Política

Lula pode abrir novo ciclo histórico na AL, afirma Diplomatique

Editorial do jornal francês 'Le Monde Diplomatique', assinado por Ignacio Ramonet, analisa o significado da vitória de Lula no Brasil e conclui que novo governo poderá abrir um outro ciclo histórico na América Latina, após duas décadas de políticas neoliberais na região

09/01/2003 00:00

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Créditos da foto: (Wikipedia)

 

A eleição de Luiz Inácio Lula da Silva para a presidência do Brasil é o principal indicador das transformações em curso na América Latina, após quase duas décadas de aplicação de políticas neoliberais que levaram a imensa maioria dos países do continente a uma grave crise política, econômica e social. A conclusão é do jornal francês Le Monde Diplomatique, que dedicou o editorial da edição de janeiro às mudanças políticas no Brasil. Assinado por Ignacio Ramonet e intitulado “Viva o Brasil!”, o editorial do Diplô analisa os efeitos perversos das políticas de ajuste estrutural implementadas no período entre 1983 e 2002, saudando a vitória de Lula como um claro indicador de que é possível desenvolver um outro modelo econômico.

Segundo Ramonet, a vitória de Lula é um acontecimento de primeira grandeza e lembra, em um contexto bastante diferente, a eleição do socialista Salvador Allende, em 1970, para a presidência do Chile. Para ele, o dia 1° de janeiro de 2003 marca o início de um novo ciclo histórico para os países da América Latina. Entre as diferenças de contexto que separam as vitórias de Lula e de Allende, o editorial do Diplô assinala o período de quase duas décadas de aplicação do modelo neoliberal, com conseqüências sociais desastrosas. O continente sai desse período mais pobre e injusto.

A herança do Consenso de Washington

Ramonet relaciona alguns indicadores dessa herança perversa. O mercado de trabalho conheceu, em 2002, os piores resultados dos últimos 22 anos. As taxas de desemprego explodiram. Mais da metade dos assalariados em idade produtiva só conseguem encontrar emprego no setor informal. O número de pobres continua a aumentar em todo o continente. Além disso, os níveis do médios do salário mínimo seguem caindo e o Produto Interno Bruto (PIB) da região registrou nova queda (- 0,8%). Alguns países, observa ainda o editorial, mergulharam na mais grave crise econômica de sua história. O caso paradigmático é o da Argentina, onde a classe média foi arrasada. Segundo as últimas estimativas, mais da metade dos 37 milhões de habitantes vivem atualmente na pobreza e mais de um terço da população ativa está sem trabalho ou sub-empregada. O PIB argentino registrou uma queda recorde de 17%.

Sentindo na pele os efeitos dessas políticas, a população de diversos países da AL começou a se rebelar contra seus governos e lideranças políticas. Ramonet traça um breve resumo desses protestos. No Equador, em janeiro de 2000, após a decisão do governo de dolarizar a economia, uma rebelião de camponeses indígenas acabou por derrubar do poder o presidente Jamil Mahuad. No mesmo ano, no Peru, o presidente Alberto Fujimori, acusado de corrupção, foi alvo de um levante popular e teve que deixar o país, buscando refúgio no Japão. No ano seguinte, foi a vez da Argentina. Em dezembro de 2001, uma violenta insurreição popular acabou provocando a queda do presidente Fernando de la Rua. Outras manifestações populares similares ocorreram na Bolívia, no Paraguai e na Costa Rica.

Resposta nas urnas

A rejeição ao receituário ortodoxo do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Consenso de Washington, assinala o editorial do Diplô, tiveram conseqüências eleitorais na Venezuela, no Equador e no Brasil. No primeiro, em 1998, quando uma “legião de descontentes com a ordem neoliberal elegeu o presidente Hugo Chavez e sustentou seu programa moderado de reformas sociais”, nas palavras de Ramonet. E foram esses mesmos descontentes, acrescenta, que, em dezembro de 2002, continuaram a sustentar Chavez face às tentativas de golpe conduzidas, sob o olhar benevolente de Washington, pelas elites que se beneficiaram com a globalização neoliberal, “uma minoria decidida, disposta a tudo, mesmo a mergulhar o país em uma guerra civil”.

Processo semelhante ocorreu no Equador que, em novembro de 2002, elegeu Lucio Gutierrez, um ex-coronel oriundo das camadas pobres da população, que se opõe à proposta de criação da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), nos termos em que está colocada atualmente, e que quer colocar as riquezas do país a serviço dos 70% de equatorianos que vivem abaixo da linha da pobreza. Todos esses sinais, diz Ramonet, indicam claramente que, para os defensores da globalização neoliberal, na América Latina ao menos, a festa parece ter chegado ao fim. E a eleição de Lula, conclui, aparece como o principal indicador das transformações em curso no continente.

Os desafios do governo Lula

O editorial do Diplô reconhece, porém, que a vida não será fácil para o novo governo brasileiro. “Em última instância, Lula será julgado por sua capacidade de reduzir o número de pobres e de repartir melhor a riqueza de um país onde as desigualdades são abismais: 1% da população possui 55% das riquezas nacionais”, escreve Ramonet. Ele comenta também que o objetivo expresso por Lula, de garantir ao povo brasileiro três refeições ao dia, é algo já mencionado nos Evangelhos, na Declaração Universal dos Direitos do Homem e na Constituição brasileira. Mas, na avaliação do articulista, esse não será o único desafio do novo governo. Lula deverá provar também que “os povos da América Latina ainda podem escolher o seu futuro e que, face ao projeto neoliberal, um outro modelo econômico é possível”.

Ramonet aponta, por fim, que uma grande aposta recai sobre os ombros do novo governo brasileiro. Uma aposta, em forma de desafio e de enorme responsabilidade, reconhecida por Lula quando disse: “É justamente porque toda a América Latina está olhando para nós e porque nós portamos a esperança de todos os latino-americanos, que não temos o direito de fracassar”. O editorial do Diplô reconhece, assim, que os objetivos do novo governo brasileiro têm a altura exata de sua responsabilidade para com o futuro de toda a América Latina.

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