a classe média admitem uma coisa dessas.

Carta Maior - Que outras saídas o governo teria no curto prazo que não o tarifaço?
Pinguelli Rosa - O governo até teria de usar medidas como essa, mas através de um sistema socialmente validado, com discussão com a CUT, a Força Sindical, a Fiesp (Federação das Indústrias de São Paulo), a CNI (Confederação Nacional da Indústria), institutos de defesa do consumidor, talvez partidos, em uma decisão dura e rápida. Agora, aumentar tarifa de gente pobre é o pior.

Carta Maior - Uma solução seria reduzir a oferta a grandes consumidores de energia, como as empresas de alumínio?
Pinguelli Rosa - Esses têm gorduras, podem pagar mais, mas eu não sou demagógico de mandar cortar energia, fechar fábrica e depois desempregar. Tem de olhar caso a caso. A maneira mais simples, se fosse um governo de esquerda, seria o corte diário por certas horas e com rodízio.

Carta Maior - É possível isso sem interferir em hospitais e metrô, por exemplo?
Pinguelli Rosa - Você abre exceções e isso é possível tecnicamente. Aí seria necessário uma política de financiar equipamentos, para aumentar a pequena geração. Hoje em dia as empresas, hospitais e hotéis podem gerar energia usando gás natural, é trivial isso. O governo já poderia ter seguido esse caminho. Mas é claro que não quer contrariar os interesses das empresas elétricas já privatizadas, que vêem tudo isso como uma concorrência.

Carta Maior - E quais seriam as outras saídas?
Pinguelli Rosa - Há muitas. Nós acabamos de criar o Fórum de Energia do Fórum Social Mundial e já definimos dez pontos mínimos que podem servir como guia pra sair da crise. E como ela foi criada pela privatização, certamente o primeiro ponto que colocamos foi sua suspensão. Esse decálogo continua inédito. A imprensa teve acesso, mas não o publicou.

Carta Maior - A questão é o modelo da privatização ou a própria privatização?
Pinguelli Rosa - O modelo da privatização é tudo. Ele tolheu investimentos ao invés de estimulá-los. As tarifas que o setor privado pedia também eram impossíveis de serem atendidas, mesmo para um governo conservador como o de Fernando Henrique. Você pode me perguntar se há uma outra privatização, e eu até admito que em velhas conversas que eu tive com Betinho (o sociólogo Herbert de Souza, já falecido) comentávamos a idéia de uma empresa pública, mas não estatal. Algo assim poderia ser feito com a dívida da União junto ao FGTS, com a transferência do controle de empresas elétricas para um grupo de propriedade dos trabalhadores, que teriam de constituir uma gestão profissional. Mas isso não poderia ficar restrito aos trabalhadores da empresa, porque aí geraria corporativismo.

Carta Maior - E existe algum modelo para isso?
Pinguelli Rosa - Não há modelo. Mas nós poderíamos ser criativos o bastante para experimentar isso. Para mim, a meta é o público, mas não o estatal. O modelo estatal, apesar de ser bem mais eficiente daquele que temos hoje, enfrentava problemas de partidarização, de governos ruins que podiam tornar as empresas ruins.

Carta Maior - Também tivemos problemas com a a privatização do setor de telecomunicações, mas não tão grandes quanto os do setor elétrico. Por quê?
Pinguelli Rosa - A questão é que o setor de telefonia trabalha com uma tecnologia mais moderna e dinâmica, que criou oportunidades maiores de competição e investimentos. Também exige menos capital intensivo que o setor elétrico e apresenta um retorno financeiro mais rápido. É verdade que o setor privado expandiu a telefonia celular e não tem uma conta tão negativa com a sociedade, mas também não deixamos de ter problemas de toda ordem com essas empresas, por exemplo com formação de oligopólios e cartéis.

Carta Maior - É possível que essa crise passe rápido em três ou quatro meses?
Pinguelli Rosa - Não. Em três ou quatro meses nós teremos a pior fase da crise, por causa da falta de chuvas nessa época do ano. Mas os reservatórios ainda vão demorar a encher e as termoelétricas a gás vão demorar a ficar prontas. Tudo isso vai levar dois anos pelo menos.

