Política

Governo e oposição apostam suas fichas em Aldo e Nonô

23/09/2005 00:00

Brasília - Aldo Rebelo (PCdoB-PE) versus José Thomaz Nonô (PFL-AL). Salvo algum acidente de percurso, este deverá ser o duelo travado entre governo e oposição num inevitável segundo turno para a escolha do novo presidente da Câmara dos Deputados. Marcada para a próxima quarta-feira (28), a eleição do substituto de Severino Cavalcanti já concentra a atenção de todos os partidos na Câmara. As principais negociações foram concluídas nesta sexta-feira (23) e agora os dados estão lançados. PSDB e PFL, depois de flertarem com Michel Temer (PMDB-SP), parecem decididos a concentrar forças na candidatura de Nonô. O PT, que chegou a anunciar a candidatura do líder do governo Arlindo Chinaglia (SP), depois de muita conversa acabou optando por Aldo e fortalecendo a chapa da base governista com PCdoB e PSB.

O xadrez da sucessão de Severino demorou a se definir graças à indecisão do PT que, após receber alguns acenos favoráveis das lideranças tucanas e pefelistas, chegou a cogitar a possibilidade de firmar um acordo com a oposição para garantir vaga na Mesa Diretora. Dada a impossibilidade de se chegar a um nome petista que agradasse à oposição - nem mesmo opções mais suaves como Paulo Delgado (MG) ou Sigmaringa Seixas (DF) emplacaram - o PT decidiu partir para a disputa e anunciou o nome de Chinaglia. As primeiras reações à indicação do deputado paulista, no entanto, mostraram que sua candidatura corria o risco de nem mesmo chegar ao segundo turno, realidade que obrigou o partido a abrir mão de um nome petista e optar por Aldo. A escolha do ex-ministro da Coordenação Política teria agradado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que temia novo vexame do PT no plenário da Câmara e agora, segundo interlocutores, se disse “mais confiante”.


O efeito imediato da confirmação da candidatura de Aldo Rebelo foi a retirada da candidatura de Beto Albuquerque (PSB-RS). O líder do PSB, Renato Casagrande (ES), explicou: “Nossa avaliação era de que uma candidatura do PT poderia enfrentar muitas dificuldades neste momento, por isso havíamos optado pela candidatura própria. Com o candidato vindo de um outro partido da base, a campanha ficará mais fácil e arejada”, disse. Além de consolidar o apoio de PSB e PCdoB para a chapa do governo já no primeiro turno, a candidatura de Aldo tem muito maior possibilidade de angariar votos entres os governistas do PMDB do que teria a de Chinaglia, por exemplo. Isso aumenta as chances do governo num provável embate com a oposição no segundo turno.


Ciente de que o governo tem mais chances com Aldo, a oposição já começou a bombardear sua candidatura: “É inadmissível que um deputado que foi testemunha de defesa de José Dirceu no Conselho de Ética queira presidir a Câmara. Como ele poderá encaminhar a cassação de Dirceu se foi sua testemunha?”, questionou o líder da minoria, deputado José Carlos Aleluia (PFL-BA). O líder do PT, Henrique Fontana (RS), classificou a declaração de Aleluia como “desrespeitosa com um parlamentar da estatura do Aldo Rebelo”. O deputado gaúcho pretende trabalhar forte até quarta-feira para ampliar o leque de apoios ao candidato governista: “Rebelo tem ótimo trânsito na Câmara e grande simpatia entre os deputados do PP, do PL e do PMDB, além dos petebistas”, disse, em declaração dada ao sítio do PT na internet.


Temer abandonado no altar?

Apesar da sombra de Michel Temer, foi mais fácil para a oposição fechar questão em torno da indicação de José Thomaz Nonô para disputar a presidência da Câmara. Na realidade, o nome do peemedebista havia sido lançado pelo alto tucanato paulista - leia-se Fernando Henrique Cardoso e Geraldo Alckmin - como uma forma de conter o apetite inicial demonstrado pelo PFL ao trabalhar pelo afastamento de Severino (e não pela renúncia) e, dessa forma, tentar assumir o controle da casa na marra. Assim que a opção Temer começou a fazer efeito e o PFL, vendo que poderia acabar ficando fora da disputa, se acalmou, alguns dos parlamentares mais ativos do PSDB na Câmara, como Alberto Goldman (SP) ou Eduardo Paes (RJ), deram início ao trabalho de fortalecimento da candidatura de Nonô. O partido chegou a dizer que lançaria candidatura própria - Jutahy Magalhães Júnior (BA) - à presidência, mas, diante da disputa acirrada que se avizinha, achou melhor concentrar desde já suas forças no deputado pefelista.


