Política

Genoino fala sobre rumos do governo e do PT

''Se há um novo desafio para a esquerda mundial, esse desafio é o de reduzir a pobreza mundial. Pela primeira vez na história da humanidade, o problema da pobreza global se apresenta como um problema concreto e efetivo a ser resolvido por governos, sociedades e instituições internacionais''

28/10/2003 00:00

(Pedro Ladeira/Folhapress)

Créditos da foto: (Pedro Ladeira/Folhapress)

 

São Paulo - Mais do que um discurso protocolar, o presidente do PT, José Genoino, utilizou sua fala no 22° Congresso da Internacional Socialista para deixar claro qual deve ser, em sua opinião, o rumo que o governo Lula e a esquerda mundial deveriam tomar. Nas entrelinhas, fez uma ampla defesa das políticas adotadas pelo governo brasileiro, como as medidas macroeconômicas, o enfoque no combate à fome e a integração da América Latina.

"A tarefa da esquerda hoje é dupla: por um lado, é preciso reafirmar compromissos e valores históricos. Por outro, é preciso enfrentar os novos desafios com novos paradigmas, com novos parâmetros, com novas soluções e agregando novos valores à sua tradição política e intelectual", afirmou Genoino, perante uma platéia formada por representantes de partidos políticos socialistas, trabalhistas e sociais- democratas dos quatro cantos do mundo.

"Se há um novo desafio para a esquerda mundial, esse desafio é o de reduzir a pobreza mundial. Pela primeira vez na história da humanidade, o problema da pobreza global se apresenta como um problema concreto e efetivo a ser resolvido por governos, sociedades e instituições internacionais", defendeu.

Segundo o presidente do PT, a "esquerda aprendeu que a estabilidade econômica é condição necessária, embora insuficiente, do desenvolvimento e que políticas sociais compensatórias são necessárias". Para ele, "a superação efetiva da pobreza e a verdadeira inclusão social só serão alcançadas com a distribuição da renda e da riqueza, com a criação de empregos e de oportunidades e com o desenvolvimento sustentável".

"A realidade de fartura e riqueza para alguns, e de pobreza, violência, injustiça e opressão para bilhões, que motivou o surgimento da esquerda, não só persiste em nossos dias como, em vários aspectos, se tornou mais brutal, mas dramática e mais inaceitável. A esquerda não pode aceitar que, enquanto riqueza e renda se concentram, quase a metade da humanidade viva com menos de dois dólares por dia", disse.

Ao mesmo tempo, Genoino fez uma ressalva. "A esquerda deve ser capaz de ser contemporânea. Com isso, além de se renovar, evitará ser caudatária de outras tradições", defendeu. Para explicar sua tese, usou o exemplo do liberalismo político. "O liberalismo político contribuiu de forma decisiva na conquista da liberdade e na construção da democracia. Mas não há como não reconhecer que, nas últimas décadas, o liberalismo esteve trilhando o caminho do conservadorismo e abandonou os caminhos da melhor tradição republicana". "A vitória do PT e o governo do PT", disse ele, "representam uma infusão de ânimo e uma infusão de renovação de caminhos e do ideário da esquerda".

PT na Internacional?

 Genoino deixou no ar se o PT integrará ou não a Internacional Socialista. Apesar de ser o grande destaque do congresso deste ano, o partido mantém apenas o status de observador. No Brasil, apenas o PDT de Leonel Brizola integra a entidade. "A esquerda e os socialistas têm a tarefa de se empenhar na construção de um novo sistema multilateral, de uma nova ordem mundial." É com estes e com outros pressupostos que o PT estabelecerá uma correlação com a Internacional Socialista para sonhar com os pés no chão, disse o presidente petista.

Nos bastidores, cogita-se a realização de um plebiscito em 2005 entre os filiados para decidir se o PT deve ou não entrar na Internacional. "Na condição de colaborador, não meramente um ato burocrático de filiação, queremos estabelecer uma construção política em torno de mudanças, programas e renovação de valores", despistou.

De qualquer maneira, Genoino deixou claro que aprova a "pluralidade" de partidos e ideologias encontrados na Internacional. "‘Foi um grande mérito adotar o pluralismo político e partidário como princípio e como prática. Pluralismo que se expressa de forma viva neste congresso, através de uma variedade de representações partidárias", destacou.

Entre os participantes do encontro, estão diversos partidos socialistas europeus, como o francês, o Partido Revolucionário Institucional (PRI), que governou o México por décadas, e o Movimento da Esquerda Revolucionária (MIR), integrante da coligação de apoio ao ex-presidente boliviano Gonzalo Sánchez de Lozada, derrubado após intensas manifestações populares.

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