Política

Garotinho e Rosinha partem para o vale-tudo eleitoral

27/09/2004 00:00

Rio de Janeiro – A possibilidade, já não tão remota, de um desempenho aquém do esperado nas urnas fluminenses em 3 de outubro levou o primeiro-casal da política do Rio de Janeiro – Anthony Garotinho e Rosinha Matheus – a deixar de lado o comedimento comum às lideranças partidárias e entrar de peito aberto no vale-tudo eleitoral. Participando há dez dias de uma maratona de comícios organizados por uma rádio evangélica nos municípios do interior, a governadora e o secretário de Segurança Pública não hesitam em misturar política com religião e passaram a ameaçar os eleitores com o boicote financeiro do governo estadual se estes escolherem candidatos não afinados com seu grupo político. A postura do casal pode ser atribuída ao nervosismo frente a um quadro que enfraqueceria a candidatura de Garotinho à Presidência da República em 2006, mas já provocou reações dos adversários, do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e até mesmo do PMDB.

Tudo veio à tona durante um comício em Nova Iguaçu, maior colégio eleitoral da Baixada Fluminense, onde o candidato do PT, Lindberg Farias, lidera as pesquisas contra o prefeito Mário Marques (PMDB), apoiado pelos Garotinho. Diante de milhares de pessoas, a maioria composta por jovens evangélicos reunidos para o show Celebrai, Garotinho juntou no palco cantores conhecidos de música gospel e pediu que todos orassem “para pedir a Deus que impeça a eleição de Lindberg”. Como justificativa, o ex-governador alegou que o petista “ofendia a fé cristã da cidade”, ao assumir determinadas posições políticas: “Este rapaz defende a legalização da maconha e o casamento de pessoas do mesmo sexo, e isso não é coisa que um verdadeiro cristão apóie. Falem isso na igreja, contem para papai e mamãe. A eleição deste moço é muito ruim para Nova Iguaçu”, disse.

Não satisfeito, Garotinho comparou Lindberg ao ex-presidente Fernando Collor de Mello: “Vocês lembram do Collor? Pois é, aquele também era todo bonitinho, simpático e de fala mansa, e depois deu no que deu”, disse. Mas o secretário iria ainda mais longe. Depois de afirmar que Lindberg se dirigia de maneira desrespeitosa à governadora Rosinha, Garotinho assumiu ele próprio ares de governador e sugeriu que a vitória do petista poderia significar o abandono de Nova Iguaçu pelo governo do Estado: “Como é que eu vou voltar à Nova Iguaçu tendo aqui um prefeito que falou mal de mim e de minha mulher? Quem é amigo do Garotinho não pode votar nesse candidato, só assim eu posso continuar vindo à Nova Iguaçu com a Rosinha e amando vocês”, disse.

Tática repetida
Não se sabe se alguma pesquisa detectou o sucesso do discurso de Garotinho na Baixada, mas o fato é que, desde então, ele vem sendo reproduzido em todos os municípios onde existe a possibilidade de derrota do candidato apoiado pelo governo estadual. Em Resende, onde as pesquisas indicam a liderança de Noel de Oliveira (PDT), a governadora voltou a acenar para os eleitores com a ameaça de boicote financeiro em caso de vitória do adversário: “O Noel me esculhamba, fala mal de mim. Como vai poder bater a minha porta e sentar a mesa para conversar comigo? Não tem como. Por isso, em 3 de outubro, vote no Silvinho, porque ele vai ter uma governadora do lado dele”, disse, referindo-se ao candidato do PMDB, Silvio de Carvalho, filho do líder do governo na Assembléia do Rio, Noel de Carvalho.
Rosinha chegou a afirmar que o Estado atualmente não tem convênios firmados com a Prefeitura de Resende devido à postura de oposição do prefeito Eduardo Meohas, antigo aliado que migrou para o PT logo depois de eleito em 2000: “Quero fazer calçamento de rua, mas o prefeito não quer. Com o Silvinho, sei que tudo será diferente”, disse a governadora. Meohas retrucou afirmando que, na realidade, sua administração sempre fora “segregada” pelo governo estadual: “Nenhum prefeito que goza de saúde psíquica recusaria o apoio financeiro do governo do Estado”, argumentou.

Meohas parece estar com a razão. Dos R$ 160,9 milhões injetados este ano pela governadora no Programa de Apoio e Desenvolvimento de Municipalidades (Padem), Resende não teve direito a um único centavo sequer. Por isso, Rosinha trabalha junto aos eleitores da cidade com a expectativa de abrir a torneira em caso de vitória do aliado. Em Nova Iguaçu, a lógica é oposta, e a ameaça é de que a torneira secaria em caso de a prefeitura cair em mãos adversárias. Nova Iguaçu foi o município que teve o maior repasse de verbas do governo estadual este ano, R$ 40 milhões, aplicados em sua maior parte em projetos de recuperação de estradas levados a cabo pelo Departamento de Estradas e Rodagem (DER), órgão investigado por diversas irregularidades administrativas.

