Política

Jornais assumem "neutralidade" na cobertura; só Marta fica fora

06/10/2004 00:00

Brasília – Na reta final, os jornais de São Paulo optaram por uma “onda” de matérias “neutras” – que não ajudam a somar nem subtrair votos do concorrente - sobre os candidatos à Prefeitura da cidade. Nas últimas duas semanas de análise da cobertura jornalística (de 02/09 a 08/09 e de 09/09 a 15/09) antes do primeiro turno do pleito municipal de domingo (3/10), o Observatório Brasileiro de Mídia apresentou dados que mostram a explosão do índice de reportagens “neutras” (e o respectivo recuo de matérias positivas) publicadas com destaque a respeito do candidato tucano José Serra (PSDB) e a mudança de tratamento com relação ao candidato Paulo Maluf (PP), que vinha sendo “bombardeado” com textos negativos até então, e também passou a receber uma abordagem relativa mais próxima da “neutralidade”.

Na primeira pesquisa (leia “Mídia amplia crítica à Prefeitura e atinge Marta ‘por tabela’”), feita com dados de 26/08 a 01/09, apenas a candidata Luiza Erundina (PSB) foi tratada preferencialmente com matérias “neutras”. Nas duas semanas seguintes, Erundina continuou sendo citada da mesma maneira pelos cinco diários pesquisados: Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Agora São Paulo, Jornal da Tarde e Diário de S. Paulo.

A “onda” de matérias “neutras” não alterou, porém, a orientação prévia dos diários paulistas na cobertura específica da candidata petista Marta Suplicy. Atingida por críticas indiretas por causa do cargo que ocupa, a postulante à reeleição não foi alvo de ataques tão intensos quanto na última semana de agosto , mas o índice de matérias “negativas” em destaque sobre a petista - apesar de ter caído de 76% para 60% - manteve-se à frente dos índices referente a textos de orientação (positiva e neutra).

Não por acaso, os dados consolidados das três semanas de pesquisa mostram que as matérias consideradas “neutras” prevaleceram para todos os candidatos, com exceção de Marta. O gráfico que cruza os dados da quantidade e da orientação (positiva, neutra ou negativa) de matérias com a pontuação no “morfômetro” - critério elaborado pelo núcleo de pesquisa de Jornalismo Comparado da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) que determina um número de 2 a 10 para cada matéria de acordo com a sua localização na página do jornal e os recursos gráficos a ela associados – deixa claro que a candidata do PT foi a única que terminou com o índice de matérias negativas maior (49,58%) que o de matérias “neutras” (26,96%) e positivas (23,46%).

José Serra acabou com o índice de 39,22% de “neutras”, 34,20% de “positivas” e 26,58% de “negativas”. O candidato Paulo Maluf obteve índice “neutro” de 41,55%, 38,33% de textos “negativos” e 20,12% de “positivos”. Erundina, por sua vez, foi a que recebeu mais citações “neutras” em destaque (55,22%). O índice de “negativas” dela foi de 30,98% e o de “positivas”, 13,80%.

Serra venceu o primeiro turno com 43,56% dos votos válidos (2.685.331) e disputa o segundo turno com a atual prefeita Marta Suplicy (PT), que recebeu 35,83% dos votos válidos (2.208.782). Maluf foi o terceiro colocado com 11,91%, seguido de Erundina, com 3,96% dos votos válidos.

Números absolutos
Durante as três semanas de pesquisa, Marta e Serra contabilizaram, apenas no que se refere à Folha de S. Paulo, o mesmo número de matérias “positivas”, isto é, textos de natureza jornalística que teoricamente favorecem o acúmulo dos votos dos (e)leitores. Foram 67 referências favoráveis a cada um. Contudo, a mesma Folha apresentou em suas páginas 148 matérias “negativas” para Marta e 52 para Serra.

O jornal O Estado de S. Paulo não se preocupou em buscar equilíbrio em nenhum dos lados. O Estadão publicou mais que o quíntuplo de matérias “negativas” sobre Marta (112) em comparação com as que “atingiam” Serra (21). Em termos de matérias “positivas” no tradicional diário paulista, foram 48 para o tucano e 31 para Marta.

Jornal por jornal
Os dados consolidados das três semanas ajudam a definir em linhas gerais a postura de cada jornal durante o período em que a campanha para o primeiro turno da disputa pela Prefeitura de São Paulo “esquentou”.

O posicionamento mais claro é, sem dúvida, o do Estadão. Além de apresentar uma grande porcentagem de matérias “positivas” e “neutras” em destaque sobre Serra, do PSDB, o diário foi o que, proporcionalmente, mais deu espaço e cartaz para matérias “negativas” sobre Marta. O Agora São Paulo, do Grupo Folha, assumiu postura semelhante: não poupou a candidata petista e distribuiu boas referências ao tucano.

A Folha também “bateu” muito em Marta, mas preferiu dar prioridade, na cobertura relativa ao candidato Serra, às matérias “neutras”. Já o Jornal da Tarde (JT), jornal do mesmo Grupo Estado, assumiu a postura da “enxurrada de críticas” e inundou suas páginas com matérias “negativas” tanto de Marta quanto de Serra.

O único jornal que manteve equilíbrio na cobertura da concorrente à reeleição foi o Diário de S. Paulo, do grupo Globo. No tocante às matérias sobre o tucano Serra, o Diário praticamente obteve o mesmo índice apresentado pela Folha, com amplo destaque para as matérias “neutras”.

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