Política

Lula entra na campanha e pede voto para Marta Suplicy

19/09/2004 00:00

Brasília – Ninguém tinha dúvidas de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva havia concordado em participar da inauguração da primeira etapa da obra de prolongamento da Avenida Radial Leste, em Itaquera, para dar uma ajuda na campanha da prefeita Marta Suplicy. Afinal, os três milhões e trezentos mil habitantes da Zona Leste serão decisivos na eleição da capital paulista, que demarcará o território da disputa política até 2006. O que não estava previsto é que Lula fosse tão explícito ao pedir o voto dos eleitores para a companheira de partido.

Em um discurso que deverá ser bem explorado na propaganda eleitoral da prefeita, o presidente se desmanchou em elogios à administração dela e disse que, apesar de ter tomado a decisão de não participar das campanhas municipais, porque um presidente da República precisa ter mais cuidado, decidiu ajudar Marta por ter ficado indignado com a propaganda eleitoral preconceituosa dos adversários – que ele não nomeou, mas deixou claro que estava falando do PSDB. “Eu, que fui vítima de preconceito durante a minha vida inteira, que em nenhum momento abaixei a cabeça, fico horrorizado porque eu pensei que o preconceito era porque eu era metalúrgico, porque eu era nordestino, mas a Marta não é metalúrgica, não é nordestina. É paulista, é de família tradicional, é uma mulher inteligente, é uma mulher bonita. Eu não sei porque o preconceito contra a companheira Marta. Sobretudo, porque esta mulher, obviamente, que o preconceito não é contra a Marta, pessoalmente, pode ter outro tipo de coisas. Mas eu acho que tem uma coisa que incomoda os adversários, que é a competência administrativa mostrada pela companheira Marta Suplicy”, disse Lula.


Marta não estava no palanque por causa da Lei Eleitoral, que proíbe candidatos em inaugurações para evitar o abuso de poder. O presidente até esboçou uma queixa ao rigor da legislação – “era como se a gente fizesse um prato, preparasse e colocasse a comida, assoprasse, esfriasse e na hora de comer tirassem o prato da gente” -, mas concordou com os objetivos das restrições. Ao lado do vice-prefeito, Hélio Bicudo, que não é candidato, e vários políticos do PT e de partidos aliados, ele lembrou que esteve na Zona Leste no ano passado, para inaugurar o CEU Jambeiro, em Guaianases – o primeiro de uma série de 21 construídos pela Prefeitura na gestão de Marta.


Lula destacou que a extensão da Radial não é uma obra isolada. Faz parte de um conjunto amplo de medidas “que está mudando, para melhor, a vida dos mais de 3 milhões e 300 mil habitantes da Zona Leste”. Ele observou que, ao facilitar o trânsito entre Itaquera e Guaianases, o poder público está criando condições econômicas para que mais empresas, mais escritórios e mais comércios se instalem na região. E ressaltou que o governo federal, por intermédio do Ministério das Cidades, ajudou a financiar a obra com R$ 6,4 milhões e deve investir mais R$ 27 milhões na construção do trecho norte da Avenida Jacu-Pêssego, que vai chegar até o Aeroporto de Guarulhos. “Com estas ligações viárias a região estará conectada de forma estratégica não só à Cumbica, mas também ao ABC e ao Porto de Santos – tornando-se, portanto, uma rota de grande desenvolvimento econômico para a nossa Capital”, assinalou.


O presidente lembrou também de outros projetos da gestão petista para apoiar o desenvolvimento da Zona Leste: a Faculdade de Saúde Pública da Cidade Tiradentes e a construção de uma faculdade de administração de empresas em Itaquera. “Com a infra-estrutura, com as opções de ensino profissionalizantes, com os investimentos que virão através das empresas, estamos criando todas as condições para que a Zona Leste possa aproveitar o seu grande potencial e gerar os empregos e a qualidade de vida que as mulheres, os homens e as crianças da Zona Leste tanto merecem pelo que representam”, justificou.


Acompanhado da ministra interina das Cidades, Ermínia Maricato, o presidente fez questão de comparar o volume de recursos do governo federal investido na capital paulista. Nos oito anos do governo anterior, forma R$ 580 milhões só na área de desenvolvimento urbano, que corresponde ao atual Ministério das Cidades. Nos primeiros 18 meses do governo petista, já foram liberados R$ 390 milhões para São Paulo. Com a comparação, Lula insinua que a parceria entre as administrações petistas da capital e do governo federal está sendo positiva para a população paulistana.


