Política

Jango impediu divisão territorial do país, diz prefeito cassado

31/03/2004 00:00

Porto Alegre - O papel do ex-presidente João Goulart nos episódios que marcaram o golpe militar de 1964 é motivo de muitas controvérsias históricas. Afinal de contas, Jango, ao desistir de partir para o enfrentamento com os militares golpistas, patrocinou um gesto de covardia política ou de sabedoria?

Na avaliação do ex-prefeito de Porto Alegre Sereno Chaise, cassado logo após o golpe, Jango comportou-se como um estadista, evitando um grande derramamento de sangue e impedindo a divisão territorial do Brasil em duas regiões. Segundo Chaise, o ex-presidente tinha conhecimento das negociações do ex-embaixador norte-americano, Lincoln Gordon, com os setores golpistas. De acordo com essas tratativas, se os militares golpistas resistissem ao menos 24 horas, o governo dos Estados Unidos reconheceria oficialmente o novo governo e, se fosse preciso, 30 mil marines desembarcariam no Brasil, no Nordeste e na região Amazônica. "Jango me disse que, se decidisse resistir, ganharia a parada, mas governaria um país da Bahia para baixo. Os mariners não sairiam do Norte e do Nordeste do país", garantiu o ex-prefeito da capital gaúcha, em pronunciamento feito na tarde desta quarta-feira (31), na Câmara de Vereadores de Porto Alegre.

Sereno Chaise, que faz aniversário no mesmo dia do golpe militar, recebeu uma homenagem especial na Câmara Municipal de Porto Alegre, por iniciativa do vereador Marcelo Danéris (PT). Ao justificar a homenagem, Danéris lembrou a história de resistência democrática da cidade. Em 1961, assinalou, Porto Alegre foi o foco do movimento da legalidade. Em 1964, a população saiu às ruas para reagir ao golpe, realizando grandes manifestações em frente da Prefeitura e do Palácio Piratini, sede do governo estadual. E, ao longo do processo de redemocratização do Brasil, a cidade acabou se tornando referência internacional de democracia, através da criação de novos instrumentos de participação popular. O Orçamento Participativo tornou-se um símbolo da cidade que se tornou mundialmente conhecida através do Fórum Social Mundial. Do movimento da legalidade ao FSM, muita coisa se passou e hoje são poucas as pessoas que guardam a memória vida deste processo. Sereno Chaise é uma delas, fato reconhecido por vereadores de diversos partidos que saudaram o ex-prefeito e ex-presidente da Câmara Municipal.

"Jango sabia de coisas que não sabíamos”
Quando foi cassado, em 1964, Chaise tinha 36 anos e era filiado ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Hoje, aos 76, está filiado ao PT. Ao ser homenageado pelos vereadores porto-alegrenses, o ex-prefeito lembou com emoção alguns momentos decisivos do golpe. E defendeu enfaticamente a conduta do ex-presidente João Goulart. "Jango sabia de coisas que não sabíamos, tinha informações que nós não conhecíamos sobre a conspiração militar e hoje ainda há muita incompreensão sobre sua decisão de não resistir ao golpe". Dizendo não alimentar sentimentos inferiores, o ex-prefeito disse que não tem contas a ajustar com ninguém, preferindo fazer uma profissão de fé na importância dos partidos e da democracia. "A democracia precisa de sustentáculos e os partidos são o esteio desse regime. Historicamente, sempre foi assim, quando os partidos se enfraquecem, a democracia entra em colapso. Hoje, na quadra final da minha vida, só alimento um desejo ardente: que o povo brasileiro nunca mais viva sob uma ditadura", disse Sereno. 

O mandato de Sereno Chaise, iniciado no dia 2 de janeiro de 1964, foi interrompido quatro meses depois, no dia 8 de maio, por força do Ato Institucional nº 1, primeira medida tomada pelo governo militar após o golpe que depôs o presidente João Goulart. O AI-1 dava ao Executivo poderes para suspender os mandatos e suprimir os direitos políticos por até dez anos de pessoas consideradas subversivas ou corruptas.

"Passados dez anos, continuei com meus direitos políticos suspensos, graças a uma manobra vergonhosa feita, na época, pelo Supremo Tribunal Federal, que determinou: todos aqueles atingidos por um ato institucional, permanecerão excluídos da vida política enquanto não houver anistia", relatou. Sereno ficou mais cinco anos no ostracismo político.

