Política

Ignacio Ramonet: ''a pandemia está evidenciando a crise do modelo neoliberal''

Entrevista com o jornalista, diretor da edição espanhola do 'Le Monde Diplomatique'

10/08/2020 13:47

O jornalista Ignacio Ramonet (Arquivo/EFE)

Créditos da foto: O jornalista Ignacio Ramonet (Arquivo/EFE)

 

Seu nome está associado há décadas à publicação jornalística Le Monde Diplomatique, tanto na França quanto nos países de língua espanhola. Esse jornalista e professor de teoria da comunicação também foi promotor do movimento antineoliberal, realizador de eventos de destaque como o Fórum Social Mundial de Porto Alegre e outras edições da mesma cúpula em diferentes cidades. Autor de livros premiados e doutor honoris causa por diversas universidades, esteve em Cuba durante o início do confinamento em função da pandemia. Falamos de Ignacio Ramonet, que escreveu um longo ensaio com suas reflexões sobre o mundo atual e o futuro da humanidade, em meio a uma pandemia sem precedentes. Por esses pensamentos, e já de volta a Paris, cidade onde mora, ele nos deu a honra desta entrevista:

Pergunta: Você definiu a pandemia como um “fato social total”. O que isso significa?

Ignacio Ramonet: É uma expressão que alguns sociólogos usam. Em particular, um sociólogo de grande referência, como Norbert Elias. O que é um “fato social total”? Às vezes, na história, há eventos, como uma guerra, por exemplo, que repercutem em todas as áreas da sociedade. Primeiro, na organização da própria sociedade, na economia, na cultura, na política, na organização da vida das pessoas. A pandemia, pela forma como nos surpreendeu, funcionou e está funcionando como um fato social total. Na verdade, existem poucos espaços em nossa vida diária e nas sociedades que não foram particularmente afetados pela pandemia.

Pergunta: Como muitas outras pessoas, você diz acreditar que o mundo e a vida não serão os mesmos quando tudo acabar. Parece que isso está ficando cada dia mais claro para todos.

Ramonet: Acho que sim. Bom, talvez não para todos. Há vários intelectuais que disseram que tudo seria exatamente igual. Por exemplo, aqui na França, Michel Houellebecq escreveu um texto dizendo que depois da pandemia tudo será igual. Em que sentido tudo permanecerá igual? Pois bem, continuaremos numa sociedade vertical, o capitalismo não terá entrado em colapso, as grandes empresas continuarão tendo um papel determinante… Nesse sentido, não há dúvida de que a estruturação, o esqueleto portador da sociedade, provavelmente não vai se mover, pelo menos inicialmente. Mas sim, muitas coisas já estão se movendo. E podemos dizer, talvez, que muitas coisas já mudaram. Por exemplo, a questão do teletrabalho. Hoje, se sabe que, principalmente em nossas sociedades desenvolvidas, muitas pessoas pensam que cada dia faz menos sentido ir ao escritório. E que durante esses meses ficou demonstrado que você pode trabalhar em casa perfeitamente.

Por outro lado, parte do consumo tem sido feito de forma virtual. Globalmente, há uma aceleração de toda a virtualidade, de todo o universo da Internet, e não há dúvidas de que, embora já estivesse presente como uma opção real em nossas sociedades, essa modalidade teve uma aceleração enorme nos últimos meses. Não é um acaso ver que as empresas como Google, Amazon, Facebook e Apple são as que mais ganharam e as que menos sofreram com esta pandemia. Portanto, podemos dizer que muitas coisas foram modificadas. Embora eu tenha dito antes que o capitalismo vai permanecer, também é possível dizer que o neoliberalismo como o conhecemos até agora provavelmente não será possível. Porque, ao final, esta pandemia tem três aspectos. Existe a questão sanitária, mais importante neste período que vivemos. Mas também temos a questão econômica, que se evidencia aos poucos, que já preocupa muitos países, e em algum momento golpeará o mundo com uma brutalidade desconhecida. Os últimos números publicados sobre as expectativas da economia espanhola, a situação dos bancos na Espanha, por exemplo… Tudo isso dá uma ideia da tempestade colossal que as economias estão passando. E a terceira vez será a social. Não tenha dúvidas de que, se as economias colapsarem, os que sofrerão as consequências serão os trabalhadores em todos os níveis. Portanto, isso vai produzir, em vários lugares, protestos e tumultos. E, seja eleitoralmente ou por outros meios, veremos muitos governos mudarem de cor devido aos efeitos da pandemia.

Pergunta: Também se dá muita ênfase, sobretudo na Europa, ao fato de que a crise não deve ser paga pelos mesmos de sempre, ou seja, os trabalhadores. Como aconteceu em 2008. Devemos ser otimistas quanto a isto?