Carta Maior - O presidente Fernando Henrique sugeriu que a culpa pela crise cabe ao PFL, porque seria ele o controlador do sistema elétrico dentro da partilha de poder que foi feita. De quem é a culpa afinal?
Pinguelli Rosa - Foi de Pedro Malan. Se há uma responsabilização criminal, tem de cair sobre ele, por que o Malan sabe tudo e controla tudo. Mas é verdade também que ele é um intermediário. O caos veio de fato de fora pra dentro do país. Essa dívida enorme do governo mais essa idéia de atrair investidores tiraram do Brasil a possibilidade de ter um rumo próprio. A falta de investimento está prevista no acordo com o FMI, para obter o ajuste fiscal, o superávit primário. A Aneel, o ministério, Eletrobrás, esses pecaram por obediência, por omissão, por lealdade.

Carta Maior - Em recente palestra, o cientista político José Luiz Fiori defendeu a reestatização do sistema. Como o senhor avalia essa proposta?
Pinguelli Rosa - Eu acho muito difícil isso acontecer. Uma solução mais simples seria estabelecer regras muito mais duras às empresas elétricas já privatizadas. Elas estão muito à vontade. Olhe para o caso da Light, por exemplo, que acabou de demitir 300 pessoas em meio a uma crise. Isso mostra o descaso dessas empresas com o interesse público.

Carta Maior - Os especialistas do setor energético sabiam que o país corria o risco de apagão. Por que essa questão não foi denunciada pelas oposições nem pela imprensa?

Pinguelli Rosa - Porque havia a idéia de que a privatização era um adversário imbatível e seria um desgaste lutar contra ela. Isso nasceu na área econômica e penetrou mesmo em setores da oposição. Eu já reclamei bastante com meus amigos dos partidos de esquerda, principalmente o PT, que é onde eu tenho mais acesso. É um problema que veio com um lapso do socialismo existente e com a idéia de que a única maneira de organizar a sociedade e a produção econômica é o capitalismo. O pessoal acreditava que pelo menos tecnicamente, mesmo que fosse contra os interesses da população, a privatização funcionaria. Mas nem isso ocorreu.

Carta Maior - Quer dizer que parte da esquerda também achava que vocês eram catastrofistas?

Pinguelli Rosa - Todos apoiaram nossa luta contra as privatizações, mas não se articularam o bastante porque achavam que nós estávamos exagerando. Esse é um problema sério das esquerdas porque não se restringe ao setor de energia, mas diz respeito a toda a economia. Qual é a proposta da esquerda para se fazer a gestão financeira do Estado?
Reconheço que é difícil mexer com as forças que estão colocadas aí, mas para que a oposição vai ao poder se não souber o que fazer? Ela tem de fazer algo diferente, sem se suicidar e sem gerar uma convulsão inútil que apenas sacrificaria as pessoas. Eu tenho pavor de histórias como a do Equador, em que o povo ficou no poder por alguns dias e depois desistiu.

Carta Maior - Então o senhor acredita que não há uma alternativa clara para o setor energético?
Pinguelli Rosa - Não tem. E também não há estudos sendo feitos, afinal é necessário também uma certa teoria pra governar. Eu vejo a esquerda desamparada de rumos. Agora, o Fórum Social Mundial foi belíssimo porque a indignação é um primeiro passo fundamental. Mas quando se chega ao poder é preciso administrar.

Carta Maior - Há catastrofismo por parte da mídia?
Pinguelli Rosa - A imprensa, na minha opinião, está tentando tirar o foco do problema. Em vez de tratar da questão maior, que são os motivos da crise e o que tem de ser feito para evitar que isso volte a ocorrer, ela só trata da crise e deixa a impressão de que a população é a culpada. Ou então que foi culpa da chuva. Mas vale lembrar que os reservatórios são calculados para acumular água por cinco anos prevendo a pior seca dos últimos 50, e estamos longe da pior seca. A imprensa sempre fez o jogo de seus patrões, mas chegou num certo momento em que a botou a boca no trombone. E durou um fim de semana pra ela mudar de posição e começar a fazer uma confusão ideológica que desinforma a opinião pública.

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