Nos primeiros dias do golpe, chegou a ser preso, mas foi libertado e continuou seu governo até o dia 7 de maio, quando foi anunciada sua cassação pelo programa A Voz do Brasil. O ex-prefeito contou que, no dia seguinte ao anúncio da cassação dos seus direitos políticos, cumpriu expediente normal na prefeitura. "Fiquei aguardando que os militares viessem me retirar do local, enquanto limpava as gavetas", contou. Mas os militares não vieram. Então, Chaise reuniu os funcionários da prefeitura, despediu-se e deixou o prédio pela porta da frente. O então presidente da Câmara, Célio Marques Fernandes, assumiu o posto. O ex-prefeito rejeitou ofertas para deixar o país, feitas por João Goulart e Leonel Brizola, e acabou sendo preso outras duas vezes durante o regime militar.

Um regime marcado por duas mentiras
Para o ex-prefeito da capital gaúcha, o regime de 64 nasceu marcado por duas grandes mentiras. Jango foi deposto no dia 1° de abril. Como esse é o dia da mentira, os militares anteciparam a data do golpe para 31 de março, temendo óbvias alusões à natureza do seu movimento. A segunda mentira, apontou Sereno, foi a justificativa utilizada pelos golpistas: era preciso salvar a democracia e a liberdade religiosa; "Elas nunca estiveram ameaçadas", enfatizou.

Ao defender a conduta de Jango, Sereno lembrou que ele mesmo foi alvo de críticas por algumas atitudes que tomou logo após o golpe. Lembrou que, na madrugada do dia 1º de abril, recebeu um telefonema do presidente João Goulart, que lhe pediu que fosse receber o general Ladário Pereira Telles, oficial legalista nomeado para assumir o comando do III Exército. "Quando cheguei com o general na sede do III Exército, um grupo de oficiais discutia se o poder seria entregue a ele ou não. Lá pelas 5 horas da madrugada decidiram entregar. A situação era de extrema tensão", relatou. Legalista, o general Ladário disse que só receberia ordens do presidente da República.

Na manhã do mesmo dia, contou ainda Sereno, um informe do serviço de inteligência do Exército, dizia que a multidão aglomerada em frente ao prédio da Prefeitura, preparava-se para invadir a sede do Palácio Piratini. O ex-prefeito contou que foi até a Praça da Matriz, localizada em frente ao Palácio, e pediu à população que retornasse à Prefeitura. "Já não havia ninguém no Palácio, o então governador Ildo Menegheti já tinha viajado para Passo Fundo, com o seu secretariado". Segundo ele, o risco de derramamento de sangue era iminente, pois os militares situados no texto do Palácio tinham ordens para, primeiro, disparar rajadas de metralhadora na calçada. Caso a multidão avançasse, a ordem era para atirar para valer. "Dezenas de pessoas teriam morrido ali", assegurou.

Celebração da memória
Ao se encontrar com João Goulart, ele estranhou a fisionomia do presidente deposto. Só foi entender tempos depois quando teve acesso a informações que não tinha na época. Para Sereno, o apoio articulado pelo então embaixador dos EUA aos golpistas, inclusive com possibilidade de intervenção militar direta, foi decisivo para a decisão de Jango deixar o país. A avaliação do ex-prefeito foi reforçado pelo depoimento do ex-presidente da Câmara Municipal de Porto Alegre, Cleom Guatimozin. Segundo ele, o golpe de 64 não foi um movimento restrito ao Brasil, como ficou evidenciado depois na Operação Condor, quando militares brasileiros prenderam e exportaram militantes argentinos peronistas, chegando a autorizar o pouso de aviões argentinos no Brasil. "Muitos desses argentinos, acabaram sendo lançados ao mar de dentro dos aviões", lembrou. E destacou: "não podemos nos esquecer disso".

A celebração da memória, promovida pela Câmara de Vereadores de Porto Alegre, quarenta anos depois do golpe, mostrou que a verdadeira história do movimento que derrubou o presidente eleito João Goulart ainda está para ser contada em todos os seus detalhes, como os relacionados ao envolvimento do governo norte-americano. Detalhes que ficaram perdidos na escuridão de lugares sigilosos e aguardam, pacientemente, o resgate da história.



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