Ramonet: Analisemos esta questão a partir do exemplo de qualquer país do hemisfério Sul. Do que ele vive? A maioria dos países do Sul vive de três coisas. Seja na África ou na América Latina, até mesmo em grande parte da Ásia, os países vivem das exportações dos produtos do solo ou do subsolo, mineração ou agricultura. Em segundo lugar, vivem das remessas enviadas por seus trabalhadores emigrados. E em terceiro lugar, vivem do turismo, embora isso não que aplique a todos eles. Essas fontes de recursos, atualmente, estão sendo fortemente impactadas pela pandemia. O turismo se tornou uma atividade quase impossível. No caso das remessas, como a maioria desses trabalhadores está em países desenvolvidos, e que obviamente vão entrar em uma crise colossal, elas acabarão diminuindo bastante. Além disso, com a economia meio paralisada, as exportações de minérios e produtos agrícolas também estão estagnadas. Então, imagine um país onde essas três fontes de renda desaparecem. Obviamente, o número de falências vai ser colossal. Quando as empresas quebram, os bancos sofrem, porque deram créditos para o funcionamento dessas empresas. Portanto, o próprio sistema bancário pode entrar em colapso em muitos países.

Isso é o que normalmente poderia ter acontecido na Europa. Isso não vai acontecer por causa do acordo que foi alcançado. Porque a União Europeia, que vê esta situação se aproximar, está disposta a contrair empréstimos sem limite, precisamente para que todo o sistema bancário, que é um pouco como o sistema de abastecimento de sangue da economia europeia, não entre em falência e colapso. Na Europa, haverá grande sofrimento social, embora haja muito capital para ajudar. Mas isso não vai mudar o fato de que muitas pessoas perderão seus empregos. Na França, por exemplo, o próprio presidente anunciou há duas semanas que a perda de um milhão de empregos será uma realidade no próximo outono. É um problema enorme, se pensarmos que por trás de cada trabalho há duas ou três pessoas dependendo dessa renda.

Pergunta: Mudando um pouco de assunto, você é um dos articulistas que mais vem alertando nos últimos tempos sobre o problema da vigilância digital em massa. Suponho que, em situações como a crise de saúde que está pandemia nos impõe, existem riscos e benefícios sobre esta questão.

Ramonet: A Era Digital, que experimentamos há cerca de 30 anos, já atingiu a normalidade. O mundo de hoje é o mundo da virtualidade. Se alguém achava que ainda estávamos em uma mera extensão da Era Industrial, agora não há mais dúvidas de que estamos na era da ciberatividade. Isso significa que sempre que toco em uma tecla do meu computador, telefone ou ipad, estou deixando uma marca do que faço. Portanto, não há dúvidas de que se confirma algo que alguns já previam há muito tempo. Os dados que cada um de nós dá se tornam matéria-prima de alto valor, e que provavelmente pode se tornar a matéria-prima da era digital. Isso terá um valor econômico na medida em qual no mundo do 5G e da big data, se trabalhará exclusivamente com dados. Na melhor das hipóteses, para entender melhor do ponto de vista comercial ou publicitário, se trabalhará com todas as simpatias e desejos dos indivíduos. Também permitirá que grandes empresas, governos e serviços de inteligência tenham um conhecimento muito apurado de cada um de nós.

Então, a ideia de que existe uma espécie de Big Brother que conhece cada um dos 7 bilhões de habitantes do planeta, ou os 5 mil que usam constantemente a internet, isso, que era ficção científica quando Orwell escreveu seu clássico “1984”, está se tornando cada dia mais real. Recentemente, escrevi um livro chamado “O Império da Vigilância”, e acho que já ficou obsoleto, e não porque estava errado, e sim porque as previsões se cumpriram rapidamente. Com a pandemia, quase tudo já ficou plenamente confirmado, e agora devemos partir para uma nova realidade além dela. Antes, podiam dizer que eu era paranoico, e agora vão dizer que minha previsão ficou aquém do que ainda está por vir.

Pergunta: Uma das coisas pela qual é mais conhecido foi sua luta no movimento antineoliberal. Várias décadas se passaram, mas como as críticas que já se faziam ao mundo se relacionam com a realidade atual em meio a uma pandemia?

Ramonet: Lançamos o movimento há cerca de 20 anos com a ideia de que “outro mundo é possível”, a partir do Fórum Social Mundial. A crise de 2008, que foi financeira e de crédito, já havia dado razão à nossa causa, por ficou claro que a globalização, ou seja, o neoliberalismo globalizado, nos conduzia para um mundo em que haveria um grupo reduzido de pessoas cada vez mais rica, e, por outro lado, cada vez mais gente ficando cada dia mais pobre. Hoje, o 1% mais rico da população possui mais da metade da riqueza mundial. Hoje, essa desigualdade é tão óbvia que o escândalo se espalhou.

