Política

Lula detona a resposta 'imbecil' de Bolsonaro à pandemia

Dirigindo-se à nação, o ex-presidente brasileiro não deixou dúvidas de que seu retorno à luta política havia começado

10/03/2021 21:59

O ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva dá entrevista coletiva no  prédio do sindicato dos metalúrgicos em São Bernardo do Campo, em São Paulo, na quarta-feira. Fotografia Miguel Schincariol/AFP/Getty Images

Créditos da foto: O ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva dá entrevista coletiva no prédio do sindicato dos metalúrgicos em São Bernardo do Campo, em São Paulo, na quarta-feira. Fotografia Miguel Schincariol/AFP/Getty Images

 

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva repreendeu com veemência a resposta 'imbecil' e caótica de Jair Bolsonaro à pandemia provocada pelo coronavírus, em um discurso comovente e potencialmente histórico, amplamente entendido como o início de uma luta para tomar de volta a presidência de seu inimigo de extrema-direita.

O veterano esquerdista, que liderou a maior economia da América Latina em alguns dos anos mais brilhantes de sua história moderna, foi bruscamente lançado de volta à linha de frente da política brasileira na segunda-feira, pela surpreendente decisão de anular as condenações por corrupção que impediu sua tentativa de reconquistar a presidência em 2018. Na terça-feira, um juiz do Supremo Tribunal Federal classificou a operação anticorrupção, que retirou Lula da eleição daquele ano, como "o maior escândalo judicial" da história brasileira.

Dirigindo-se à nação na quarta-feira, o homem de 75 anos não anunciou formalmente que desafiaria Bolsonaro – um populista de direita que críticos acusam de lidar catastroficamente com o surto de Covid – na eleição de 2022. Mas Lula, que foi presidente de 2003 a 2011, não deixou dúvidas de que sua luta política havia começado.

"Basta pensar na loucura que está tomando conta deste país", disse o líder do Partido dos Trabalhadores (PT), que foi impedido de concorrer na eleição de 2018 após ser preso.

"Este país está desagregado e desordenado porque não tem governo. Vou repetir isso: este país não tem governo", insistiu Lula, culpando a inaptidão e negacionismo de Bolsonaro pela escala de uma crise de Covíd que já matou quase 270 mil brasileiros.

"Pelo amor de Deus! Este vírus matou quase 2 mil pessoas ontem”, disse Lula a jornalistas e apoiadores na sede do sindicato dos metalúrgicos em São Bernardo do Campo, polo industrial onde começou sua carreira política nos anos 1970.

“Vocês sabem que a questão da vacina não é uma questão se tem dinheiro ou se não tem dinheiro”, disse ele sobre o fracasso do governo Bolsonaro em adquirir doses suficientes. “É uma questão se eu amo a vida ou amo a morte.”

Observadores políticos estão divididos sobre o impacto que a reabilitação de Lula terá na eleição de 2022, e suas chances de sucesso.

Alguns, entre eles aliados de Bolsonaro, afirmam que Bolsonaro vai gostar de entrar em conflito com um esquerdista que ele retratará como uma ameaça "vermelha" radical. Mas Thaís Oyama, autora de um livro sobre a tumultuada presidência de Bolsonaro, afirmou que o populista de direita e seus apoiadores foram pegos de surpresa e estão desnorteados pelo retorno inesperado de Lula.

"Eles acham que isso é muito ruim. Foi uma completa surpresa e eles se sentem chocados O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva repreendeu com veemência a resposta 'imbecil' e caótica de Jair Bolsonaro à pandemia provocada pelo coronavírus, em um discurso comovente e potencialmente histórico, amplamente entendido como o início de uma luta para tomar de volta a presidência de seu inimigo de extrema-direita.

O veterano esquerdista, que liderou a maior economia da América Latina em alguns dos anos mais brilhantes de sua história moderna, foi bruscamente lançado de volta à linha de frente da política brasileira na segunda-feira, pela surpreendente decisão de anular as condenações por corrupção que impediu sua tentativa de reconquistar a presidência em 2018. Na terça-feira, um juiz do Supremo Tribunal Federal classificou a operação anticorrupção, que retirou Lula da eleição daquele ano, como "o maior escândalo judicial" da história brasileira.

Dirigindo-se à nação na quarta-feira, o homem de 75 anos não anunciou formalmente que desafiaria Bolsonaro – um populista de direita que críticos acusam de lidar catastroficamente com o surto de Covid – na eleição de 2022. Mas Lula, que foi presidente de 2003 a 2011, não deixou dúvidas de que sua luta política havia começado.

