Política

Governo volta a tramar a ''reforma'' do SUS

Após encontro com empresários da Saúde, ministro vai à Fiesp, recoloca tema em pauta evita expor proposta concreta - mas pede cautela com imprensa e redes sociais

04/05/2021 12:20

Marcelo Queiroga, à época presidente eleito da Sociedade Brasileira de Cardiologia, encontra-se, em setembro de 2019, com Skaf, da Fiesp. Contatos do atual ministro com setores interessados em privatizar o SUS vêm de longe (Reprodução/bit.ly/3nLKEzG)

Créditos da foto: Marcelo Queiroga, à época presidente eleito da Sociedade Brasileira de Cardiologia, encontra-se, em setembro de 2019, com Skaf, da Fiesp. Contatos do atual ministro com setores interessados em privatizar o SUS vêm de longe (Reprodução/bit.ly/3nLKEzG)

 
QUEIROGA E A “REFORMA” DO SUS

Marcelo Queiroga foi à Fiesp ontem. Lá, conversou com empresários e voltou a falar em uma “reforma do SUS” – que já havia defendido em meados de abril. Nas duas ocasiões, o ministro da Saúde não é muito claro. Mas a linha de raciocínio sempre tem a mesma origem: a taxa de mortalidade dos pacientes brasileiros internados em UTIs para tratar a covid-19.

Em abril, numa entrevista ao Sem Censura, ele mencionou achados de uma pesquisa publicada na Lancet para dizer: “A cada dez indivíduos que vão para UTI e recebem intubação, sete morrem. Um resultado que não é bom, que nós precisamos melhorar”. A partir daí, falou que a melhora se daria pela reformulação do sistema de saúde “como um todo”. “Repensar a formação dos médicos, analisar a possibilidade de mudar a assistência hospitalar especializada”, completou, afirmando que a tal “reforma” incluiria a saúde suplementar. “Que atende 48 milhões de brasileiros, cujos resultados nós nem sabemos quais são”.

Ontem, Queiroga retomou o argumento, citando desta vez o número apurado por um estudo da USP e da Fiocruz: “Não podemos aceitar que de cada dez pacientes que estão intubados, oito morram. É por isso que nós temos tantos óbitos, porque a assistência de saúde não dá a resposta que nós esperamos dela”. Mais uma vez, ele queria chegar à seguinte conclusão: “Nós precisamos reformar o Sistema Único de Saúde.” Desta vez, o ministro não mencionou só a atenção especializada, mas afirmou que tal reforma se daria “sobretudo” na atenção primária.

Não é preciso ir muito longe para lembrar da tentativa concreta do governo Jair Bolsonaro de “reformar” a atenção primária. Em outubro do ano passado, o presidente editou o decreto 10.530 que visava incluir as unidades básicas de saúde no PPI, o Programa de Parceria de Investimentos. Em 24 horas, depois de uma tremenda mobilização nas redes sociais que se articulou em tono da hashtag #DefendaoSUS, o governo voltou atrás e revogou o decreto.

Mais tarde, se descobriu que a nota técnica que sustentava a inclusão das unidades de saúde no PPI não era obra só do Ministério da Economia: tinha respaldo do próprio Ministério da Saúde na gestão Luiz Henrique Mandetta.

Embora Marcelo Queiroga até agora não tenha detalhado sua agenda, não é impossível que o ministro retome essa ideia – ainda mais porque ao falar na reforma do SUS ele também disse que “temos um ambiente político muito exigente, com muita divergência, redes sociais muito inflamadas”. Foram as redes sociais que atrapalharam os planos da última vez…

Em busca de pistas sobre de onde vêm os lobbies da vez, temos um post do Instagram do ministro. Dez dias depois da entrevista no Sem Censura, ele recebeu o presidente do conselho de administração da Rede D´Or, Jorge Moll Filho, para “tratar da reforma do sistema de saúde do Brasil”.

DESMASCARADO

Além da reforma, Marcelo Queiroga também reclamou da “imprensa” e pediu que os participantes do encontro da Fiesp repensassem a “estratégia” de anunciar em veículos de comunicação. Isso porque o ministro foi flagrado sem máscara por um fotógrafo da Folhapress quando chegava no saguão do aeroporto de Guarulhos. Essa reclamação teve direito ao seguinte ato falho: “Vai chegar o momento em que vamos desmascarar essas pessoas que não contribuem com o Brasil, até parte da imprensa”.

Num país com mais de 400 mil mortos pela pandemia, o ministro da Saúde também achou tempo para se queixar de críticas que recebe por usar “frases” de Adib Jatene. Mas, no caso, o dito “Curar quando possível; aliviar quando necessário; consolar sempre” é atribuído a Hipócrates.

*Este texto foi publicado originalmente em 'Outras Palavras'

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