Política

Guerra pela prefeitura já domina cenário político no RJ

30/06/2004 00:00

Rio de Janeiro – Com a definição nesta quarta-feira (30) do nome do ex-governador Nilo Batista como candidato à Prefeitura pelo PDT, o ciclo de convenções partidárias para a escolha das chapas que vão disputar a eleição deste ano no Rio de Janeiro se encerra oficialmente. A guerra em que se transformará a campanha eleitoral, por sua vez, está apenas começando. Reunidas na mesma semana, a divulgação da primeira pesquisa de opinião feita pelo Ibope e a realização do primeiro debate entre os candidatos na televisão – que será exibido pela Rede Globo na quinta-feira (1º) – esquentou de vez a campanha e acirrou os ânimos dos protagonistas da disputa. Apesar de a briga estar apenas começando, o repertório exibido pelos candidatos já inclui puxadas de tapete, cooptações de última hora e uso da máquina administrativa, além das habituais tentativas mútuas de desqualificação política.

O primeiro golpe partiu do candidato do PT, Jorge Bittar, que anunciou a conquista, obtida de última hora, do apoio do PTB. O partido presidido pelo deputado federal Roberto Jefferson já havia anunciado que apoiaria a tentativa de reeleição de Cesar Maia (PFL) no Rio, mas a interferência direta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas negociações acabou sendo fundamental para convencer o cacique petebista. Lula teria assumido com Jefferson o compromisso de que o governo federal não vai trabalhar contra o PTB se o partido decidir lançar candidato próprio à disputa pelo governo do Rio em 2006. O sonho do deputado é convencer o ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes (atualmente no PPS), a ser o candidato do PTB a sucessão de Rosinha Matheus (PMDB).

Mais do que prejuízo político, a virada de casaca de última hora do PTB significa para Cesar Maia a perda de um minuto no tempo de propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão. Esse capital passa agora a ser de Bittar que, contando também com a participação do PSB em sua coligação, será o candidato com maior tempo de propaganda eleitoral. A reação do prefeito a uma perda tão significativa foi imediata: ele ordenou que o PFL retirasse o apoio ao PTB nos municípios de Nova Iguaçu e Belford Roxo, na Baixada Fluminense, onde a participação pefelista seria fundamental para a vitória dos candidatos do partido de Roberto Jefferson. Pressionado pelos dois lados, o deputado acabou optando pelo mais forte – o governo federal – e confirmou o apoio a Bittar.

Cesar mostra as armas
Com sua candidatura a reeleição homologada em 27 de junho por uma convenção conjunta do PFL e do PSDB, Cesar já deu mostras de que será um adversário difícil de ser batido. Em seu discurso não faltaram ataques aos demais candidatos. Classificado como “populista evangélico”, o senador Marcelo Crivella (PL), segundo colocado nas pesquisas, foi criticado pelo prefeito por “usar o nome de Deus para fazer política”. A deputada federal Jandira Feghali, candidata pelo PCdoB, foi criticada por “ajudar a desintegrar a rede pública de saúde” quando seu partido participou do governo de Moreira Franco (1987-1990). Comentário parecido sofreu o petista Bittar, criticado pela “ineficiência quando foi secretário estadual de Planejamento” durante a primeira fase do governo de Anthony Garotinho, entre janeiro de 1999 e abril de 2000, quando o PT rompeu com o então governador.

Mostrando sua habilidade em utilizar a seu favor os fatos políticos que surgem ao mesmo tempo em que fica de olho na reação do eleitorado, Cesar convocou a imprensa para anunciar que está vetando um projeto que aumentaria em até 400% os salários de 1.060 funcionários da Secretaria Municipal de Fazenda. O trem da alegria aumentaria a folha de pagamento do município em R$ 61 milhões: “Não me preocupo se esses servidores não vão votar mais em mim. Espasmos eleitorais não passam por aqui”, disse, numa atitude que teria boa repercussão junto a um número muito maior de eleitores.

Para Luiz Paulo Conde (PMDB), que foi lançado na política por Cesar e atualmente é um de seus maiores desafetos, o prefeito guardou seus comentários mais sarcásticos. Além de associar o vice-governador ao que qualificou como “desmandos e incompetências do governo de Rosinha e Garotinho”, Cesar sugeriu que o adversário renunciasse: “Renuncie, Conde, para não passar vergonha. Você está deixando que entreguem sua cabeça numa bandeja. Bote a mão na consciência e não estrague sua biografia política”, disse, referindo-se a negociação que Rosinha havia iniciado para substituir a candidatura de Conde pela do ex-governador Leonel Brizola, que acabou morrendo antes da conclusão das discussões.