A pandemia também está deixando em evidência a crise do modelo neoliberal. Por exemplo, vimos quantos países se fecharam, quantos países estão comprometidos com o mercado interno. A crise mostrou, por exemplo, que não se fabricavam máscaras na Europa, nem paracetamol, nem respiradores artificiais… Sabemos que haverá outras crises, porque nos últimos 15 anos ocorreram três outras crises epidemiológicas, embora não tenham preocupado a Europa. SARS e MERS foram crises muito sérias para a Ásia. O ebola afetou principalmente a África. Ninguém pode dizer que não haverá outra crise pandêmica dentro de 5 ou 10 anos. Não temos autonomia em termos de produção. Não temos como saber o que será minimamente essencial para o combate a da próxima ameaça deste tipo. Esse modelo que consistia em fabricar tudo com trabalhadores mal remunerados do outro lado do mundo é o que temos hoje, tanto por questões econômicas, quanto de saúde e ecológicas. Não esqueçamos de um detalhe importante: esta pandemia é uma manifestação da crise ecológica. Porque o vírus surgiu do desprezo da nossa sociedade pela natureza, pelo ataque constante a ela e, em particular, aos animais selvagens. E o vírus saltou de um animal selvagem para o ser humano, justamente por causa desse desprezo. Não podemos fabricar uma camisa para o outro lado do mundo, que vai ser transportada, vai consumir uma quantidade excepcional de petróleo e energia, e depois vendida a um preço ridículo. Isso é uma loucura. Esse modelo, por razões econômicas, ecológicas e políticas, deve ser rejeitado pela sociedade.

Pergunta: No âmbito geopolítico, nos perguntamos muito sobre o papel que a China e os Estados Unidos vão desempenhar agora. Podemos ver alguma mudança no equilíbrio entre as forças?

Ramonet: Há uma questão mais central. É a primeira vez, desde o início do Século XX, que, em meio a uma crise mundial, os Estados Unidos não desempenham um papel de liderança. Isso nunca foi visto antes. Sua intervenção na Primeira Guerra Mundial foi decisiva, e também em 1944. Desde os Anos 50, os Estados Unidos estão em toda parte. Desta vez, eles não enviaram uma máscara a ninguém. Eles não enviaram uma seringa ou equipe médica a nenhum país. Essa ausência dá uma ideia da fraqueza dos Estados Unidos. Além disso, o país mais afetado pela pandemia são os Estados Unidos, tanto em quantidade de infectados quanto de mortos, por conta de uma liderança política completamente errática, com um enorme problema de capacidade, algo que coloca em risco a própria continuidade de Trump, como dizem as pesquisas. Isso por si só já é uma indicação de como a pandemia está mudando a geopolítica. Por outro lado, a pandemia também interrompeu todos os conflitos no mundo, por algumas semanas, com muito mais eficácia do que a ONU (Organização das Nações Unidas), que esteve absolutamente ausentes nesta crise. As iniciativas não foram ouvidas. Portanto, há algo na estruturação geopolítica até agora, mostrando que a forma como o mundo funcionava não era eficaz.

Sobre a China, podemos dizer duas coisas. Em primeiro lugar, você tem a responsabilidade de saber se o vírus apareceu lá e por que não foi possível impedir que ele se propagasse. Por outro lado, a China combateu a pandemia com grande eficácia e é um país que tem ajudado enormemente outros países, enviando remédios, médicos, etc.

Pergunta: Você esteve em Cuba durante as primeiras semanas da pandemia, e elogiou sua maneira de lidar com a pandemia. Por quê?

Ramonet: Cuba tem lutado contra a pandemia de forma muito eficaz, sem declarar o confinamento obrigatório, mas com muita disciplina social, com muito voluntarismo e de forma bastante inteligente, com uma organização social muito eficaz. Por outro lado, também Cuba não hesitou em enviar brigadas médicas a cerca de 45 países: Itália, Andorra, alguns países do Caribe, algumas colônias francesas, países da América Latina e da África. Cuba deu mostras de internacionalismo solidário, e acho que vale a pena destacar isso. Infelizmente, os principais meios de comunicação europeus sequer noticiaram isso, nem mesmo em alguns países onde esses médicos trabalharam. Por outro lado, observamos que a União Europeia publicou uma lista de países nos quais um viajante pode ser aceito, e vejo que Cuba não está presente, apesar de ser um dos países com menos casos no mundo. Para se ter uma ideia, Cuba tem mais ou menos a mesma população da Bélgica, entre 10 e 11 milhões de habitantes. A Bélgica tem 9 mil mortes. Cuba tem apenas 85. Então, obviamente, há uma maneira de enfrentar essa questão, do ponto de vista da saúde, que mostra o que já se sabia: que Cuba é uma grande potência médica, com generosidade e solidariedade que realmente impressiona, e que poucos países no mundo foram capazes de enviar ajuda a tantos outros, mesmo sabendo que isso não mudaria os preconceitos que sofre por parte da comunidade internacional. O faz por dever ético e moral.

*Publicado originalmente em 'Cuarto Poder' | Tradução de Victor Farinelli

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