Política

Lições da pandemia

 

23/07/2020 16:47

(Rovena Rosa/Agência Brasil)

Créditos da foto: (Rovena Rosa/Agência Brasil)

 
O Ministro da Economia e a Ministra da Agricultura declararam recentemente que o Governo não tem interesse em apoiar o desmatamento ilegal. Esqueceram de dizer que também não tem interesse em combater, para não desagradar ao Presidente que estimulou diversas vezes o desmatamento. Em maio, técnicos do Ministério da Saúde disseram ao Ministro interino, general Pazuelo, que a quarentena ajudaria na recuperação da economia porque, sem o isolamento social, os efeitos da doença seriam sentidos por dois anos (Estadão, 23/7/2020). Isso teria enorme impacto tendo em vista que a previsão de queda do PIB em 2020, segundo o mercado, é de - 6,54% (O Globo, 29/6/2020), embora alguns economistas afirmem que a queda será bem maior.

A pandemia atual é uma tragédia em grande escala, em termos de vidas humanas e também pela perda de emprego e prejuízos à educação, interrompida em toda a parte. Além disso, provocou angústia em muitas pessoas mundo afora. As várias restrições impostas para reduzir a disseminação da COVID-19 tiveram grandes efeitos negativos nas economias nacionais e regionais. Em decorrência, muitos países ou regiões optaram por reabrir suas economias prematuramente. Em alguns casos, esse afrouxamento das restrições de distanciamento social provocou sérios problemas, com picos de infecções. Isso levou a uma dicotomia falsa entre proteger a vida humana e reativar a economia.

Essa dicotomia é falsa porque se grande parte da população for infectada, morrer ou for incapaz de trabalhar, isso afetaria negativamente a economia. Além disso, é importante ressignificar o que consideramos "economia" em busca de uma compreensão que não se limite a ver apenas lucros no mercado. Uma indicação do desajuste atual é o fato de que, enquanto o PIB está encolhendo e o desemprego está aumentando em muitos países, as bolsas de valores estão subindo. Ao contrário da última crise das hipotecas subprime, em 2008, as bolsas de valores subiram rapidamente.

O atual entendimento dominante de economia se concentra no mercado como intermediação entre a oferta de recursos escassos e a demanda de compradores com base nos preços. Os consumidores buscam maximizar sua "utilidade", enquanto as empresas buscam maximizar seus lucros. Com a pandemia, os gastos do consumidor estão diminuindo devido a restrições de negócios e viagens, o que impossibilita a maximização dos lucros. Assim, muitas pequenas e grandes empresas faliram em 2020.

O grande problema é que, nas últimas décadas, os lucros se descolaram do investimento produtivo. Cada vez mais as empresas estão lucrando com produtos e serviços financeiros, e grande parte da economia e do PIB dos países vem de pura especulação nos mercados imobiliário ou financeiro. Essa desconexão entre a economia produtiva “real” e o lucro financeiro veio à tona durante a crise financeira global de 2008, uma vez que a hiper especulação no setor financeiro causou enormes danos na economia “real” de muitos países. Apesar disso, o capitalismo improdutivo se tornou hegemônico.

Agora, em 2020, as reduções na demanda de combustível - transporte aéreo, terrestre e produção industrial – em virtude da pandemia contribuíram para uma queda maior do que o esperado nas emissões de CO2. Isso abre a possibilidade de políticas para desvincular nossas economias de combustíveis fósseis. Com a crise, os consumidores gastam mais localmente, revigorando pequenas empresas e comunidades. E para compensar a perda de emprego, alguns países aprovaram a proposta de renda básica dos cidadãos para garantir os meios de subsistência e a demanda geral, ajudando indiretamente as empresas.

A tragédia da pandemia do coronavirus deixa alguns efeitos colaterais positivos. Em vez de uma busca ilimitada de lucro, a economia poderia priorizar o atendimento às necessidades básicas, e incorporar na produção os princípios do desenvolvimento sustentável para reduzir o impacto das mudanças climáticas que ameaçam a sobrevivência da humanidade em nosso planeta. De fato, a invasão da economia global nos ecossistemas leva à perda de habitat e à transmissão de vírus, por doenças zoonóticas, de animal para humano, em áreas previamente intocadas.

A rápida recuperação da bolsa de valores mostra a ganância na busca de lucro às custas do bem-estar humano, social, econômico e ecológico. A lição que a pandemia atual nos deixa é a urgência de superar essa busca desenfreada de lucro e melhorar o bem estar social, reduzir a desigualdade e assegurar a sustentabilidade ambiental.






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