A parte final do discurso, reproduzida abaixo, foi uma louvação à coragem administrativa de Marta Suplicy e à preocupação dela com a população mais pobre de São Paulo, especialmente as crianças. Por isso, o presidente sentiu a “obrigação política” de recomendar o voto na prefeita para os eleitores que querem continuar tendo progresso nas políticas sociais. “Não têm outro jeito, dia 3 de outubro é votar na Marta Suplicy para continuar administrando São Paulo”, concluiu Lula.

       

Trecho fim do discurso do presidente na Zona Leste

Eu acho que poucas vezes na história de São Paulo houve um prefeito ou uma prefeita que tivesse a grandeza e a coragem administrativa que a companheira Marta teve.


Primeiro, uma prefeita que é capaz de ter a melhor política de transferência de renda de todo o território nacional, uma prefeita que é capaz de ter a melhor política de uniforme para as escolas municipais, como tem a Marta, e aí eu quero fazer um parêntese, só não dá valor ao uniforme quem nunca teve problema de não ter roupa. Eu lembro que quando estava na escola, no quarto ano primário, na Vila Carioca, eu tinha apenas uma calça marrom, uma calça curta, e um cinto verde porque não tinha o pano da mesma cor para fazer o suspensório. Eu ia com aquela calça de segunda a sexta na escola, no sábado minha mãe lavava. Eu ficava de short e na segunda-feira colocava a calcinha marrom e ia a semana inteira. Eu já era conhecido como o menino da calça marrom.


E quando a gente consegue dar o uniforme para as crianças na escola, a gente consegue acabar com a discriminação, porque, quem pode vai bem vestido, quem não pode vai mal vestido e já é vítima de preconceito naquela escola. Uma prefeita que foi capaz de fazer isso, que foi capaz de olhar que as crianças que moram mais longe têm que ter direito a um transporte para ir para casa, para não terem que andar quilômetros – incomoda. Uma prefeita que foi capaz de criar um bilhete único, incomoda. Uma mulher que foi capaz de criar uma escola da qualidade do CEU, uma escola que pode ser comparada a qualquer escola de qualquer país desenvolvido do mundo.


Pela primeira vez, neste país, as crianças pobres têm o direito de ir numa escola que até então apenas os ricos poderiam freqüentar. E essa mulher teve a coragem, não de atender a classe média a qual ela pertence, de construir um CEU no Pacaembu ou no outro bairro de classe média alta. Ela sabe que nesses bairros já tem as escolas necessárias, e ela sabe que uma outra parte pode até pagar uma escola melhor, mas ela resolveu tomar a decisão que poucas pessoas têm coragem neste país, é de levar escola de qualidade nos bairros mais pobres dessa capital para que a criança pobre tenha uma sala para fazer teatro, para ver cinema, uma quadra para jogar, uma piscina para nadar, aprender computação, aprender música, ou seja, pela primeira vez neste país, se dá aos pobres uma perspectiva de que não é pelo fato deles serem pobres que eles têm que ser tratados como pessoas de terceira categoria.


Por tudo isso, essa mulher, ao invés de ser vítima de preconceito, ao invés de ser vítima da falta de respeito de alguns, essa mulher poderia ser considerada, sem sombra de dúvida, a melhor prefeita que a cidade de São Paulo já teve. A mais preocupada com a política social e a mais preocupada com os pobres desta cidade. Quem não acreditar é só visitar o CEU. Quem não acreditar, é só ir ver as criancinhas descer as favelas e entrar numa escola que antes elas só passavam longe ou, quem sabe, viram na televisão. Agora, as criancinhas podem ir lá e estudar com a dignidade que todo ser humano deve ter.


É por isso que nós temos a obrigação política de levantar a cabeça com muito orgulho e dizer aos companheiros e às companheiras de São Paulo inteira, que se as pessoas querem continuar tendo progresso nas políticas sociais não têm outro jeito, dia 3 de outubro é votar na Marta Suplicy para continuar administrando São Paulo.


Muito obrigado, gente.


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