Política

Irregularidades motivam recursos em 4 Estados e no DF

22/09/2005 00:00

São Paulo – As denuncias de irregularidades nas eleições internas do PT, acalmados os ânimos de candidatos e tendências que se sentiram prejudicados, estão se concentrando em alguns municípios e zonas eleitorais no país. Até o final da tarde desta quinta (22), duas correntes do PT – Ação Popular Socialista (APS) e Democracia Socialista (DS) - informaram que haverá recursos nas cidades de São Paulo, Duqe de Caxias, Nova Iguaçu, Recife e Macapá; no Distrito Federal, grupos de esquerda também devem impetrar recursos em Planaltina e Guará.

Em São Paulo, a DS entregou ao diretório estadual nesta quinta recursos referentes a dois diretórios zonais – Capela do Socorro, com cinco locais de votação, e Pirituba, com dois - e estuda recorrer sobre Saúde, M’Boi Mirim e o Centro. À tarde, a corrente também divulgou uma nota conjunta com a APS, onde afirma que “é fundamental a firmeza das instâncias competentes, no sentido de julgar os pedidos de impugnação apresentados, sob pena de comprometer a legitimidade do Processo de Eleições Diretas (PED) na cidade de São Paulo e não corresponder ao desejo de nossa militância em resgatar a credibilidade de nosso partido”.


O comunicado, que lista as zonais, as irregularidades que teriam sido cometidas - como transporte de eleitores e pagamentos de dívidas -, e apresenta trechos do regimento do partido que coíbem esta prática, foi assinado pelos deputados estaduais Carlos Neder, Renato Simões e Sebastião Arcanjo, o deputado federal Ivan Valente, Carlos Henrique Árabe, Miguel de Carvalho e Osmar Lopes, membros da Executiva Estadual do PT-SP, e Ricardo Sartori, membro da Executiva Municipal PT- São Paulo.


Carlos Henrique Árabe, redator dos recursos pela DS, afirma que o principal alvo será a Capela do Socorro, onde a maior irregularidade teria sido o perdão da dívida dos votantes. “O partido deixou de arrecadar recursos e o diretório zonal deixou de zelar pelo regulamento do PED para beneficiar uma das chapas. O fato foi reconhecido pelo próprio Jilmar Tatto [ex-secretário dos transportes do governo Marta Suplicy], maior força política local”. Se aceitos os recursos na Capela e em Pirituba, serão cerca de 2,7 mil os votos anulados.


Em Macapá, o deputado estadual Randolfe Rodrigues, ligado à APS, está pedindo a anulação de todos os votos do município em função de irregularidades como recibos falsificados de quitação de dívidas de filiados, falsificação de assinaturas em recibos e transporte massivo de eleitores. Segundo Rodrigues, há provas materiais de todas as denúncias. Se aceitas, serão invalidados cerca de 2,2 mil votos.


Transporte irregular de eleitores motivou também recursos em Nova Iguaçu e Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, que invalidariam cerca de 1,4 mil votos. Em Planaltina, DF, o dirigente distrital do PT, Chico Machado, vai pedir a impugnação dos cerca de 2,3 mil votos do município em função da participação do pleito de militantes inadimplentes, bem como por conta de transporte irregular. Já no Recife, o problema principal foi e exclusão de cerca de 400 filiados quitados da lista oficial de votação, entre eles candidatos a diretórios municipais e ao estadual. 

Erros e consertos
Para a maioria dos dirigentes e expoentes do PT, este PED, que teve a participação de cerca de 300 mil filiados, foi uma prova cabal da vitalidade do partido. O resultado positivo, avalia o presidente do PT, Tarso Genro, significa que o partido está de volta ao embate estratégico. As denúncias de irregularidades, por outro lado, foram tratadas, de modo geral, como “coisa menor” pela direção do PT, mas outros setores e petistas históricos consideraram a ocorrência de fraudes profundamente condenável.


Historicamente, afirma Carlos Henrique Árabe, os recursos impetrados sobre irregularidades de procedimento no PT tiveram altos e baixos, “grandes vitórias e grandes derrotas”. Com a visibilidade que o PED está tendo em função da cobertura da mídia, porém, é provável que as denúncias fundamentadas de acordo com o estatuto partidário sejam devidamente analisadas, avalia.


Segundo Hamilton Pereira, diretor da Fundação Perseu Abramo, do PT, por um lado o PED revelou o grande enraizamento que o partido tem na sociedade brasileira, uma vez que nenhuma outra agremiação política no país teria condições de mobilizar tantas pessoas como ocorreu neste processo eleitoral. Por outro, pondera, ainda há no PT setores que avaliam que a crise que se abateu sobre o partido com o escândalo do mensalão é apenas um erro de procedimento, e não de concepção.


“Para estes setores, os mais institucionalizados, a crise não foi suficiente para que revejam práticas [irregulares]. Para eles, o PT fez apenas o que todos [os outros partidos] fazem, só que de forma amadora. A ficha ainda não caiu”, afirma Pereira.


Zilah Abramo, viúva do jornalista Perseu Abramo e uma das militantes mais antigas do PT, considera que as fraudes têm grande importância e são uma “prática condenável que tem que ser combatida de todas as formas”. Para ela, a punição dos que cometeram irregularidades é muito importante, mas mais importante seria repensar os mecanismos internos do partido, como os processos de filiação, parte de um projeto amplo de refundação do PT.

 

Concretamente para o segundo turno, Zilah acredita que existe um enraizamento da prática de irregularidades em muitas zonais locais, difíceis de combater, mas que serão estreitamente vigiadas no segundo turno do próximo dia 9 de outubro. “Agora temos o mapeamento de onde ocorrem problemas e como estão espalhados os votos na cidade. Vai ser mais fácil fiscalizar”.


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