Reações em diversos níveis
Repetida em outras cidades do interior fluminense onde a disputa eleitoral está acirrada – como Duque de Caxias, Niterói e Campos – a tática do terror adotada por Garotinho e Rosinha despertou imediatas reações de adversários, do governo federal, da Justiça e até do próprio PMDB. De passagem pelo Rio no sábado (25), onde participou de um ato de formatura de 13 mil adultos alfabetizados por um programa governamental, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva escalou o ministro da Educação, Tarso Genro, para transmitir o recado de que seu governo “dará cobertura a todos os prefeitos eleitos no Rio de Janeiro, petistas ou não, que forem discriminados pelo governo estadual”. Segundo o ministro, Lula teria afirmado que a postura de Garotinho era “inaceitável” e que o ex-governador estaria “estabelecendo uma relação profundamente pervertida com sua função pública”.

A reação oficial do PMDB se deu pela boca do líder do partido na Câmara, José Borba (PR), que classificou a postura do casal Garotinho de “tiro pela culatra” e afirmou que “ameaça de retaliação é prenúncio de derrota”. O senador Pedro Simon (PMDB-RS) preferiu concentrar suas críticas na governadora Rosinha: “Governador não deve participar de atos de campanha. Ela deveria agir como o Germano Rigotto no Rio Grande do Sul. Ameaça de retaliação é muito ruim para a disputa política”, disse. Sem citar diretamente Garotinho ou Rosinha, o presidente do Tribunal Regional Eleitoral do Rio, Marcus Faver, condenou os políticos “que só agem pela ambição da reeleição” e lamentou a “falta de estatura política” de determinados líderes: “Não percebem que, agindo desta forma, não estão ajudando a democracia”, disse o desembargador.

Os adversários nas urnas também reagiram. Temendo o desfecho da disputa com Geraldo Pudim (PMDB) em Campos, berço eleitoral de Garotinho, os candidatos Paulo Feijó (PSDB) e Carlos Alberto Campista (PDT) solicitaram novamente ao TRE a presença de tropas federais na cidade em 3 de outubro. Os prefeitos petistas Eduardo Meohas (Resende) e André Ceciliano (Paracambi, candidato à reeleição) ameaçam seguir o mesmo caminho. Vítima original da nova tática dos Garotinho, Lindberg Farias levou ao TRE nesta segunda-feira (27) jornais e panfletos apócrifos que estão sendo distribuídos em Nova Iguaçu e contam as maiores barbaridades a seu respeito, descrevendo uma briga de bar em que o candidato do PT teria se envolvido (ele nega) e relatando um fantasioso tratamento contra o alcoolismo a que Lindberg estaria sendo submetido pelo partido.

Com a corda toda
Apesar das pressões, Garotinho reafirmou para a imprensa a ameaça de boicote econômico aos prefeitos adversários que saírem vitoriosos das urnas: “Podemos fazer obras só pelo Estado, mas não via Prefeitura”, disse. Ele também não se intimidou com as críticas recebidas de Lula e acusou o presidente de tentar desviar a atenção dos eleitores: “O presidente Lula deveria dar o exemplo e não discriminar o Rio. Os eleitores do Estado não podem confiar na palavra dele, que não cumpriu suas promessas de campanha”, disse. A governadora manteve o tom do marido: “O presidente mandou um ministro dizer que vai mandar dinheiro para os municípios do Rio. Por que, em um ano e oito meses de governo, ele não fez isso até agora?”, disse, mais uma vez durante uma atividade de campanha.

E o pior, para os adversários de Garotinho, é que a presença do ex-governador nos palanques durante esta semana está mais do que garantida. Ele anunciou que, a partir desta segunda-feira (27) e até o dia 31 de outubro, data prevista para o segundo turno das eleições, estará de licença do cargo de secretário estadual de Segurança Pública. O objetivo é poder se integrar melhor na campanha dos aliados. Garotinho já tem participação marcada para os próximos dias em atos de campanha em Niterói, Duque de Caxias, Nova Iguaçu e Campos.

Garotinho ainda encontrará tempo para sair do Rio, sobretudo no segundo turno, quando pretende levar seu apoio a aliados que estejam disputando as capitais e cidades mais importantes. O objetivo é passar novamente em cidades onde sua campanha para presidente em 2002 foi bem recebida, reafirmar alianças e pavimentar a candidatura para 2006. Ele ainda aposta que o PMDB optará por sua candidatura, desde que ela pareça ter chances de chegar ao menos ao segundo turno contra Lula. Ao contrário do que pensam alguns, as portas no PMDB ainda não estão fechadas, como demonstram as palavras do presidente do partido, Michel Temer, que evitou condenar Garotinho pela tática eleitoral adotada nos últimos dias: “Garotinho é um líder importante e sua postura é força de expressão de uma disputa acirrada. Até porque a governadora Rosinha, assim como o secretário, tem ajudado a todos os municípios igualmente”, disse. 

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