Política

Mais uma guinada à direita afeta a América do Sul

O resultado do primeiro turno marca a maior quantidade de votos alcançada nestes anos por um fascista em todo o mundo. Com a particularidade de que esse triunfo se produziu no maior sócio comercial da Argentina

09/10/2018 08:56

Joaquín Salguero

Créditos da foto: Joaquín Salguero

O Brasil fez o possível. Em um caso único no mundo, um fascista terminou o primeiro turno com 49 milhões de votos (46%) de um eleitorado de 147 milhões de eleitores, dos quais apenas 80% foram às urnas.

O fenômeno de um militar ultradireitista chancelado pelo voto, e com outro militar ultradireitista como vice, parece ser inédito. Se a tendência se mantém e o resultado se repetir no segundo turno, no domingo 28 de outubro, reafirmará a guinada da América do Sul à direita, que começou com a chegada de Mauricio Macri à Casa Rosada, em dezembro de 2015.

O candidato do Partido dos Trabalhadores (PT), Fernando Haddad, indicou durante a noite de domingo (7/10) que o desafio é a continuidade da democracia. Seria uma forma de reforçar um eixo de campanha que já demonstrou sua ineficácia.

O fascismo explícito e a reivindicação do uomo qualunque, o suposto homem comum que inspirou a formação de um partido anticomunista dirigido por Giorgio Macri, avô de Mauricio, são elementos similares entre o caso de Bolsonaro e os 60 milhões de votos que obteve Donald Trump nos Estados Unidos, em novembro de 2016. Trump teve menos votos que Hillary Clinton, embora os dois tenham superado os 47%, mas quem definiu o triunfo foi o colégio eleitoral. Independente da diferença entre os sistemas – porque o Brasil tem eleições diretas de presidente e vice, como na Argentina –, as promessas de ambos não foram totalmente iguais. Bolsonaro, como Trump, conseguiu se apresentar como o candidato ideal da anti política e alheio às elites. Como este homem é capaz de despejar seu machismo, racismo e homofobia sem que isso afete a sua imagem e inclusive ganhando votos por isso? É a transformação do prejuízo vergonhoso em opinião desavergonhada. Entretanto, o imaginário do eleitor do meio oeste dos Estados Unidos decisivo no Colégio Eleitoral, foi a conquista de um futuro com trabalho, que deixasse para trás os sonhos da globalização financeira. No caso brasileiro, a melhora cotidiana não esteve no centro da campanha de Bolsonaro, inclinado a se colocar com o outro extremo dos políticos e, sobretudo, como o outro extremo do Partido dos Trabalhadores (PT) e do próprio Lula da Silva.

A óbvia diferença a favor da institucionalidade norte-americana é que Trump não ganhou as eleições convocadas por um governo surgido de um golpe, e sim por outra administração legítima, como a de Barack Obama.

Até Macri teve que disfarçar seu programa verdadeiro vencer Daniel Scioli em 2015. Ocultou a desvalorização que viria e negou eventuais aumentos de tarifas de serviços básicos (luz, água e gás), e prometeu eliminar o imposto sobre o lucro para os trabalhadores de maior renda.

Bolsonaro, em vez disso, foi premiado por se mostrar do jeito em que realmente é. O prêmio foi reforçado pela atuação do seu filho, Eduardo Bolsonaro, que teve 1,7 milhão de votos, e já entrou para a história como o deputado mais votado da história, superando o recorde que era de Enéas Carneiro, nas eleições de 2002.

Apesar das três semanas que faltam até o dia 28, o governo argentino vem fazendo com Bolsonaro a mesma pirueta que os banqueiros de São Paulo. Primeiro, deixou transcender sua preferência por Geraldo Alckmin, o candidato do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) e do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Mas Alckmin não subia nas pesquisas. O PSDB foi um dos executores do golpe de 2016 contra Dilma Rousseff. A estratégia do partido era fazer com que Aécio fosse candidato de novo, depois do impeachment destruir o PT, e a legenda surgir como a única capaz de unir a constelação golpista de banqueiros, grandes industriais, proprietários de meios de comunicação, operadores judiciais, promotores, policiais e membros dos serviços de inteligência.

O embaixador argentino em Brasília é Carlos Magariños, um ex-funcionário de Domingo Cavallo, ligado historicamente às automotoras, ou seja, com bons vínculos empresariais com uma indústria vital para o Brasil, para a Argentina e para a montagem de carros entre os dois países. Segundo a investigação do Página/12, os contatos empresariais de Magariños foram revelando uma aproximação cada vez maior com Bolsonaro, que aparecia como o voto útil diante da candidatura de Haddad. A verdade é que houve contatos de setores empresariais também com Haddad, que no fim das contas não é um político marginal: foi ministro de Educação de Lula e Dilma, e ex-prefeito de São Paulo. Mas a opção dos diferentes membros do establishment que escolheram Bolsonaro e não Haddad visam concretizar de uma vez o que disse o ex-senador Jorge Bornhausen, que alguma vez disse que todo tipo de político reformista ou com inclinação favorável aos direitos sociais faz parte de uma “raça maldita”.

Também é preciso incluir outro ponto importante de sua agenda: o pragmatismo. Se Bolsonaro for o vencedor, aos grandes empresários argentinos tampouco lhes convém negar seu apoio. Por isso surgiu também a definição sobre Bolsonaro cometida pelo chanceler argentino Jorge Faurie, ao qualificá-lo como um político “de centro-direita”.

Um cenário que, se não fosse pela recessão que o faz perder adesões todos os dias, até Macri poderia aproveitar agora mesmo.

*Publicado originalmente no Página/12 | Tradução de Victor Farinelli

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