Política

Graças ao Aécio, Bolsonaro venceu ontem

Uma reunião sendo intimidada por PMs, a sede da UNE pichada, a derrubada do site da Carta Maior: a violência política tem sido a tônica do Brasil.

14/03/2016 00:00

Gabriela Korossy/ Câmara dos Deputados

Créditos da foto: Gabriela Korossy/ Câmara dos Deputados

E, para dizer a verdade, não venceu só ontem. Desde sexta-feira a violência política tem sido a tônica do Brasil. Reuniões em sindicatos sendo intimidadas por PMs armados, sedes da UNE e do PCdoB invadidas e pichadas. Hoje foi só mais um movimento dessa onda.
 
A imprensa perdeu, porque todos os seus milhares de chamados não levaram a diversidade da sociedade brasileira às ruas. Marchou somente a elite branca e a classe média.
 
O PSDB venceu, e ainda assim foi talvez o mais derrotado – mais até que o PT, cuja derrota já estava decretada de véspera. Os tucanos venceram porque, em seu afã por desestabilizar o país visando o poder, insuflaram os setores mais violentos da direita. Essa jogada deu muito certo, porém, muito mais do que se esperava, e não é de hoje que vem já jogando contra o partido.
 
Tampouco começou ontem. Podemos observar esse movimento lá em 2010, quando o Serra usou o pior do conservadorismo religioso contra Dilma. Mas foi sob o comando de Aécio Neves que o PSDB aderiu definitivamente à lógica do “quanto pior, melhor”. Vez ou outra, quando a imagem do partido se aproximou perigosamente a de figuras como Bolsonaro e outras mais radicais, o senador mineiro tentou se desligar, talvez querendo não perder o controle da situação. Em várias ocasiões, isso foi visto como sinal de covardia pelos novos aliados. A vaia que sofreu hoje na Paulista foi uma mostra de que esses aliados se cansaram e querem mais protagonismo.
 
O PSDB, assim como a mídia, não conseguiu convencer o povão a ir às ruas. Isso não significa que as manifestações tenham sido um fracasso. Os números oficiais, questionáveis ou não, falam de um milhão de pessoas no total do país. Talvez algumas dezenas de milhares menos, ainda assim é muita gente – sem contar que São Paulo, a capital do ódio político, levou mais da metade disso sozinha.
 
O problema é: quem é o grande vitorioso. Parte da esquerda comemora o fato de o PSDB levar menos gente do que o esperado, o que é verdade, mas não motivo para celebração. Quem sim levou gente às ruas, muitíssimo mais que das outras vezes, foi a direita da direita do PSDB. Bolsonaros, Felicianos, Malafaias, Olavos, Constantinos. Hoje, permeados por algumas exceções, os que dominaram as ruas das nossas capitais foram os defensores da intervenção militar, da perseguição a feministas, homossexuais e transexuais, os que ensinam os filhos a querer a morte dos petistas, os que querem aquele país mais segregado, o nosso passado neoliberal de volta, ou aquele passado ainda mais distante, o das torturas e assassinatos por motivos políticos. Um querido amigo lembrou um lema da ditadura franquista que caberia bem para a marcha de hoje: “abaixo a inteligência, viva a morte” – são pessoas orgulhosas da sua falta de informação e conhecimento geral e histórico, e também da sua sede de sangue.
 
A vitória do ódio não esteve somente nas ruas. Durante a madrugada, hackers invadiram e derrubaram o site da Carta Maior, o mesmo aconteceu com o portal Vermelho. No final da tarde, a página do deputado Jean Wyllys também foi vulnerada, com fotos e publicações sobre o grande vencedor da jornada: Jair Bolsonaro. Temo que é só um aperitivo, muito mais virá pela frente, porque essas pessoas viram que seu ódio tem uma avenida aberta pela frente, pavimentada pelo discurso da mídia e do PSDB nos últimos anos, e não vão duvidar em desfilar nela com toda a sua cafajestagem.
 
No final, o dia de ontem foi um dia terrível para a história do Brasil e para a sua democracia. E talvez o pior – o muito pior – ainda esteja por vir.



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