Política

Fundação Perseu Abramo e o Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais realizam ciclo de debates nos 70 anos do ''Manifesto Latino-Americano'', de Raul Prebisch

Evento organizado no centro de São Paulo permitiu reunir intelectuais de diversos países e referências nacionais para uma atualização das formulações do economista

29/08/2019 20:59

 

 

Após 70 anos da publicação do texto “Desenvolvimento econômico da América Latina e alguns de seus principais problemas”, do economista Raul Prebisch, o capitalismo passou por um conjunto de transformações que criaram novos desafios estruturais e conjunturais, políticos e econômicos, culturais e civilizacionais. Para comemorar esse marco do trabalho que serviu como base institucional para os trabalhos da CEPAL, a Fundação Perseu Abramo e o Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais realizaram um ciclo de debates gratuitos no centro de São Paulo, reunindo intelectuais de diversos países e referências nacionais.

Para Marcio Pochmann – economista, professor da Universidade Estadual de Campinas e presidente da Fundação Perseu Abramo, essa reflexão é necessária justamente quando o capitalismo, globalmente, enfrenta a sua mais grave crise, que já dura 11 anos. Para o doutor em Ciências Econômicas não há solução tanto para os países de capitalismo avançado como para os periféricos, como o Brasil. “O Brasil vem perdendo participação relativa na economia mundial. Em 1980 o país representava 4,4% do PIB mundial, em 2018 representamos apenas 2,5%. Em grande medida isso se deve à perda da indústria. Quando voltamos no tempo e tomamos como referência a publicação de Prebisch, vemos que ele colocava que a saída para os países latino-americanos, que dependiam da produção e exportação de produtos primários era a industrialização. Não há dúvida que há um salto dos anos 40 até os anos 80. Essa perda da indústria nos coloca em uma situação muito difícil de superação e expansão do subdesenvolvimento. O fim da industrialização nos indica uma crise de futuro, e não há como recuperá-la”.



Carlos Alonso Barbosa de Oliveira, professor da Universidade Estadual de Campinas, concorda com esse diagnóstico: “Esse processo de divisão internacional do trabalho, com especialização nos produtos primários parecia ter fôlego no começo do século XXI com a demanda chinesa, mas desde 2014 os preços vêm caindo e a saída adotada pelos governos é o corte de gastos, adotadas principalmente pelo Brasil e a Argentina”. Sobre o programa econômico adotado no Brasil pelo governo Bolsonaro o economista afirma: “Esse programa do (Paulo) Guedes é um programa fundamentalista de mercado e vai aprofundar a recessão. No começo eles falaram que o Brasil vai crescer em 2020, agora que vai demorar dois ou três anos. Até quando o país vai aguentar com 13 milhões de desempregados, 20 milhões se somar os desalentados, mais os subempregados, não há força nesse programa para crescer. A direita tem sido tão avassaladora, desmembrando as empresas estatais, paralisando o BNDES... quebrando todos os mecanismos de mercado sobre a economia e tornando mais difícil a recuperação da capacidade de articulação do Estado”.

O professor Gustavo Bittencourt, da Universidad de la República (Uruguai), destacou que a falta de integração com políticas de longo prazo, não adotadas pelos governos latino-americanos dificulta o desenvolvimento da região: “Para a América Latina, por exemplo, o acordo com a União Europeia pode ser muito bom dentro de uma estratégia transformadora, senão ele se transforma em um acordo de liberalização. Os governos deveriam definir quais seus objetivos de longo prazo e isso é um déficit em toda a esquerda latino-americana. Temos que ser autocríticos para poder encontrar o que temos que melhorar para resolver”.



Para diretor da Faculdade de Economia da Escuela Latinoamericana de Postgrados – Universidade ARCIS (Chile), Claudio Lara Cortes, a situação da direita na América Latina está muito complicada, já que até nos países ‘mais avançados’, estão planteando reformular suas políticas e até muda-las: “Os governos populistas de direita (desses países) estão questionando o livre comercio, e estão questionando uma série de teorias. Infelizmente em vez de isso ajudar para construir um pensamento próprio os governos estão insistindo nas velhas receitas, que não dão garantias de avanço. Primeiro porque se basearam nas exportações e o mundo está se contraindo, estamos crescendo a 1/3 do que crescia antes de 2008, impedindo o crescimento com base nesse comércio. Em segundo lugar porque surgiram novos instrumentos que obstaculizaram os verdadeiros preços das matérias primas. O principal caso é o da China, que levantou a demanda desses produtos mundialmente, comercializando em certo momento quase 50% das matérias primas mundiais, mas que agora vê seu crescimento reduzido”. O economista também destacou a redução do Estado como uma das grandes dificuldades para aplicar políticas que possam mitigar a recessão e a crise que aflige a América Latina.

A professora Monica Bruckmann, cientista política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) divide o século XXI e dois momentos, os primeiros 15 anos dos governos de centro-esquerda, progressistas, e a o segundo que começa com a eleição na Argentina de Mauricio Macri, que se inicia de maneira mais sistemática e com força a recuperação dos projetos neoconservadores na região que tenta ressuscitar o cadáver que foi o Neoliberalismo na região: “O que está acontecendo é uma deslegitimação muito rápida desses projetos neoliberais porque estão produzindo consequências sociais muito violentas como o crescimento do desemprego, afetando diretamente os direitos sociais conquistados como saúde, educação pública e de qualidade. O caso do Brasil a expansão da Educação Pública foi muito evidente no governo do PT, pois acesso de setores da população que estavam excluídos do acesso à educação superior universitária”.



Para acessar o conteúdo das palestras basta acessar o Facebook da fundação Perseu Abramo no link https://www.facebook.com/fundacao.perseuabramo/

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