Política

Governo busca PTB e libera verba para pôr Aldo no 2º turno

27/09/2005 00:00

Brasília - A imprevisibilidade do resultado da eleição que vai escolher quarta-feira (28) o novo presidente da Câmara está levando cada grupo político constituído na casa a insistir nas chances de seu candidato chegar ao segundo turno. A pulverização das candidaturas (serão nove, se todas forem mantidas até o prazo de 9h da manhã de quarta) revela também o quão frágil se encontra atualmente a base parlamentar do governo Lula. Tendo a certeza de contar somente com os votos da base mais fechada com o governo, o que hoje não chega a duzentos deputados, a candidatura do ex-ministro Aldo Rebelo (PCdoB-SP) corre o risco de não chegar ao segundo turno.

 

São necessários 257 votos para eleger em primeiro turno o presidente da Câmara. Para chegar ao segundo turno, o candidato precisa garantir, segundo cálculos feitos pelos deputados, pelo menos 190 votos. Na tentativa de evitar um novo fiasco, as forças governistas vêm concentrando esforços nos últimos dois dias para alavancar a candidatura de Aldo. O problema é que esse esforço está sendo minado pela própria deterioração da bancada do PT, que mal consegue fazer uma reunião com quorum satisfatório e já começa a perder deputados importantes depois da realização do Processo de Eleições Diretas (PED) do partido. Na véspera de nova disputa pelo comando da Câmara, batalha fundamental para dar um mínimo de tranqüilidade política a Lula nessa última etapa do mandato, a bancada petista encolheu para 86 deputados e já deixou de ser a maior da casa, cedendo o posto ao PMDB, que tem 88 deputados.

 

Escaldado pelo o que aconteceu na eleição de Severino Cavalcanti, o governo não perde tempo. De cara, atuou para liberar do austero Orçamento da União R$ 500 milhões em emendas parlamentares, atitude considerada escandalosa por parte da oposição, mas recebida com o júbilo de sempre pela maior parte da Câmara. Desde o começo da semana, uma “tropa de choque” formada pelos ministros Jaques Wagner (Relações Institucionais) e Dilma Roussef (Casa Civil) e pelos deputados Arlindo Chinaglia (PT-SP, líder do governo) e Henrique Fontana (RS, líder do PT), além do próprio Aldo, vêm procurando os parlamentares para trabalhar a candidatura do deputado comunista. Nesta terça-feira (27), até mesmo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva entrou em campo e partiu para o contato direto com os candidatos, recebendo em seu gabinete o deputado Luiz Antônio Fleury (PTB-SP).

 

Apesar de não ter sido revelado, o teor da conversa de Lula com Fleury provavelmente girou em torno da manutenção da candidatura do deputado petebista. O governo teme que uma possível união entre as candidaturas de Fleury e as candidaturas representativas do chamado “baixo-clero” - Ciro Nogueira (PP-PI) e João Caldas (PL-AL) - acabe por sepultar as chances de Aldo chegar ao segundo turno. À saída do encontro com Lula, Fleury qualificou a conversa com o presidente como “muito boa” e reafirmou sua candidatura: “Contei ao presidente que tinha o apoio do movimento Câmara Forte, que apoiou o deputado Virgílio Guimarães (PT-MG) na última eleição”, disse. O encontro, no entanto, foi criticado por Nogueira: “O governo está trabalhando para manter outras candidaturas e enfraquecer a minha”, repetiu durante todo o dia o deputado pepista.

 

A preocupação do governo tem razão de ser. Mesmo depois da maratona de telefonemas capitaneada pelo ministros Wagner e Dilma, as contas mais otimistas dos deputados governistas falavam em 180 votos garantidos para Aldo, quantia que não assegura sua ida ao segundo turno. Os mais pessimistas, no entanto contam com defecções e falam em 150 votos, quantia ainda mais alarmante. Diante dessa realidade _ e da probabilidade de uma das vagas no segundo turno já estar garantida pelo candidato da oposição José Thomaz Nonô (PFL-AL) _ é fundamental para o governo evitar a unificação das várias candidaturas menores numa terceira via que pudesse roubar de Aldo a passagem para o segundo turno.

