Política

Governantes devem assumir o papel de governantes, diz Lula

05/03/2009 00:00

Eduardo Seidl

Créditos da foto: Eduardo Seidl
BRASÍLIA – Preparar o Brasil para vencer a crise econômica global é o mote da 29ª reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), onde ocorre o Seminário Internacional de Desenvolvimento, que teve início nesta quinta-feira (5) em Brasília com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de diversos ministros. O evento reúne cerca de 700 participantes, entre representantes do poder público, do setor privado, da academia, dos trabalhadores e das organizações não-governamentais e, devido à urgência do debate sobre a crise, foi transformado em um seminário, com a participação de convidados ilustres do exterior, como o francês Ignacy Sachs e o norte-americano James Galbraith, entre outros.

“Vejo neste fórum a antecipação daquilo que o mundo mais precisa para equacionar e vencer as turbulências, que é entendimento político e ação cooperativa multilateral”, disse Lula, para quem é preciso adotar “uma agenda de prioridades que reconcilie os interesses da economia e da sociedade”. O presidente afirmou que a crise financeira global pode se transformar em uma grande oportunidade política, pois “significa um ponto final num ciclo de mais de duas décadas de equívocos e fraudes cometidas em nome do deus mercado”.

Lula ressaltou o que considera um acerto de seu governo: “É preciso reconhecer e valorizar o papel daqueles que resistiram à agenda do Estado mínimo e ao desmonte das políticas públicas nas últimas décadas e resistiram a entregar a sorte da sociedade aos azares do cassino financeiro, optando por implantar políticas sociais para ordenar a economia e qualificar o desenvolvimento”, disse.

Para o presidente, o conjunto de medidas agora buscadas para solucionar a crise “consolida e consagra uma agenda de desenvolvimento que vinha sendo criticada de forma injusta e agressiva nos últimos anos” e citou as últimas medidas anunciadas pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, para corroborar sua tese: “Se alguém ainda tem dúvidas sobre as mudanças em curso, recomendo a leitura do orçamento fiscal norte-americano anunciado pelo presidente Obama”, disse Lula.

“Desde 2003 lutamos para livrar a economia brasileira de uma inserção subordinada à lógica financeira internacional”, disse Lula, para em seguida lembrar que assumiu a Presidência da República com “uma das maiores dívidas externas do mundo”. Lula afirmou ainda que, sob orientação neoliberal, as reservas cambiais brasileiras caíram a US$ 17 bilhões: “Hoje, ao contrário, somos credores internacionais e temos um cinturão de segurança de US$ 200 bilhões. Somos auto-suficientes em petróleo e nosso sistema de bancos estatais foi recuperado e fortalecido. Devolvemos ao BNDES sua vocação de banco de desenvolvimento. Em 2008, o BNDES elevou sua carteira de financiamento a quase R$ 92 bilhões e trará em 2009 aportes adicionais de R$ 100 bilhões”.

Lula defendeu uma “mudança de paradigma” na gestão da economia mundial: “Estou convencido que a saída para a crise só acontecerá se os governantes do mundo assumirem de fato o papel de governantes. Vivemos duas décadas de apatia, pois as pessoas eram eleitas sob a égide de que o Estado não valia nada e de que tudo seria resolvido pelo mercado. Eram eleitas para fazer um enxugamento do Estado, pois diziam que o Estado atrapalhava o bom desenvolvimento da economia. Muitos políticos passaram o mandato inteiro tentando fazer isso”, disse.

Novo padrão

Coordenador do CDES, o ministro das Relações Institucionais, José Múcio Monteiro, lembrou que o conselho já discute a crise financeira global desde o ano passado, com o objetivo de preparar o Brasil para “um novo padrão de desenvolvimento mundial”. Múcio exortou os conselheiros do CDES a trabalhar conjuntamente “pela proteção do trabalho, do emprego e da renda dos trabalhadores” e fez aos representantes de empresários e trabalhadores presentes “um chamado para a construção de uma agenda positiva nesse momento de turbulência”.

Para o presidente da Associação Brasileira de Infra-Estrutura e Indústrias de Base (ABDIB), Paulo Godoy, que também é conselheiro do CDES, “as conseqüências da crise não estão ainda identificadas”, mas o Brasil se encontra em posição de força para enfrentar os momentos difíceis da economia global: “Esta crise pode ser uma janela de oportunidades para resolver antigos entraves e promover a inserção do Brasil numa nova arquitetura global. É preciso dar continuidade à agenda do desenvolvimento”, disse.

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