Política

Heloísa Helena é lançada pelo PSol com apoio do PSTU e do PCB

30/05/2006 00:00

Agência Senado

Créditos da foto: Agência Senado
BRASÍLIA – A chapa da senadora Heloísa Helena (PSol-AL) na disputa eleitoral pela Presidência da República conquistou o apoio do PSTU e do PCB. A confirmação do “pólo unitário de esquerda socialista” emergiu da I Conferência Nacional do PSol, ocorrida no último fim-de-semana. Os dois partidos abraçaram a candidatura “puro sangue” do PSol, liderada por Heloísa e pelo candidato a vice César Benjamin - economista que participou da fundação do PT e se desligou do partido em 1995, ajudou a fundar a Consulta Popular (conjunto de entidades e movimentos sociais). Para consumar o apoio, militantes do PSol aprovaram – por votação que terminou em 110 a 44 - apoio às candidaturas do PSTU ao Senado em três importantes estados - São Paulo, Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul -, além da candidatura majoritária ao governo de Minas Gerais.

Em discurso no ato de confirmação da chapa, Heloísa atacou a “farsa técnica” e a “fraude política” do mesmo “modelo neoliberal” protagonizado pelo PT e pelo PSDB nas últimas administrações federais. Aos adversários, ela deixou o seguinte recado: “Pode vir quente que estamos fervendo. Ou melhor, pode vir fervendo que estamos como lava vulcânica”.

“PSTU e PCB souberam compreender a candidatura”, completou a senadora, em entrevista coletiva após o encerramento do ato. Internamente, porém, a disputa não foi tão tranqüila assim. Parte dos parlamentares que saíram do PT e se filiaram ao PSol ressaltou o problema resultante da união formal para uma já complicada campanha eleitoral, já que não são poucas nem desprezíveis as diferenças entre as bases dos respectivos partidos e candidatos. Mesmo assim, a tese da frente única prevaleceu sobre as posições defendidas por outros deputados federais como Ivan Valente (PSol-SP) e João Alfredo (PSol-CE).

Tradicional concorrente do PSTU ao Palácio do Planalto nas últimas eleições gerais, Zé Maria deve se lançar, desta vez, justamente ao pleito pelo governo de Minas Gerais. Os cargos a serem disputados, afirmou a senadora confirmada como candidata, não têm tanta importância diante da “unidade da esquerda que não se vendeu”. "A Bíblia diz: ou se serve a Deus ou ao capital. Quem serve ao capital vai virar churrasco do demônio", emendou aos jornalistas, depois do ato em que também estiveram presentes Plínio de Arruda Sampaio, candidato do PSol ao governo de São Paulo, e outros parlamentares da bancada da legenda como Chico Alencar (PSol-RJ), Maninha (PSol-DF), Babá (PSol-RJ) e Luciana Genro (PSol-RS).

A frente encabeçada pelo PSol, segunda Heloísa, é uma “exigência histórica” contra o “fatalismo” da polarização entre PT e PSDB, que querem “ludibriar” a população. Sobre o financiamento de campanha, ela adiantou que espera a colaboração de pessoas e empresários honestos para o seu projeto de democratização socialista. "Não é democracia o País onde meia dúzia toma para si metade da riqueza nacional, enquanto uma menininha pobre vende o corpo por R$ 1,99 e um menino de seis anos vira olheiro do narcotráfico".

CHOQUE DE REPUBLICANISMO
Tanto no seu discurso como na entrevista coletiva, Heloísa associou várias vezes seus adversários com a “roubalheira do dinheiro público”. Questionado sobre o tema, César Benjamin afirmou que a “corrupção é endêmica e muito maior que os governos” e que a campanha do PSol não ficará centrada nessa questão, a qual exala uma “posição negativista e rancorosa”.

“Nossa obrigação não é ganhar a eleição”, disse o economista, é “qualificar as eleições”. “Temos que defender aquilo em que acreditamos com clareza. O eleitor é livre e reconheço os motivos que eles têm para não votar em Heloísa Helena. Mas no fim da campanha, se ela não for eleita, a nossa missão já estará cumprida se as pessoas reconhecerem que ela falou a verdade”.

A polarização entre PT e PSDB, na opinião do candidato a vice, “reduz a disputa democrática”. “A melhor forma de consolidar um modelo é ter o apoio da situação e da oposição”. Para ele, os índices de intenção de voto que Heloísa têm alcançado nas pesquisas dão sinais de que “a sociedade não está aceitando” essa primazia das agendas defendidas por tucanos e por petistas.