 

Bancada petista encolhe 


O governo talvez só não possa contar mesmo é com os deputados do PT para ampliar as chances de vitória de Aldo. A bancada do partido, rachada desde que estourou a crise do caixa dois, está profundamente desarticulada e sequer foi capaz de chegar a um nome petista de consenso que pudesse provocar um acordo com a oposição para a sucessão de Severino Cavalcanti. A bancada petista chegou a anunciar a candidatura de Chinaglia, mas esta foi abatida antes de alçar vôo pelo próprio Palácio do Planalto. A escolha de Aldo, por sua vez, aconteceu sem a participação da bancada, o que contribuiu para que menos de 20 deputados petistas comparecessem à reunião de segunda-feira (26) à noite que estabeleceria as formas de apoio ao ex-ministro: “A escolha do Aldo foi feita sem que nos consultassem”, resumiu o deputado Walter Pinheiro (PT-BA).

 

A bancada do PT ainda foi abalada nesta terça-feira pela saída dos deputados Chico Alencar (RJ) e Maninha (DF), que anunciaram sua ida para o PSOL, onde pretendem disputar nova vaga na Câmara nas próximas eleições. Os dois juntaram-se a Ivan Valente (SP), Orlando Fantazini (SP), João Alfredo (CE) e André Costa (RJ), o que já representa uma baixa significativa no bloco de esquerda do PT na Câmara. Ivan Valente declarou que vai votar em Aldo Rebelo, opção que deve ser seguida por quase todos os demais dissidentes, mas o encolhimento da bancada do PT neste momento representa grande desgaste político para a candidatura do comunista.

 

Nonô já fala em aproximação 


Cento e cinqüenta é o número mínimo de votos com o qual trabalham também PSDB e PFL para a candidatura de Nonô. O atual vice-presidente da Câmara, no entanto, é o que tem mais chances de ultrapassar essa barreira, pois deve capitalizar os votos dos descontentes com o governo Lula em geral e ainda confirmou oficialmente nesta terça-feira o apoio do bloco parlamentar independente formado por PPS, PDT, PV e Prona, o que deve lhe garantir pelo menos mais 40 votos no primeiro turno. Único candidato a terminar o dia menos tenso do que começou, Nonô até mesmo ensaiou um discurso de aproximação com o governo e afirmou que “jamais encaminharia” um pedido de impeachment contra Lula: “Não sou aventureiro nem irresponsável. Tenho juízo, sou filho de deputado cassado que teve de deixar o país. Essa visão [de que encaminharia o impeachment] é paranóica. O presidente Lula não terá antagonismo de minha parte na presidência da Câmara”, disse.

 

Nonô parecia aliviado não somente por ver aumentarem suas chances de ir ao segundo turno como também pela decisão da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) de não decidir agora se sua candidatura _ assim como as de Nogueira e Caldas _ poderia seguir adiante. Na véspera, o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) dera entrada em recurso alegando que aqueles deputados que ocupam cargos na atual Mesa Diretora não poderiam concorrer novamente, pois desta forma estaria disputando duas eleições numa mesma legislatura, o que é proibido pelo regimento interno da Câmara. O relator do processo na comissão, deputado João Coruja (PPS-SC), no entanto, não pensou da mesma forma e afirmou em seu relatório “não ter encontrado no regimento interno da Câmara nada que torne os deputados inelegíveis ou que os obrigue a se desincompatibilizar para disputar nova eleição”.

 

Antes de o relatório de Coruja ser encaminhado para votação, o presidente da CCJ, Antônio Carlos Biscaia (PT-RJ), acatou um pedido de vista apresentado por Roberto Magalhães (PFL-PE) e suspendeu até a semana que vem a análise do mérito do recurso impetrado por Cunha. O pedido do pefelista Magalhães e a decisão do petista Biscaia em seu favor tiveram dupla serventia ao tranqüilizar o candidato da oposição e ao garantir ao governo um pleito sem maiores tumultos, coisa que prejudicaria a candidatura de Aldo Rebelo. A decisão beneficiou por tabela também a João Caldas e a Ciro Nogueira, mas houve quem a criticasse: “É lamentável que a CCJ adie essa decisão para depois das eleições. Se for preciso, vou dar entrada em ação no STF (Supremo Tribunal Federal)”, prometeu Cunha, que é aliado do ex-governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, e apóia a candidatura de Michel Temer (PMDB-SP) para a presidência da Câmara.

 

Conteúdo Relacionado