Política

Legado da elite predadora no péssimo comportamento ao volante

21/09/2012 00:00

Rodrigo Otávio

Rio de Janeiro - “He! He! Aí, Márcio, o Francisco para em sinal de trânsito fechado” (*). “É mesmo, he! he!”. Engana-se quem pensa que o diálogo acima é entre dois jovens em busca de afirmação. Ou ainda um caso de emergência. Em tom de assombro, o relato foi feito à Carta Maior por um profissional liberal de 67 anos, integrante da classe média alta carioca, ao contar uma trivial ida ao cinema durante um fim de semana. Os autores do comentário, um casal de amigos que estavam de carona, eram da mesma faixa etária e classe social. E não estavam com a mínima pressa.

Seria peculiar se não fosse trágico. Segundo pesquisa da Confederação Nacional dos Municípios (CMN), no Rio de Janeiro, em 2008, morreram 14,4 pessoas para cada cem mil habitantes em acidentes de trânsito. Em São Paulo, a média ficou em 14,6 pessoas, mas os números da capital automobilística do país são infinitamente maiores do que os da capital fluminense, agravando a situação carioca na comparação.

De acordo com dados do Departamento Estadual de Trânsito de São Paulo (Detran-SP) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a capital paulista tinha cerca de 6,9 milhões de carros para quase 11,4 milhões de habitantes em 2011 – um carro para cada 1,6 habitante. No Rio, no mesmo ano, eram cerca de 2,4 milhões de carros para 6,4 milhões de residentes – um carro para cada 2,6.

Enigma
Acontece que “cariocas não gostam de sinal fechado”. De novo, peculiar e até romântico na poesia da música de Adriana Calcanhoto, mas violento e triste na vida real e no exercício da cidadania. Sem explicação fora da poesia, a questão é levada a níveis sociológicos, e ainda assim inexplicável. “É uma história longa do ponto de vista da cultura. O abuso da informalidade, o desrespeito às normas, ignorar o que deve ser feito. E a corrupção também, de quem deveria fiscalizar. A gente tem essa cultura da informalidade e da irregularidade no Rio”, arrisca Ignácio Cano, sociólogo da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj).

Mas por que o (ruim) comportamento de uma parte da população do país no quesito trânsito é tão marcante que chega a entrar para a cultura popular através da música? “O Rio tem uma longa história nessa direção. Por causa da capitalidade, as leis que se estabeleceram no país saíram daqui, assim como os privilégios, a falta de padrões. Mas é difícil saber exatamente o porquê”, afirma o sociólogo, reconhecendo um não convincente nexo entre o fato de a cidade ter sido a capital do país e o padrão de desrespeito às normas de sua população.

O desrespeito às normas e o sentimento de privilégio, principalmente entre as classes altas, é visível em outra “máxima” da cidade: o estacionamento irregular sobre a calçada. Um dos esportes dos salões locais é aproveitar o chamariz internacional do Rio para compará-lo urbanisticamente com as reluzentes Nova York e Paris. “Inclusive, no trânsito, o táxi também é amarelo, como em Nova York”, dizem os mais afoitos. E completam alardeando a mistura de bela arquitetura e localização do hotel Copacabana Palace para equipará-lo com o norte-americano Plaza e o francês Ritz. Mas têm que sorrir amarelo, ou emitirem um datado olhar de sou “amigo do rei” ao serem lembrados que uma simples pesquisa no Google Street View não mostra carros estacionados irregularmente na fachada desses hotéis, como é praxe na calçada do hotel praiano.

As cinco mais
Sendo o carioca um campeão da deseducação ao volante, dados do Detran local comprovam um padrão comportamental a partir da repetição de infrações. Na variação dos 12 meses de 2011, alteraram-se nos degraus mais altos do pódio a velocidade além do limite, a desobediência ao sinal vermelho e o estacionamento sobre a calçada ou faixa de pedestre. Logo atrás vieram o uso irregular da faixa seletiva e a documentação fora de ordem.

Com base no padrão comportamental do motorista, sai-se da esfera sociológica da população e entra-se no caso psicológico do indivíduo para tentar se entender a patologia carioca. Para o professor da Uerj e ex-presidente do Conselho Regional de Psicologia Carlos Alberto Absalão, “o que chama atenção é a agressividade do motorista. O sujeito aparentemente pacato transforma-se em um monstro ao volante. Uma ultrapassagem fere os brios e se começa uma perseguição implacável. Seria interessante pegar um sujeito desses nesse momento e perguntar o porquê daquilo”, afirma ele, em meio a barulhos de bruscas freadas de automóveis, sem encontrar a raiz do comportamento. “Qual a causa? A gente não sabe, observa-se o fenômeno em si, se pode até descrever. Agora, a causa? Estabelecer um nexo causal... eu não arriscaria”, completa.

Ciranda
Se os especialistas comportamentais não conseguem definir com exatidão as causas dos hábitos que transformam o tráfego em uma babel, os motoristas usam o atalho de culpar o próximo, e todos culpam as autoridades imediatas, que fecham o ciclo ao apontarem que “o mau exemplo vem de cima”. “O motorista do transporte alternativo é educado, o do táxi também. O motorista do carro particular é que tem aquela pressa. O cara acorda às 10 horas e tem que estar no trabalho às 10 horas, então causa batida, causa problema no trânsito”, afirma Ricardo Marquês, motorista que faz o trajeto Praça XV-Méier em uma das muitas cooperativas de vans que pululam na cidade.

Já o motorista André Machado, que diariamente desloca-se da Barra da Tijuca ao Centro, contabiliza as irregularidades de ônibus e vans. “Na avenida Ayrton Senna os ônibus fazem fila quádrupla. Dizem que é falta de paciência do carioca para dirigir, mas não é não. É falta de educação mesmo, e falta de um guarda municipal dar multa”.

Por seu lado, a contribuição mais visível da prefeitura para a selvageria sobre rodas foi a controversa lei, depois revogada e reativada, sobre a não necessidade de se parar em sinal de trânsito fechado depois das 22 horas. A justificativa foi a violência local, deixando clara a opção pela segurança do cidadão que possui um bem móvel em detrimento do pedestre.

Em outros casos, voltam-se os velhos privilégios para diminuírem o poder da lei. Em recente episódio, a reportagem abordou um guarda municipal ao flagrar um imponente automóvel parado com as quatro rodas em cima da calçada em frente a um edifício residencial. “Ih... aí não dá. Já cansei de multar, mas o doutor aí é desembargador e manda tirar as multas lá na Corregedoria. Ele já até me avisou que não adianta eu multar”, relatou o guarda municipal.

Um longo caminho
O sociólogo Ignácio Cano não vê outra saída para a situação a não ser as campanhas educativas. “Tende a melhorar, porque... piorar é difícil [risos]. Acho que tem de melhorar a fiscalização e ter campanha de educação. Em algumas cidades há, em Bogotá [Colômbia] houve inclusive palhaços que saíam dando cartões vermelhos e amarelos no trânsito. Enfim, há várias possibilidades com campanhas específicas para a educação no trânsito”, diz.

(*) Nomes fictícios

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