As modestas pretensões eleitorais de Benjamin contrastam com ousadas propostas efetivas colocadas pelo escolhido ao posto de vice. O “choque de republicanismo” prometido por ele passaria pela publicação de um decreto com a nomeação de cerca de 100 a 150 funcionários para atuar em posições estratégicas do governo. Todos os outros cargos seriam ocupados por funcionários de carreira. Hoje o governo nomeia cerca de 20 mil pessoas. E os “padrinhos” políticos disputam cargos de direção em estatais para manobrar as decisões de ocupantes em postos-chave de acordo com interesses privados, ressaltou o economista. “Isso encobre a corrupção”.

Benjamin também defendeu uma relação independente entre o Poder Executivo e o Parlamento. “Não demonizo o Congresso. Não é Casa de ladrões. É um microcosmo da sociedade”. O problema, na visão dele, é que o governo “suborna” os congressistas com o Orçamento Geral da União (OGU) e acaba dando moral para a “parte podre”. “Nós queremos apenas que o Congresso seja Congresso. Não uma Casa de despachantes de pequenos negócios”. Paralisações de projetos importantes para o País no Legislativo podem sofrer o contra-peso do Poder Executivo e da opinião pública, argumentou o economista. Resta saber de que lado pode ser a opinião pública.

RESOLUÇÕES
Confira algumas das propostas apresentadas pelo Diretório Nacional do PSol na 1a Conferência Nacional do partido

Objetivos estratégicos
- Afirmação do PSol como alternativa política e viabilização dos candidatos do PSol na disputa político-eleitoral de 2006.

Objetivos táticos
- Atrair e reorganizar a maior parcela possível dos ativistas do funcionalismo público, do sindicalismo público, do sindicalismo combativo, dos movimentos populares, da comunidade universitária, da intelectualidade, da juventude e das ONGs progressistas, parcelas da militância da Igreja progressista, do MST e da Consulta Popular, uma enorme base social que votou em Lula objetivando mudanças e que viu frustradas as suas perspectivas, para que se somem aos que travam a luta contra-hegemônica.
- Não descartam segmentos de outros partidos que se colocam na oposição com um discurso de esquerda que possam se deslocar nas alternativas apresentadas por suas próprias legendas e se movimentar para o pólo de esquerda conseqüente que buscamos afirmar.

Política de alianças
- Pólo unitário de esquerda socialista – PSol, PSTU e PCB.
- Segmentos sociais que se opõem ou podem vir a se opor ao governo Lula e ao atual modelo neoliberal.

Metas políticas e programa
- Encarnação de uma alternativa real para o povo brasileiro, uma saída para a crise estrutural do país capaz de enfrentar a questão do poder político e da democracia, a questão da independência nacional e do desenvolvimento e as demandas sociais baseadas em três eixos fundamentais.

1) Por um novo poder e por novas instituições realmente democráticas sob o controle direto da maioria do povo
- Financiamento público exclusivo de campanha, da democratização dos horários para a propaganda eleitoral nos meios de comunicação, na introdução da revogabilidade dos mandatos, das candidaturas avulsas, do fim da cláusula de barreira que impede a representação dos partidos e dos candidatos sem poder econômico. Fim dos foros privilegiados, sigilo bancário e fiscal, salário de parlamentares e governantes definidos por meio de plebiscito e vinculados com o salário mínimo, a definição da corrupção como crime hediondo e a luta implacável para colocar todos os corruptos na cadeia;
- Jornada de mobilizações populares para decidir as relações com o imperialismo (FMI, etc.); as dívidas externa e interna e a necessidade de uma verdadeira independência nacional; a reforma agrária e urbana e um novo estatuto sobre a propriedade da terra; a nova abolição da escravatura, o valor do salário mínimo e das prioridades orçamentárias e os parâmetros para o modelo de desenvolvimento ecologicamente sustentável, etc.

2) Conquistar a verdadeira soberania e independência nacional e romper com o capital financeiro
- Suspender o pagamento dos juros da dívida externa e realizar uma auditoria. Com relação à dívida interna, promover a discriminação do perfil dos devedores para identificar especuladores e suspender o pagamento destes últimos;
- Retomar áreas estratégicas e submetê-las ao controle do Estado: petróleo, telecomunicações, energia e siderurgia;
- Controle de capitais, recuperação da capacidade de intervenção e regulação estatal, expansão dos serviços públicos.

3) É necessária uma nova abolição para acabar com a moderna escravatura.
- Redução da jornada semanal com manutenção de salário;
- Tributação severa de grandes fortunas;
- Anular a Reforma da Previdência aprovada durante o governo Lula;
- Políticas com atenção especial para povos indígenas e afrodescendentes, principalmente mulheres.

Metas eleitorais
- Destaque ao voto solidário na legenda do partido;
- Concentrar esforços especialmente no RJ e em SP; também em grandes regiões metropolitanas com mais de 1 milhão de habitantes.

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