Política

Lula volta, mas o golpe continua

Lula tenta entrar em campo e pelo que demonstrou na sexta-feira, vem com vontade de ser o artilheiro capaz a virar um jogo que parece difícil.

20/03/2016 00:00

Juca Varella/ Agência Brasil

Créditos da foto: Juca Varella/ Agência Brasil

No mesmo dia em que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a participar de um ato de massas em São Paulo – onde a consigna era “não vai ter golpe!” –, em Brasília, Gilmar Mendes, integrante do Supremo Tribunal Federal, deixava bem claro que o golpe continua em marcha. Atendendo a uma petição apresentada pelo PPS, pequeno partido de oposição, o ministro Mendes, que se caracteriza por hostilizar duramente o governo de Dilma Rousseff e Lula cada vez que se manifesta no pleno do Tribunal, suspendeu a nomeação do ex-presidente como novo chefe da Casa Civil, e devolveu a causa judicial de volta ao polêmico juiz federal de primeira instância, Sérgio Moro. Agora, resta ao governo e aos advogados do ex-presidente apresentar um recurso para suspender a medida.
 
Pouco mais de hora e meia antes, Lula havia discursado para uma multidão, que cobriu a Avenida Paulista, na noite de sexta-feira 18/03. Foi o encerramento de uma jornada que lotou as ruas de todo o país em defesa do mandato de Dilma Rousseff, conquistado em outubro de 2014 mas boicotado desde o primeiro dia por uma oposição que não se resigna à derrota, por um Congresso que confunde a política com um balcão de negócios, por meios de comunicação que acreditam que já basta de governos populares e, finalmente, por um Poder Judiciário que acredita estar por cima das leis e da própria Justiça.
 
As manifestações de ontem, que transcorreram de forma pacífica, certamente levaram às ruas multidões menores que as do domingo passado, que exigiam a imediata deposição de Dilma Rousseff. Um primeiro cálculo indica que ontem havia entre metade e um terço.
 
Um detalhe que ajuda a explicar a diferença: os atos de sexta-feira, os da esquerda, não contaram com a ação da Rede Globo convocando as pessoas a participarem. Para que se tenha uma clara ideia da parcialidade da emissora, enquanto Lula dava seu discurso, nem seu sinal aberto nem o canal de notícias por cabo, a GloboNews, transmitiram suas palavras. No domingo anterior, a programação por cabo se dedicou exclusivamente a cobrir as manifestações, que também ocuparam grandes parcelas do horário central da emissora aberta.
 
De todas as formas, comparar números é algo que, a esta altura, não é tão importante. O que importa é constatar que tanto Lula quanto o PT, e as organizações e movimentos sociais que respaldam o governo de Dilma Rousseff, deixaram claro o seu poder de convocação, que havia sido colocado em dúvida pelo complô midiático-jurídico, e essa resistência está longe de se esgotar. Ao contrário: levar centenas de milhares de pessoas à Avenida Paulista, epicentro do golpismo, para escutar um Lula cuja imagem é golpeada a cada hora de cada dia pelos meios hegemônicos de comunicação é o que se pode classificar como uma façanha. Foi igualmente significativo o número de manifestantes reunidos em Recife, Salvador e Rio de Janeiro, sob a consigna “não vai ter golpe”.
 
O golpe, porém, está em marcha, como deixou bem claro Gilmar Mendes, no Supremo Tribunal Federal. Seu voto não é uma surpresa. Muito mais que atuar como magistrado da máxima corte do país, Mendes se apresenta como um opositor furibundo contra o governo. A propósito, nessa Corte tramitam outras sete medidas interpostas por partidos da oposição, todas pedindo a anulação da nomeação do ex-presidente Lula como ministro chefe da Casa Civil. Com a decisão individual de Mendes, não se sabe o que acontecerá com essas medidas. Na semana que vem, devido aos feriados, não haverá sessões do pleno do Tribunal. Se Sérgio Moro agir, Lula poderia ser preso em qualquer momento. O governo apresentará um recurso de urgência, para tentar manter a nomeação do ex-presidente.
 
A outra perna do golpe, os meios de comunicação, continuam impávidos em sua caminhada. Basta ler as manchetes, as colunas de opinião, os editoriais, e se perguntar se não foram todos escritos pela mesma pessoa. A diversidade nos meios de opinião brasileiros é algo tão raro quanto uma geladeira elétrica no Polo Norte.
 
Por fim, está o Congresso, onde uma comissão especial analisa o pedido de abertura de juízo contra Dilma Rousseff. Se supõe que dos 65 integrantes que representam proporcionalmente todos os partidos com assento na Câmara dos Deputados, o governo conta com estreitíssima maioria: 31 votos seguros, 5 duvidosos. Mas na atual legislatura, até os seguros são duvidosos. Uma das difíceis missões de Lula é precisamente assegurar um mínimo de lealdade entre os aliados. O principal deles, o PMDB, está claramente dividido. E se antes estava partido ao meio, agora tudo indica que os traidores são maioria. Para se ter uma ideia do conceito de ética desse partido: apesar de ocupar sete ministérios, inclusive o de maior visibilidade e orçamento, como é o da Saúde, a legenda costuma abandonar o governo em momentos cruciais, ou pedir um preço pela sua lealdade.
 
Agora mesmo, o PMDB proibiu seus integrantes de aceitarem qualquer outra nomeação durante os próximos 30 dias, nos quais dizem que decidirão se permanecem ou não na aliança governista. Deixar os cargos que ocupam no momento, nem pensar.
 
Nesse complexo cenário, Lula tenta entrar em campo. Pelo que demonstrou na sexta-feira, vem com vontade de ser o artilheiro capaz a virar um jogo que parece difícil.
 
Tradução: Victor Farinelli



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