Política

Genocídio e caos: por um governo de salvação nacional

 

14/04/2021 13:28

(Pedro Ladeira/Folhapress)

Créditos da foto: (Pedro Ladeira/Folhapress)

 
Ó mísera nação, governada por um tirano sanguinário. Quando verás tuas áureas épocas novamente? (fala de Macduff, em Macbeth, de Shakespeare)


O diretor sênior para assuntos do Hemisfério Ocidental no Conselho de Segurança Nacional dos EUA, Juan Gonzalez, foi enviado pelo presidente Biden para uma viagem à América do Sul entre 12 e 16 de abril. O roteiro incluiu a Colômbia, Argentina e Uruguai, mas não o Brasil. Biden não esqueceu que, depois da sua eleição, Bolsonaro declarou que houve fraude, o vencedor era Trump. A política externa suicida, conduzida por um Ministro a serviço de Trump, prejudicou o Brasil ao atacar a China – único produtor de insumos de vacina – e a Índia, o maior produtor de fármacos no mundo, inclusive de vacinas.

Hoje, o Brasil é visto como ameaça sanitária. A França já proibiu vôos provenientes do Brasil. O governo brasileiro conseguiu a proeza de angariar a antipatia da China, dos EUA, da Índia e da Europa. O país está isolado. O novo ministro das Relações Exteriores, embora novato, parece haver compreendido o desastre da política externa e deu sinais de uma leve mudança na orientação diplomática. E o embaixador americano mandou recado: durante reunião virtual no domingo 11/4 com diplomatas, políticos, economistas e empresários brasileiros, afirmou que a Cúpula de Líderes sobre o Clima marcada para a terceira semana de abril seria a última chance de o Brasil mostrar preocupação ambiental para recuperar a confiança do Governo americano (Folha de SP, 13/4/2021).

Apesar de liberal, o presidente Biden está implementando uma política “rooseveltiana”, de inspiração keynesiana. O Estado americano vai investir 2 trilhões de dólares na infraestrutura e aumentar a taxação de empresas. Se Biden conseguir aprovar seu plano de investimento nas áreas de infraestrutura e saúde, o total poderia alcançar 4 trilhões de dólares. Trata-se da maior redefinição do papel do Estado na economia americana desde o New Deal dos anos 30 do século passado. Biden propõe ainda um imposto global comum sobre empresas multinacionais. Se tudo isso se confirmar, será possível afirmar que os EUA abandonam o neoliberalismo e seu dogma de Estado mínimo?

Na verdade, o Governo americano sempre investiu em infraestrutura e tecnologia. São bons exemplos, entre muitos outros, a Apple, o Programa Espacial, rodovias e pesquisa farmacêutica. O Estado Mínimo nunca existiu nos EUA, é um dogma para os países satélites. O investimento do Estado na infraestrutura para criar riqueza e emprego é exatamente o que a esquerda propõe, mas isso é aqui negado pelo ultraliberalismo do Governo, tendo à frente o retrógrado ministro neoliberal Guedes, ainda influenciado pela Escola de Chicago dos anos 50 do século passado.

No Brasil de hoje, a crise política é permanente. Os comandantes das Forças Armadas pediram demissão em protesto contra Bolsonaro. Ao ser exonerado, o General Fernando Azevedo, Ministro da Defesa, declarou: “Preservei as Forças Armadas como instituições de Estado". Tradução: Não topei pressionar o STF após a decisão sobre Lula e as Forças Armadas não vão apoiar o Estado de Sítio proposto por Bolsonaro.

Segundo consta, o movimento bolsonarista havia convocado, para o dia 31/3, uma manifestação com o mote “intervenção militar com Bolsonaro no poder”. Bolsonaro e o Ministro da Defesa apoiariam a manifestação que lançaria as bases para a decretação do estado de sítio. O general Azevedo é de direita, mas não quis embarcar nessa aventura de extrema direita.

Tudo indica que Bolsonaro não quer correr o risco de perder a eleição em 2022 e busca garantir sua permanência no poder ainda este ano. Mas o fogo que alimenta a crise política tem origem na crise sanitária e econômica. O número de mortos pela Covid cresce de forma assustadora. Já são mais de 358 mil, chegaremos a 500 mil nos próximos meses, salvo se houver medidas drásticas como o lockdown nacional, negado pelo Governo Federal.

Em meio ao incêndio da pandemia, crepita a crise econômica. Os bancos e os grandes empresários, à frente da Carta dos Economistas, acionaram o sinal de alarme para o desembarque do Governo. São várias as razões, desde a falta de vagas na UTI dos hospitais privados até o caos na economia que já vinha declinando antes da pandemia, como mostrou o “Pibinho” de 2019.

