Política

Lula pede paciência e vê nova relação de Estado e sociedade

06/07/2004 00:00

Brasília – O governo federal parou por cerca de duas horas nesta segunda-feira para fazer um balanço dos 18 meses de mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Diferente do balanço de primeiro ano de governo, feito em dezembro, a mensagem da prestação de contas foi destinada mais ao público interno que ao externo. Durante uma hora e meia, o ministro da Casa Civil, José Dirceu, distribuiu munição ao comando do exército petista e das tropas aliadas – no Salão Leste do Palácio do Planalto foram reunidos todos os ministros, presidentes de estatais, bancos oficiais e autarquias e líderes dos partidos governistas.

Na solenidade, ele passou em revista todas as áreas do governo, assinalando as ações positivas e omitindo ou ajeitando os resultados dos setores em que a gestão patina (resumo completo na Revista Brasil e principais destaques no quadro anexo). “Para recolocarmos o nosso Brasil no lugar que merece no mundo - o nosso presidente Lula tem reiterado isso - é preciso que no nosso Brasil exista justiça social, seja o Brasil de todos”, concluiu Dirceu.

A “Força Expedicionária” estava pronta para a guerra das eleições municipais, faltava apenas a injeção de apoio moral. Foi esse o sentido do discurso de 30 minutos feito pelo presidente Lula – levantar a auto-estima do governo, mostrando que não é preciso ter vergonha pelo que não foi possível fazer e sim orgulho pelo que foi realizado nestes 18 meses. “Nada disso que o nosso companheiro ministro José Dirceu expôs seria possível de acontecer se não fosse o trabalho coletivo e, ao mesmo tempo, a dedicação diuturna de cada um de vocês”, elogiou o presidente.

Dirigindo-se sempre à sua equipe, Lula considerou saudável a cobrança cerrada do governo feita pela sociedade, mas pediu aos ministros que controlem a ansiedade de mostrar resultados. “Vocês têm que ter na consciência de vocês a certeza de que estão cumprindo aquilo que se propuseram a cumprir”, aconselhou o chefe, assinalando que os subordinados não são inexperientes como a mídia chegou a apontar. O presidente disse que aprendeu nestes 18 meses que a arte de governar é a arte de ter paciência, mesmo nos momentos de adversidade. “[A arte de governar] é a arte de não perder, nunca, a noção do tempo e do compromisso que se tem pela frente”, filosofou Lula.

Sem ansiedade
Ele não quer que seus ministros sejam influenciados pela queda de popularidade do governo e comecem a conspirar pela mudança na política econômica conservadora do ministro da Fazenda, Antonio Palocci. Por isso, pede que a equipe confie nele e não perca a paciência nem seja dominada pela ansiedade. “A ansiedade demais é que faz com que os bons jogadores percam os gols. E como nós não podemos perder os gols, não podemos também ter ansiedade, não podemos ficar angustiados, achando que nós deveríamos ter feito em 18 meses aquilo que outros não fizeram em 18 anos, aquilo que outros não fizeram em décadas, neste país”.

Lula disse aos ministros que o governo não precisa gastar todas as fichas na eleição municipal, pois seu mandato vai até janeiro de 2007. Frisou que não tem receio de comparações com resultados de governos anteriores, mas a comparação que deveria prevalecer é a do final do governo com o programa de governo defendido nas eleições. E avaliou que já realizou mais coisas do que o tempo lhe permitiu, embora ainda seja muito menos do que precisa ser feito para resgatar seus compromissos históricos.

O presidente disse ainda que os ministros não devem ter medo das manifestações contrárias e precisam enfrentar todos os debates de cabeça erguida, como o governo fez na votação do salário mínimo. “O salário mínimo é baixo, não porque o presidente Lula e o seu governo não conseguiram dar o aumento necessário. Ele é baixo porque, historicamente, ele sempre foi baixo neste país. Ele é baixo porque, historicamente, não se cuidou adequadamente do salário mínimo no Brasil”, argumentou o presidente.

Ele aposta na própria biografia como antídoto da acusação de insensibilidade social, que virá da oposição no processo eleitoral. “O povo é mais inteligente, o povo é mais politizado e o povo percebe quando uma coisa é real ou quando não é real. E o povo tem clareza: se tem alguém, neste país, que pode recuperar o poder aquisitivo do salário mínimo, é quem vos fala”, sustentou, colocando de lado a modéstia.

Nova relação Estado/sociedade
Lula chamou a atenção, também para o novo patamar de relações entre sociedade e estado que o governo petista vem mantendo. Mencionou os encontros dele com prefeitos e a negociação do reajuste salarial dos servidores públicos federais, que envolveu oito ministros e resultou em um acordo assinado por todas as entidades sindicais. Destacou ainda os encontros que teve com segmentos da sociedade civil, especialmente nas conferências setoriais nacionais. Lembrou os vínculos que possui com os movimentos sociais, garantindo que continuará prestigiando todas as organizações da sociedade civil. 

“Se um dia, o presidente da República deste país, eleito em 2002, não puder ir a uma conferência, que representa a organização da sociedade, é porque alguma coisa está errada. E mesmo se tiver alguma coisa errada, eu tenho que ir, para explicar porque está errada. Eu nasci no meio dessa gente. Eu trabalhei com eles durante quase um terço da minha vida. Eu não posso agora, porque sou o Presidente, deixar de participar das coisas com pessoas que militaram comigo a vida inteira neste país. E vamos lá para enfrentar situações difíceis, às vezes, mas vamos estabelecer uma outra relação. Eles têm que saber que o governo está sendo honesto e sincero com eles, que o governo quer construir o máximo que for possível, mas, muitas vezes, somos obrigados a fazer apenas aquilo que nós podemos e não a totalidade das coisas que nós queremos”.

A ascendência de Lula sobre os movimentos sociais é incontestável. Ele consegue ser aplaudido em pé mesmo quando não tem nada a apresentar além da reiteração dos compromissos históricos ou o pedido de paciência para esperar as coisas acontecerem, pois “não é possível fazer tudo em um passe de mágica”. O presidente acredita que esse respeito se deve à lisura e franqueza com que trata os movimentos. “Não temos que mentir, não temos que enganar, não temos que ficar tentando fazer com que as pessoas acreditem em coisas que nós não vamos fazer. A verdade é o melhor remédio para quem exerce uma atividade política”, observou Lula na prestação de contas dos 18 meses de governo.

Ele acredita que esse novo patamar de relações entre Estado e sociedade será reconhecido no futuro como uma das grandes transformações provocadas pelo seu governo. “O tempo é que vai provar o acerto da nossa política nessa relação com a sociedade”. O presidente concluiu a injeção de ânimo na equipe dizendo que o governo será cobrado por tudo que deixar de fazer e não será lembrado pelas coisas que pretendia realizar, mas pelo que foi capaz de tornar possível. “Nós haveremos de terminar o nosso governo podendo fazer uma aferição, não com um programa de outros governos, mas com o programa com que nós nos comprometemos a ganhar as eleições e, sobretudo, com a certeza que poderemos deitar a cabeça no travesseiro e dormir o sono dos justos e dos honestos porque fizemos, senão tudo que queríamos, mas aquilo que foi possível fazer”, previu Lula, antecipando a própria absolvição pelas promessas não cumpridas.

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