Curiosamente, uma eventual candidatura de Michel Temer chegou a ser uma opção também para o governo. Nesse caso, a solução seria lançar um candidato que não fosse petista, que tivesse apoio da base aliada e que, na medida do possível, garantisse os votos de todo o PMDB. Em nome do PT, Chinaglia e Fontana conversaram com parlamentares peemedebistas sobre a possibilidade de apoiar Temer, mas essa opção finalmente também acabou sendo abandonada pelo governo. Levado a admitir sua candidatura após ver seu nome ser insistentemente lembrado à direita e à esquerda, Temer agora corre o risco de ficar no papel do noivo abandonado no altar. Fontes do PMDB dão conta de que o deputado estaria magoado e irritado e decidido a retirar sua candidatura na segunda-feira (26). Isso, no entanto, pode não ser verdade, pois até a semana que vem reviravoltas ainda serão possíveis e o nome de Temer pode voltar a emergir. Resta saber se ele vai se sujeitar a isso.


O fiel da balança

A disputa entre governo e oposição promete ser das mais equilibradas e, nesse cenário, forças secundárias podem acabar se tornando o fiel da balança para decidir quem será o próximo presidente da Câmara. A lembrança da “revolução do baixo-clero” que levou Severino Cavalcanti a uma consagradora vitória em fevereiro ainda é forte na memória de todos os deputados e deu origem a duas candidaturas. A mais forte delas parece ser a do corregedor da Câmara, deputado Ciro Nogueira (PP-PI), muito ligado a Severino e ao chamado “baixo-clero”, que pretende arregimentar os votos daqueles que se manifestaram contrariamente à cassação do ex-presidente da casa.


Outra candidatura que busca votos no “baixo-clero” é a de João Caldas (PL-AL), deputado que atualmente ocupa a quarta-secretaria da Câmara: “Há um segmento de deputados aqui que, durante anos, não teve acesso a nada: a discussões, a colocar seus projetos de lei na pauta, a ter vez, a ter voz, a entrar no gabinete do presidente. Essas pessoas estavam construindo uma nova fase dentro da Câmara e elas não se dispersaram”, disse, em entrevista à Agência Câmara. Essa dualidade, no entanto, pode ameaçar a consolidação da “bancada do baixo-clero” como terceira força nessas eleições. De toda forma, mesmo que ambas as candidaturas sejam mantidas no primeiro turno, o cenário mais provável é que esse setor apóie a candidatura governista num segundo turno.


A candidatura de Nonô, por sua vez, deve contar num segundo turno com o apoio e os votos do bloco independente de oposição formado por PPS, PV, PDT e Prona. É possível que este apoio venha até mesmo no primeiro turno, pois o bloco independente, apesar de ter manifestado a intenção de lançar candidato próprio, não havia chegado a um nome de consenso até a tarde desta sexta-feira (23). O único nome que surgiu naturalmente no bloco parlamentar foi o do deputado Fernando Gabeira (PV-RJ), que polarizou recentes embates com Severino e poderia até ganhar densidade eleitoral, mas este teria recusado a missão. Em sabatina organizada na semana passada pelo jornal Folha de SP, Gabeira parecia antecipar sua recusa: “Não vou ganhar eleição majoritária nunca porque no final das contas vou ser sempre o veado e maconheiro”, disse.


Para além do limite da composição de forças com chances reais de conquistar a presidência da Câmara existem, como sempre, as candidaturas avulsas com motivações as mais distintas. O grupo de deputados que já é chamado pelos colegas de “viúvas do Roberto Jefferson” lançou a candidatura de Luiz Antônio Fleury Filho (PTB-SP). A parte do PP mais afinada com o PSDB e o PFL lançou a candidatura do ex-ministro Francisco Dornelles, talvez para minimizar os efeitos de um eventual apoio de Ciro Nogueira à candidatura de Aldo Rebelo no segundo turno. O ex-governador do Rio Grande do Sul, deputado Alceu Collares (PDT-RS), lançou sua candidatura avulsa à revelia do partido. O caso mais curioso é o do deputado linha-dura Jair Bolsonaro (PP-RJ). Ele foi candidato na eleição anterior e obteve dois votos. A votação foi secreta e até hoje no Congresso se fazem brincadeiras a respeito do mistério envolvendo o segundo deputado que votou em Bolsonaro, uma vez que, acredita-se, o outro voto tenha sido o dele próprio.


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