Crivella e a primeira polêmica
A primeira grande polêmica da campanha tem como protagonista involuntário o candidato liberal Marcelo Crivella. Na convenção do PL que homologou sua candidatura no último sábado (26), o senador recebeu a visita do juiz Siro Darlan, da 1ª Vara da Infância e da Juventude do Rio, que foi levar seu apoio ao filho, candidato a vereador. Fotografado por todos os jornais abraçado a Crivella e trajando uma camisa de campanha com a logomarca do PL, Darlan atraiu a ira de Cesar Maia e Jorge Bittar, que prometeram entrar ainda esta semana com representações contra o juiz no Ministério Público. O presidente do Tribunal de Justiça do Rio, Miguel Pachá, foi mais rápido que os dois candidatos e já deu entrada em uma representação contra Darlan no Conselho da Magistratura do TJ.

É evidente que Bittar e Cesar estão mirando em Siro Darlan para acertar em Crivella, que aparece em segundo lugar tanto na pesquisa Sensus quanto na pesquisa Ibope, divulgadas nas últimas semanas (ver resultado abaixo). Ciente da sua boa posição atual, o candidato do PL tenta consolidar seu eleitorado e já anunciou que seu lema de campanha será “vamos tirar as crianças da rua”. Crivella, que em abril negociava a vaga de vice na chapa do PT, provocou o partido de Bittar: “Vamos para o segundo turno para vencer, pois o povo quer mudança. Conto com o PT para repetir no Rio a aliança que elegeu Lula presidente”, disse. O petista Bittar, que teve confirmada como vice em sua chapa, indicada pelo PSB, a delegada de Polícia Civil Martha Rocha, disse que devolve o convite a Crivella: “O PT vai para o segundo turno e espero poder contar com o apoio do PL”.

Conde salvo pelo congo
Mesmo tendo confirmada sua candidatura na convenção do PMDB realizada nesta terça-feira (29), Conde continua em situação de risco e pode ser novamente ameaçado se não tiver um bom desempenho no debate da Rede Globo. Em seu discurso, que durou a metade do tempo do discurso de Garotinho na convenção, o vice-governador atacou veementemente Cesar e Crivella, que estão a sua frente nas pesquisas, e poupou Bittar, no que pode ser apenas desprezo ou talvez um indicativo de alianças futuras. Foi também Garotinho quem lançou durante a convenção uma das bandeiras de campanha de Conde, a passagem de ônibus a um real, dando seqüência à política de “tudo a um real”, popularizada nos governos de Garotinho e Rosinha.

A crise envolvendo as negociações do PMDB com Brizola foi rechaçada com um discurso ensaiado, com todos os personagens dizendo que Conde estava ciente todo o tempo e apoiava a iniciativa: “A conversa com o Brizola fazia parte de uma estratégia nacional de aliança com o PDT, e não foi um ato para enfraquecer minha candidatura”, disse Conde. Outro motivo de discórdia do vice-governador com Garotinho – a indicação pelo PP do líder da Assembléia de Deus, pastor Manoel Ferreira, para vice em sua chapa – parece que jamais aconteceu: “O pastor é um grande nome. Esta chapa vai conquistar o eleitorado porque tem um católico na cabeça e um evangélico para vice”, disse.

Resultado das pesquisas
A pesquisa Ibope foi realizada entre os dias 25 e 27 de junho, ouviu mil pessoas e tem uma margem de erro de três pontos percentuais. Nela, aparece em primeiro lugar o candidato do PFL, Cesar Maia, com 38% das intenções de voto. Em segundo lugar está Marcelo Crivella, do PL, com 20%. O senador liberal é seguido por Luiz Paulo Conde, do PMDB, que aparece com 9% das intenções de voto. Os candidatos da esquerda, Jorge Bittar (PT) e Jandira Feghali (PCdoB), aparecem empatados em quarto lugar, com 5% das intenções de voto cada um. Os candidatos André Correa (PPS) e Lenine Madeira (Prona) têm 1% na pesquisa.

O cenário do Ibope praticamente repete o da pesquisa Sensus, que foi divulgada duas semanas antes com resultados colhidos junto a mil pessoas. A pesquisa foi feita nos dias 26 e 27 de maio, com margem de erro de 3%. Nela, Cesar lidera com 34% das intenções de voto, seguido por Crivella (21,5%), Conde (14,6%), Bittar (6,7%) e Jandira (4,2%).

Sempre importante numa eleição, o índice de rejeição dos candidatos na pesquisa Ibope indica que, até outubro, tudo ainda pode acontecer nessa disputa. Indagados sobre qual candidato não votariam de jeito algum, os entrevistados citaram preferencialmente Crivella e Conde, com 23%. Cesar tem 21% de rejeição, seguido de Bittar, com 17%, e Jandira, com 12% de rejeição.


Conteúdo Relacionado