"Basta pensar na loucura que está tomando conta deste país", disse o líder do Partido dos Trabalhadores (PT), que foi impedido de concorrer na eleição de 2018 após ser preso.e muito preocupados. Havia um clima fúnebre [em torno de Bolsonaro essa semana]", disse Oyama. “É a pior coisa que poderia ter acontecido a ele neste exato momento… pegou-o completamente despreparado.”

Uma pesquisa publicada na véspera da decisão de segunda-feira mostrou que 50% dos brasileiros com certeza votariam ou poderiam votar em Lula na próxima eleição em comparação com apenas 38% para Bolsonaro.

Oyama disse que nos meses recentes os bolsonaristas tinha ficado irrequietos com as possibilidades do reeleição do seu líder, com as pesquisas sugerindo que sua sustentação estava perdendo força por conta de sua reação à Covid-19.

Bolsonaro estaria particularmente ansioso com o abandono da classe trabalhadora e dos eleitores pobres no Nordeste brasileiro, onde Lula nasceu e continua sendo uma figura muito amada e reverenciada por sua cruzada contra a pobreza. Mas mesmo membros da elite econômica que aplaudiram a ascensão de Bolsonaro estavam tão desiludidos que Oyama pensou que poderiam considerar mudar de lado. "Dada a escolha entre Bolsonaro e o diabo, votarei no diabo", disse recentemente um endinheirado interlocutor a um dos contatos da jornalista.

Christian Lynch, cientista político da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, concordou que o ressurgimento de Lula era uma má notícia para Bolsonaro.

"Lula governou este país por oito anos – e foi o período mais próspero da história recente do Brasil", disse ele, prevendo que uma crise econômica alimentada pelo coronavírus faria com que muitos eleitores fossem seduzidos pela perspectiva de voltar àqueles dias de redução da pobreza e boom econômico.

"Bolsonaro representa o fundo do poço na história recente da República e terá que enfrentar o candidato que foi seu zênite", disse Lynch.

O retorno de Lula está longe de ser universalmente bem-vindo. Muitos conservadores o consideram a personificação da corrupção e da inaptidão econômica, dada a histórica recessão em que o Brasil foi mergulhado sob sua sucessora escolhida a dedo, Dilma Rousseff. A recente pesquisa, que colocou Lula 12 pontos à frente de Bolsonaro, também mostrou que 44% dos brasileiros rejeitam Lula, embora 56% se oponham a Bolsonaro.

Para reconquistar alguns desses eleitores, Lynch disse que era essencial que Lula se posicionasse como um "conciliador" ao estilo de Joe Biden que pudesse unir o Brasil e consertar sua economia após o rancor e o caos causados pelo admirador de Donald Trump presentemente no cargo. "Ele precisa se posicionar como um Bonaparte de esquerda que veio para restaurar a paz e a ordem", disse Lynch.

Em seu discurso de 80 minutos, Lula prometeu exatamente isso – oferecendo um diagnóstico contundente dos "males" infligidos ao Brasil por Bolsonaro, mas também uma visão otimista do futuro.

O ex-presidente atacou Bolsonaro como um inútil presunçoso que colocou vidas em risco ao promover remédios não comprovados para a Covid, questionando a importância da vacinação e prometendo não ser vacinado. “Não sigam nenhuma decisão imbecil do presidente ou do ministro da Saúde. Vacinem-se", disse Lula.

Mas ele também descreveu um caminho mais otimista para o país onde o racismo fosse "abolido", a economia pudesse crescer, a comunidade LGBT e diferentes crenças pudessem ser respeitadas, as mulheres não fossem "tripudiadas" e onde "os jovens pudessem transitar livremente sem a preocupação de tomar um tiro".

"Este mundo é possível, plenamente possível, e é por isso que estou convidando vocês a lutar", disse Lula, que defendeu a ciência e usou uma máscara facial para o evento, algo que Bolsonaro repetidamente se recusou a fazer.

Apesar de estar em sua oitava década, Lula sinalizou que estava ávido por uma luta política. "Gosto de brincar que tenho a energia de um homem de 30 anos e tesão de um jovem de 20 anos – talvez seja por isso que ainda não fui vacinado", brincou.

Gaspard Estrada, especialista brasileiro do Instituto de Estudos Políticos de Paris, chamou o retorno de Lula de um desenvolvimento positivo para aqueles horrorizados com o desvio iliberal do Brasil sob Bolsonaro, um ex-paraquedista que elogiou publicamente torturadores e ditadores.

"A oposição brasileira agora tem um rosto e um nome e este é Lula", disse Estrada, acrescentando: "O que está em jogo agora é o futuro da democracia brasileira."

*Publicado originalmente por The Guardian | Traduzido por César Locatelli

Conteúdo Relacionado