Os empresários acionaram os parlamentares do Centrão que imediatamente pressionaram Bolsonaro. Acuado, ele fez uma pequena reforma ministerial e demitiu o pateta que tanto prejudicou o Brasil nas Relações Exteriores para atender os interesses de Trump. Ernesto Araújo foi enxotado pelos donos do PIB e pelo Senado. O episódio mostrou ao país “A Voz do Dono”, quem manda no Brasil.

Mais recentemente, na primeira semana de abril, um grupo de empresários visitou Bolsonaro para manifestar apoio, pedir a compra de vacinas e as “reformas” para aumentar seus lucros. Foi noticiado que, em conjunto, suas empresas devem 186 milhões à União. Mas o Governo Bolsonaro está cada vez mais isolado com o agravamento da pandemia, do desemprego e da fome. O ridículo auxílio emergencial proposto não vai longe.

O Governo continua sendo militar, mas agora sem o apoio dos altos escalões. Mas conta com as PMs, os oficiais de baixa patente, suboficiais e praças. E também com seus fiéis bandidos milicianos. Essa é a sua base militar de apoio, acrescida dos numerosos fanáticos que se armaram com a legislação permissiva do Governo. Para dar o golpe, Bolsonaro não precisa que as tropas saiam dos quartéis. Basta não sair dos quartéis quando o golpe for dado. Já vimos esse filme na Bolívia.

Mas aqui, com a explosão da pandemia e da crise econômica, sem o apoio efetivo do mercado e dos altos escalões das forças armadas, o isolamento político de Bolsonaro não garante longa vida a seu projeto autoritário. Mas ele continuará tentando. Tem apoio em parte do mercado, dos militares, dos evangélicos, de certos segmentos conservadores da classe média e dos setores precarizados da classe trabalhadora que muitas vezes se inclinam para a direita. 

O colapso no sistema de saúde e o caos na economia só poderão ser resolvidos com o afastamento do presidente Jair Genocida Bolsonaro. A CPI da Pandemia, se efetivamente funcionar, pode ser um passo nesse sentido. O país está sendo destruído. O tempo corre contra o Brasil. A pré-condição para resolver a questão da pandemia e a crise econômica é afastar Bolsonaro, por impeachment ou interdição. Mais da metade do país está gritando “Fora Bolsonaro”.

A base de apoio de Bolsonaro está se enfraquecendo. O mercado já está dividido. A Carta dos Economistas revelou que poderosos empresários se afastaram do Governo, embora a FEBRAPAN e alguns lumpen empresários continuem apoiando. Entre os militares, a divisão já é visível. Muitos militares de alta patente não mais concordam com a fortíssima presença militar num governo desmoralizado e fracassado. A reputação das Forças Armadas na opinião pública desce ladeira abaixo.

O horizonte é sombrio. Pandemia, fome, morte. O quadro no Brasil se agrava. A única solução seria um lockdown nacional, mas isso só funciona se as pessoas tiverem um auxílio emergencial suficiente para sobreviver. Do contrário, sairão às ruas para trabalhar em alguma coisa que lhes garanta o sustento.

As grandes empresas e os ricos são capazes de doar por caridade alguma ninharia. Mas farão ferrenha oposição a um imposto sobre grandes fortunas que afetaria somente os bilionários. E, na hipótese improvável de o Congresso votar esse imposto, os donos do PIB pedirão a Bolsonaro o Estado de Sítio, antessala da ditadura.

Os multimilionários não renunciam a seus privilégios, a começar pela estrutura tributária que penaliza proporcionalmente mais os pobres que os ricos via imposto de consumo. E também via imposto de renda: quem ganha a partir de 4.800 reais por mês tem a mesma alíquota dos que recebem 500 mil ou 1 milhão por mês.

Bolsonaro boicotou as medidas de segurança e sabotou a compra de vacina durante todo o ano passado. Ele aposta no caos, saque de supermercados, por exemplo, para justificar a implantação de um Estado de Sítio para restabelecer a ordem. É idiota, ignorante, incompetente, autoritário, mas tem obsessão pelo poder.

O agravamento da pandemia ameaça a vida dos brasileiros, tão desprezada pela necropolítica do Governo. Salvar vidas tornou-se a primeira prioridade. Para isso, será necessário construir um Governo de Salvação Nacional, apoiado na mobilização popular, nos Governos estaduais, nas Prefeituras e nos bolsões civilizados do Legislativo e do Judiciário.








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