Política

Lula convoca campo progressista para reconstruir a nação

Em liberdade, ex-presidente faz discurso histórico no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, mesmo lugar de onde foi levado, em abril de 2018, para a prisão em Curitiba

10/11/2019 12:08

(Nacho Doce/Reuters)

Créditos da foto: (Nacho Doce/Reuters)

 
Lula passou 580 dias preso na superintendência da Polícia Federal em Curitiba. Sem provas, se tornou o “preso político mais importante do mundo”, segundo Noam Chomsky. O Nobel da Paz, Pérez Esquivel, coordena uma campanha mundial para que o líder petista seja o próximo a receber o prêmio. Ao longo destes quase dois anos estampou as capas dos mais importantes jornais internacionais e até o Papa se posicionou em defesa da liberdade do ex-presidente brasileiro.

Em seu primeiro pronunciamento à nação na tarde deste sábado (9), Lula convocou o campo progressista para reconstruir o país cuja economia foi à bancarrota após o golpe de 2016. Com 74 anos, disse estar com energia de 30, para correr as cinco regiões ao lado dos lideres da esquerda e recuperar a esperança do povo brasileiro na implantação de um novo projeto político cujo foco deve ser crescimento econômico aliado à inclusão social e pleno emprego. “Eu tenho certeza que se a gente tiver juízo e souber trabalhar direitinho, em 2022 a chamada ‘esquerda’ que o Bolsonaro tem tanto medo vai derrotar a ultradireita que nós tanto queremos derrotar”, garantiu.

Consciente da necessidade de reunificar o país e trabalhar de forma coletiva, Lula jogou a bola também a nova geração que, segundo ele, terá papel central neste processo. “A juventude, ou briga agora, ou o futuro será um pesadelo. É uma questão de honra a gente recuperar esse país, a gente tem que seguir o exemplo do povo do Chile, do povo da Bolívia, a gente tem que resistir. Mas não é só resistir, na verdade é lutar, é atacar e não apenas se defender. A gente tá muito tranquilo. Podem contar comigo porque eu não vou trair a confiança que vocês tem em mim”.

Bolsonaro, o inimigo do Brasil

Diante do projeto de desmonte implantado no Brasil por Bolsonaro, cujo foco é a privatização em larga escala das empresas públicas, Lula atacou a política entreguista do ministro da Economia Paulo Guedes e defendeu a soberania, a democracia e a retomada do crescimento nacional. “Tem gente que fala em derrubar o Bolsonaro, em fazer um impeachment… Veja: ele foi eleito. Democraticamente nós aceitamos o resultado das eleições. Mas ele foi eleito para governar para o provo brasileiro e não para governar para os milicianos do Rio de Janeiro”.

Está claro para o ex-presidente que a única saída para a crise econômica é a distribuição de renda e a geração de empregos. “Se as pessoas tiverem salário, tiverem onde estudar, tiverem acesso à cultura, a violência vai cair. Contra a distribuição de armas do Bolsonaro, nós vamos distribuir livros, emprego, acesso à cultura. É esse país que nós queremos e sabemos construir. Mas nós só iremos salvar esse país se a gente tiver coragem de fazer um pouco mais”.

“Não tem ninguém que conserta esse país se vocês não quiserem. Não adianta ficar com medo, não adianta ficar preocupado com as ameças que eles [família Bolsonaro] fazem que vai ter miliciano, que vai ter o AI-5 de novo. A gente tem que tomar a seguinte decisão: esse país é de 210 milhões de habitantes e a gente não pode permitir que os milicianos acabem o que nós construímos”, convocou o líder petista.

Há semanas o cenário político chileno foi completamente abalado por imensas manifestações populares contra as políticas neoliberais do presidente Sebastián Piñera. A falência do Estado chileno é o projeto político que inspira o ministro brasileiro Paulo Guedes. Para Lula, se a Reforma da Previdência avançar aqui, o colapso chileno é o Brasil do futuro. “Estamos vendo o que está acontecendo no Chile, é um modelo de país que o Guedes quer construir, a aposentadoria que ele fez aqui é a que tem no Chile que está fazendo com que pessoas velhas morram”.

Lawfare - a guerra jurídica

Lula também aproveitou seu primeiro pronunciamento em liberdade para denunciar a perseguição política à qual foi submetido nos últimos anos pelo ministro da Justiça Sérgio Moro e a Força Tarefa da operação Lava Jato e defender sua inocência. “[No campo jurídico] nós ainda não ganhamos nada, queremos que agora seja julgado um habeas corpus que nós demos entrada, anulando todos os processos feitos contra mim. Porque agora já existe argumento suficiente para provar [minha inocência] e falo isso sem nenhum rancor: o Moro é mentiroso, o Dallagnol é mentiroso. Não é por causa do Intercept [os vazamentos divulgados pelo site], é por causa do que eles escreveram na minha defesa. Tudo que o Intercept está dizendo agora já está escrito na minha defesa há três anos”, afirmou.

Sem titubear, Lula garantiu que esta perseguição jurídica só se deu para tirá-lo do processo eleitoral, uma vez que, às vésperas da eleição presidencial de 2018 ele liderava todas as pesquisas de intenção de voto. “Só tem uma explicação pra eles terem feito esse processo: foi pra me tirar da disputa eleitoral. O que eles não sabem é que um povo como vocês não depende de uma pessoa, vocês dependem do coletivo. Caçaram o Lula e o Haddad quase foi eleito presidente da República se não tivessem mentido”.

No entanto, Lula disse que sua prioridade está longe de ser sua defesa pessoal, e sim a reconstrução da nação. Afirmou ainda que durante o período em que esteve preso, aproveitou para se preparar para esta nova etapa. “Eu fiquei numa solitária, e durante 580 dias eu me preparei espiritualmente, me preparei para não ter ódio, para não ter sede de vingança, para não odiar os meus algozes. Porque eu queria provar que mesmo preso por eles eu dormia com a minha consciência muito mais tranquila que a consciência deles”.

Chamado à integração regional

Por fim, Lula defendeu a retomada do processo de integração regional impulsionado nas últimas duas décadas pelo campo progressista. “Temos que ser solidários à Bolívia, temos que ser solidário ao povo do Chile, temos que ser solidários à Argentina, temos que pedir a Deus para que o companheiro Daniel Martínez] ganhe as eleições no Uruguai para não voltar o neoliberalismo lá. E temos que ser solidários ao povo da Venezuela. Veja, é normal que cada um de nós possa ter críticas a qualquer governo do mundo. Agora, quem decide o problema do país é o povo do seu país, e que o Trump resolva o problema dos americanos e não encha o saco dos latino-americanos. Ele não foi eleito para ser xerife do mundo. Ele que governe os americanos e cuide da pobreza lá”.

Parabenizou também a estratégia eleitoral que levou à vitória do campo progressista na Argentina. “O companheiro Alberto Fernández e a Cristina deram uma surra no Macri e ganharam as eleições. Na Bolívia o companheiro Evo [Morales] ganhou o quarto mandato. A Bolívia cresce 5% ao ano, tem política social para cuidar das mulheres… Ele foi eleito, mas a direita, como fez aqui, não quer aceitar o resultado. Vocês viram o que o Aécio fez quando a Dilma Rousseff ganhou...”.

Cheio de esperança, Lula se despediu com um chamado à construção coletiva. “Nós devemos enfrentar essa situação. Eu disse pra vocês [quando foi preso em abril de 2018] que eles iam prender um homem, mas as ideias que nós construímos coletivamente não poderiam ser presas. Elas iam continuar pairando pelo mundo inteiro. E cá estou eu, livre como um passarinho”.








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