Política

Interregno global e direitas reacionárias

 

03/07/2019 11:17

 

 
Não é difícil compartilhar o diagnóstico que foi proposto por Pedro Chaves em sua introdução a este debate propiciado por Espaço Público, segundo o qual nos encontramos há ao menos 10 anos, em um período de interregno global.

Dentro de poucos anos, passamos da perplexidade diante da explosão da maior crise sistêmica do capitalismo desde a vivida nos Anos 30 do Século passado, que levou à falsa promessa da “refundação do capitalismo” e a um novo e radical retorno à austeridade autoritária e desdemocratizadora, que por sua vez despertou uma onda de mobilizações e de populismos de esquerda – especialmente potente na América Latina –, que não chegou a ser suficientemente forte para e em escala internacional.

Por isso, em meio à crise de uma globalização neoliberal que, confrontada a uma estagnação secular, agudiza a competição entre velhas e novas grandes potências, entramos num ciclo reacionário que não deixa de gerar “monstros” em muitos lugares do planeta. Seu propósito é desviar a frustração popular diante da consolidação de um establishment “cosmopolita” e corrupto sobre o ressentimento dos setores mais vulneráveis da sociedade, e também sobre assim como movimentos como o feminista, que desafiam tanto o neoliberalismo quanto o neoconservadorismo. Seu objetivo também é exposto sem ambiguidade alguma: impulsar projetos de reconstrução de etnonacionalismos de Estado, que recuperem a “identidade” e a “segurança” perdidas.

O trumpismo parece ter se transformado em referência principal, e por isso é importante reconhecer com Daniel Tanuro (autor do livro “Frankenstein na Casa Branca”, de 2018) que se trata de um fenômeno que “não entra nas categorias clássicas. É um projeto autoritário novo, específico e composto, instável, típico da época neoliberal (…) que combina aspectos fascistas e plutocráticos”. Vale a pena destacar, entre suas características ideológicas, o nacionalismo autoritário de grande potência, a xenofobia, a islamofobia, o machismo e o negacionismo climático. Uma combinação que busca dialogar com uma fração do capital estadunidense e com setores da pequena burguesia e da classe trabalhadora branca, para ir conformando um novo bloco histórico, capaz de “manter a América grande” diante dos seus inimigos internos e externos (China, Irã, “terrorismo”). É verdade que seria um erro considerar o trumpismo como fascismo ou o neofascismo, mas parece evidente que nos encontramos diante de uma direita reacionária, neoconservadora e neoliberal, que busca destruir conquistas sociais e democráticas alcançadas em décadas passadas, para conformar um novo regime cujas fronteiras com uma ditadura, no que diz respeito ao tratamento da dissidência política, seriam muito permeáveis.

A vitória eleitoral de Trump foi, sem dúvida, um estímulo para a ascensão da extrema direita radical e agressiva em muitos países europeus, e também nos latino-americanos e asiáticos, confirmando a crise de governança global e dos sistemas políticos que, bem ou mal, haviam assegurado certa estabilidade política no centro e nas semiperiferias da economia-mundo. Nos encontramos, portanto, diante de novas formas de dominação política, baseadas em novos blocos históricos interclassistas, subordinados à necessidade de que a crescente fusão dos interesses entre Estado e capital permita competir por um lugar melhor, no marco da transição geoeconômica e geopolítica global. Um projeto que, por sua vez, ajude a neutralizar o mal-estar de uma classe média e trabalhadora autóctone em declínio com a garantia de seguir satisfazendo os seus desejos como sujeitos consumidores, mesmo que seja através do endividamento… e isso, claro, em detrimento das grandes maiorias do Sul do planeta, e do agravamento da crise climática.

É óbvio que essa conciliação de interesses obriga a um equilíbrio que dificilmente é estável, e que gera contradições no seio desse bloco. Por isso é primordial o papel das hiper lideranças como aglutinadores do “povo”. Contudo, sua grande vantagem continua sendo a debilidade dos seus inimigos no terreno político e eleitoral, já que é inegável o desgaste que estes sofreram nos últimos anos.

Esse é o caso, por exemplo, do extremo centro na França. Lá, nós vimos o surgimento de um movimento singular e heterogêneo ideologicamente, como o dos coletes amarelos, com uma composição social baseada em setores de classe média e trabalhadora da periferia, que questiona as autoritárias políticas de austeridade de Macron, e aposta por una redemocratização da política; um movimento que tropeçam numa brutal repressão por parte do governo, que recordou os piores momentos da história contemporânea do país. Não é surpresa, portanto, que enquanto a França Insubmissa de Mélanchon perde terreno, vítima de suas próprias contradições, aparece o populismo de extrema direita de Marine Le Pen – junto com uma onda de abstenção, que não pode ser ignorara – como uma expressão válida para uma parte desse movimento e das classes populares.

Tampouco podemos nos esquecer que a derrota sofrida na Grécia, em julho de 2015, quando apesar da vitória do “não” no referendum sobre o memorando da troika, o governo presidido por Alexis Tsipras cedeu à chantagem. Uma derrota que teve um grave impacto na União Europeia e que serviu às elites do continente para reforçar seu já velho discurso TINA (sigla de there is no alternative, ou “não há alternativa”), como também pudemos comprovar com a guinada vivida pelo Podemos, que também vem se rendendo à moderação desde então.

Em m período no qual os velhos partidos sistêmicos perdem centralidade, enquanto a esquerda não consegue recompor as bases de um bloco social e político capaz de oferecer um horizonte alternativo ao de um neoliberalismo transformado, segundo os termos dos pensadores franceses Pierre Dardot e Christian Laval, num sistema de “razão política única”, não é difícil compreender tanto o crescente abstencionismo eleitoral entre os setores populares mais vulneráveis quanto a atração que podem gerar sobre elas o demagogo discurso anti establishment e as diferentes variações da direita radical, cada um com suas particularidades respectivas, em função dos contextos nacional-estatais.

Diante desse panorama, convém tomar nota da observação crítica de Corey Robin, que defende que “uma das grandes virtudes da esquerda consiste em que era a única capaz de entender que os desequilíbrios da política, e que as vitórias de uma classe significam necessariamente as perdas de outra. Porém, conforme essa ideia de conflito tem diminuído na esquerda, a direita passou a se dedicar a recordar aos eleitores que existem verdadeiros perdedores na política, e que são eles – e só eles – que falam para essas pessoas” (trecho do livro “A mente reacionária”).

Jaime Pastor é cientista político espanhol e editor do site Viento Sur

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