Política

Historiadora da UFMG diz que punir o Memorial da Vale é errar o alvo

Heloísa Starling, que chefiou grupo responsável pela pesquisa da exposição, diz que a indignação com a tragédia de Brumadinho deve ser direcionada a 'lugar que produza efeito', não à cultura

07/02/2019 10:21

Visitantes se deparam com o Memorial Minas Gerais Vale, na Praça da Liberdade, fechado (Marcos Vieira/EM/D.APress)

Créditos da foto: Visitantes se deparam com o Memorial Minas Gerais Vale, na Praça da Liberdade, fechado (Marcos Vieira/EM/D.APress)

 



Fechado desde o sábado (26), em decorrência do rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, o Memorial Minas Gerais Vale, integrante do Circuito Cultural Praça da Liberdade, não tem previsão de voltar a funcionar.

Por meio de sua assessoria de imprensa, a mineradora afirmou que a instituição está “temporariamente fechada”. “Estamos mobilizados para prestar apoio aos impactados pelo rompimento da barragem de Brumadinho e às comunidades afetadas”, é o que assinala o curto comunicado enviado à imprensa no sábado (2). Em comunicado anterior, de 28 de janeiro, a informação era que o Memorial reabriria amanhã (5).

Na quarta-feira (30), artistas que tinham obras expostas em mostra retrospectiva de edital de exposições do Memorial decidiram retirar seus trabalhos do local, “em repúdio à empresa patrocinadora responsável pelo crime ambiental em Brumadinho e em solidariedade a todas as vítimas dessa atrocidade”, segundo afirmaram em carta aberta. As obras, exibidas desde dezembro passado na sala de exposições temporárias, foram devolvidas aos seus autores.

Inaugurado em novembro de 2010, o Memorial Minas Gerais foi criado e é mantido pela mineradora por meio da Fundação Vale. Uma exposição permanente, com curadoria do artista, arquiteto e cenógrafo Gringo Cardia, ocupa três andares da edificação de 1897 que foi a antiga sede da Secretaria do Estado da Fazenda de Minas Gerais.

O Memorial, chamado “museu de experiência”, nasceu para refletir sobre as raízes mineiras por meio de aspectos da história e da cultura do estado. Trinta e uma salas apresentam 300 anos dessa trajetória de forma interativa, com a representação de personagens, cidades, momentos políticos, peças de moda, culinária e exemplos de costumes. “Ali não existe a pretensão de contar toda a história de Minas, porque ela é muito maior do que qualquer museu”, afirma a historiadora Heloísa Starling.

Ao lado de Sandra Regina Goulart, da Faculdade de Letras, e do pesquisador Bruno Viveiros Martins, Heloísa coordenou uma equipe de cinco dezenas de professores e pesquisadores da UFMG que fizeram a pesquisa histórica para a criação do Memorial.

“Penso que a tragédia é imensa, que há um sentimento muito grande de impotência. Mas é preciso pensar que um espaço de cultura é um espaço de cultura. A empresa (Vale) é gerida por homens. Temos que olhar para quem gerou a política da empresa, é preciso investigar com provas o que de fato ocorreu. Além disso, o executivo e o legislativo mineiros fizeram o quê antes? E os órgãos de controle? Esta é a discussão. Se nos deixarmos levar só pela indignação, que é legítima, podemos perder o mais importante, que é a defesa da liberdade, que é dizer não para o lugar certo. Toda a nossa dor tem que ser exposta em um lugar que produza efeito. E não me parece que esse lugar seja o da cultura”, afirma Heloísa a respeito do fechamento, ainda que temporário, do Memorial.

A respeito desse tema, Gringo Cardia afirma que “o Memorial traz a história de Minas Gerais. A Vale assinou foi o projeto de cultura. É um museu do estado, que tem uma superaceitação, o maior sucesso de público. Acho que o rompimento da barragem traz uma polêmica com a Vale, mas não é motivo para fechar o Memorial. Pelo contrário, ele deveria é ficar aberto.”

(Foto:  Marcos Vieira/EM/D.APress)

DOR E LIBERDADE

Para os pesquisadores envolvidos na criação do museu, o Memorial Minas Gerais aborda a história de um estado cuja identidade está diretamente ligada à atividade mineradora. “É muito importante voltar ao passado, não porque se vai repeti-lo, mas porque ele ajuda a pensar no que Minas está fazendo hoje. O Memorial faz pensar o mineiro que fomos, o que poderíamos ser e o que ainda não fomos”, diz Heloísa Starling.

O museu reúne salas dedicadas a figuras que ajudaram a refletir sobre essas questões por meio da poesia (Carlos Drummond de Andrade), prosa (Guimarães Rosa), música (Milton Nascimento), artes plásticas (Lygia Clark) fotografia (Sebastião Salgado). E há também espaços que tratam dos povos originários – os indígenas – e os imigrantes, no caso, os portugueses e os escravos.

“As tribos indígenas foram dizimadas, os escravos sofreram e resistiram, os habitantes do Curral Del Rey foram expulsos, os trabalhadores que vieram trabalhar na construção da nova capital (Belo Horizonte) foram para fora da Contorno (ou seja, para a periferia). Então, é uma história feita de construção e perda, saudade, dor e mágoa”, diz Bruno Viveiros. “Dessa maneira, ele (o Memorial) é um lugar que vai nos lembrar quem somos”, observa Heloísa Starling. A professora cita que o museu ressalta o fato de que foram pessoas escravizadas, “que vieram das muitas Áfricas”, que trouxeram para cá uma série de tecnologias, “entre elas a da mineração.”

A atividade mineradora, que é a base do estado de Minas Gerais – primeiramente com o ciclo do ouro e dos diamantes e, a partir do século 19, com o minério de ferro – permeia as salas que formam o Memorial. “A mineração perpassa tudo em Minas”, pontua Heloísa, citando o cientista político e historiador José Murilo de Carvalho em texto que escreveu para o Memorial. “Ele fala que a Minas do ouro e do ferro é a Minas visionária, é a Minas da Conjuração que sonhou a liberdade. Já a Minas das fazendas é conservadora, arcaica. Ou seja, não dá para pensar só em um lado.”

DRUMMOND “Não dá também para pensar em Carlos Drummond de Andrade sem pensar no Pico do Cauê”, lembra-se Bruno Viveiros. Desde a tragédia em Brumadinho, o poema Lira itabirana – “O Rio? É doce/A Vale? Amarga” – que havia tomado as redes sociais em 2015, quando do rompimento da Barragem do Fundão, em Bento Rodrigues, voltou a ser publicado milhares de vezes no Facebook, Twitter e Instagram.

“Pela força da poesia e pelo que ele viveu em Itabira, Drummond foi o mineiro que percebeu mais claramente o processo de destruição (do estado)”, diz Heloísa Starling. Se a poesia drummondiana remonta à mineração do ferro, a do poeta inconfidente Cláudio Manoel da Costa (1729-1789) fala dos efeitos da mineração do ouro.

O movimento que lutou, em 1789, pela emancipação de Minas Gerais e do Rio de Janeiro tem destaque no museu. Heloísa assinala que, “quando se pensa em liberdade, pensa-se em Minas, por causa da Conjuração”, um movimento em que se “pensa um projeto para Minas Gerais”. “E é ela que mostra que a liberdade é grande demais.”

Para a historiadora, a relação de Minas Gerais com a mineração é sempre contraditória. “O mesmo espaço que gerou formas de liberdade é o lugar da dor. (A relação) das Minas com a mineração nunca é uma coisa só. É dor, mas é também liberdade.”

*Publicado originalmente em uai.com.br

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