Política

Governo tenta barrar com intimidação instalação de CPI

17/02/2004 00:00

Brasília - “O governo Lula está como a ovelha Dolly: foi clonado do governo FHC e agora sofre de degeneração precoce”. A imagem foi utilizada pela senadora Heloisa Helena (sem partido-AL) para criticar a tática da intimidação escolhida pelo governo para tentar impedir a instalação da CPI que pretende investigar a atuação do ex-subchefe para Assuntos Parlamentares da Casa Civil Waldomiro Diniz, demitido após ser denunciado por prática de corrupção no tempo em que servia ao governo do Rio de Janeiro. Para reduzir o desgaste perante a opinião pública, os líderes do PT passaram direto do discurso da insuficiência de motivo para a contraposição de uma investigação mais ampla, abrangendo os financiamentos de campanhas dos últimos oito anos.

"Não podemos aceitar que, sendo maioria, investiguemos apenas aquilo que a oposição quer investigar", avisou o líder do governo Aloizio Mercadante (PT-SP), após reunião da bancada petista no Senado que decidiu na manhã desta terça-feira (17) apoiar apenas uma CPI ampla, que incluiria a privatização das teles, ocorrida na véspera da eleição de 1998, a privatização do setor elétrico e a implantação do cartão do Sistema Único de Saúde (SUS) – fatos que, sugerem os petistas, estariam relacionados com o financiamento das campanhas de reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso e do atual presidente do PSDB, José Serra.

O desafio aos tucanos foi claro: “não forcem a barra para investigar nosso governo, porque podemos vasculhar o de vocês”. A tática já foi usada pelo governo anterior. Para frear o entusiasmo da oposição na cobrança de uma CPI para investigar denúncias contra o ex-secretário-geral da Presidência Eduardo Jorge Caldas Pereira, o então líder do governo no Congresso, deputado Arthur Virgilio (PSDB-AP), que hoje é um dos senadores que encabeçam o pedido de investigação parlamentar, colocou na mesa denúncias de malversação nas verbas do FAT, que poderiam atingir petistas e aliados de centrais sindicais. “Pelo menos eu era mais bem-humorado”, reconheceu Virgilio.

Efeito contrário
O problema é que a revanche petista espirrou onde não devia, relembrando a montanha de dinheiro encontrada no escritório de empresa da senadora Roseana Sarney (PFL-MA), supostamente destinada a financiar a frustrada campanha dela à Presidência, em 2002. Se o objetivo era abafar a CPI da oposição, o efeito foi contrário. A bancada do PSDB no Senado, que estava dividida, se uniu a favor da CPI. Senadores do PFL contrários à investigação parlamentar mudaram de posição, para não dar a impressão de ter algo a encobrir. “A inabilidade do governo tem sido uma coisa espantosa. O PT não é mais oposição, tem de assumir que é contra. Desafiou o Senado todo com a abertura de uma CPI mais ampla. Erraram no tom, na voz e no tempo. Se continuarem nos desafiando, nossa decisão é assinar”, reagiu o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), mencionado por petistas como possível investigável.

Na Câmara, onde deputados disputam uma espécie de gincana para colher assinaturas em CPIs variadas, o tom do PT foi menos agressivo, mas o enfrentamento se repetiu. "Não temos que ser pautados pela oposição, mas pelo interesse público", sustentou o líder Arlindo Chinaglia (SP), após reunião da coordenação da bancada que seguiu a mesma linha do Senado. "Se quiserem uma CPI sobre financiamento de campanha, tudo bem, mas não se pode atribuir ao nosso governo ações de um ex-assessor. Não somos favoráveis é que se use de um episódio para tentar comprometer o governo", acrescentou.

Pedindo maturidade
Vendo o clima de CPI esquentar, os presidentes do Senado e da Câmara pediram maturidade aos parlamentares. "Qualquer retórica que possa existir no sentido de retaliação desse problema, se colocado num clima passional, não serve ao país nem ao Congresso. Devemos ter um pouco de paciência nessas coisas", recomendou o senador José Sarney (PMDB-AP). "Quem quer ajudar o Brasil neste momento não deve apagar o fogo com gasolina", advertiu o deputado João Paulo Cunha (PT-SP).

“O governo é que tem a obrigação de apaziguar, manter a ordem e a calma na Casa. Mas, até agora, não se dispôs a dar as explicações com transparência. Não caiu a ficha”, cobrou Jereissati. “Eles devem fazer uma autocrítica, principalmente em relação à humildade. A palavra-chave é humildade. Que a bancada do governo baixe a crista, baixe o tom e venha dialogar, não só com o Senado, mas com a sociedade brasileira que está, apenas, buscando uma explicação”, acrescentou, sinalizando um possível acordo, mas em outras bases. Ele observou também que o clima de enfrentamento já comprometeu a pauta do governo no Congresso, pois a votação da medida provisória que regulamenta o setor elétrico foi adiada para março, por causa da tática de intimidação.

Posicionada em estado permanente de oposição, Heloisa Helena, não perdeu a oportunidade de denunciar o que considera um conluio para que uns “acobertem a podridão” dos outros. Para divertimento de Jereissati e do senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), que acompanharam atentamente seu pronunciamento, ela acusou o governo de tentar obstruir a CPI de forma “cínica, desavergonhada e dissimulada”. “Estamos diante de um caso grave de narcopolítica, que é a utilização da lavanderia do narcotráfico para financiar campanhas políticas”, enfatizou, observando que, se os governistas suspeitavam do financiamento irregular das campanhas dos adversários, já deveriam ter investigado e não deixado para fazer chantagem agora.

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