Política

Mantenham as fronteiras abertas

Um dos melhores jeitos de as economias avançadas ajudarem os países pobres é desencorajando restrições comerciais e migratórias e encorajando fluxos de capital para os países que mais precisam. E elas têm um bom motivo para fazer isso, ao passo que tais políticas beneficiariam os países ricos também.

27/07/2020 12:41

(David McNew/Getty Images)

Créditos da foto: (David McNew/Getty Images)

 
NEW HAVEN – Até recentemente, nos confrontávamos constantemente com imagens de imigrantes afogados boiando nas águas que separam os países pobres dos países ricos, do Rio Grande ao Mediterrâneo. E, embora a covid-19 domine agora o noticiário, o colapso econômico da pandemia irá, provavelmente, exacerbar as desigualdades globais que conduzem a migração.

Muitos países em desenvolvimento, até agora, lidaram com a pandemia relativamente bem em termos de saúde pública, mas não conseguem evitar a repercussão econômica. Mais do que nunca, os países pobres precisam de apoio e cooperação das economias avançadas. Mas o mundo desenvolvido, sobrecarregado com seus próprios problemas, está se voltando para dentro.

Transbordam exemplos da nova política ambiental. Nos EUA, a administração atual recentemente suspendeu novos vistos H-1B para trabalhadores estrangeiros qualificados até o final de 2020, e, até ser forçada a recuar, estava ameaçando deportar estudantes internacionais que não assistem aulas presenciais nesse outono. Enquanto isso, legisladores da União Europeia vangloriaram-se de que o ambicioso pacote de estímulos contra covid-19 do bloco seria financiado alinhado com uma visão econômica europeia progressiva. Mas inclui impostos sobre a emissão de carbono que serão tudo menos progressivos, recaindo desproporcionalmente sobre países em desenvolvimento com padrões ambientais menos exigentes.

É difícil imaginar uma justificativa mais hipócrita ao protecionismo. Talvez seu único paralelo seja a afirmação da administração dos EUA de que priorizar “a dignidade do trabalho” está por trás da exigência do novo Acordo EUA-México-Canadá, que diz que 40% do valor de um carro importado seja produzido por trabalhadores que ganham, ao menos, 16 dólares por hora.

Isso não é para dar pouca atenção à mitigação da mudança climática ou da proteção dos trabalhadores. Mas medidas protecionistas como essas não terão impacto material sobre essas questões importantes, e irão prejudicar os países em desenvolvimento na hora que mais precisam.

Um dos melhores jeitos de as economias avançadas ajudarem os países pobres é mantendo suas fronteiras abertas. Em curto prazo, riscos de saúde pública podem necessitar medidas draconianas para evitar que o coronavírus migre de um país para outro. Mas em longo prazo, países desenvolvidos devem desencorajar restrições no comércio e na migração e encorajar o fluxo de capital para as economias que mais precisam.

Mas porque os países ricos deveriam ajudar? Além dos argumentos morais, porque não deveriam colocar seus próprios interesses na frente, especialmente, os desafios domésticos que encaram hoje?

À primeira vista, a teoria econômica parece fornecer a resposta: o objetivo do comércio não é ajudar seu parceiro comercial, mas sim ajudar a si mesmo. Quando os países se especializam no que fazem de melhor, eles produzem de maneira mais eficiente, resultando em um aumento da produção, maior variedade, melhor qualidade e preços baixos. Todos os países ganham. O comércio não é um jogo de soma zero. E uma lógica similar se aplica à migração.

Mesmo parecendo um argumento atraente, vem perdendo poder nos últimos anos. Décadas de hiper globalização tornaram as economias avançadas altamente eficientes, mas essa abertura também causou disrupção. Alguns agora argumentam que os ganhos incrementais de eficiência que as economias avançadas podem alcançar ao integrar ainda mais com países em desenvolvimento não valem a pena por causa da disrupção associada – especialmente tendo em vista os fracassos políticos anteriores nas abordagens dos efeitos adversos.

Em países em desenvolvimento, ao contrário, o crescimento e a eficiência permanecem sendo requisitos importantes para a redução da pobreza e para o desenvolvimento. Um artigo recente que eu co-escrevi mostra que nada contribui com a redução sustentável da pobreza como o comércio, especialmente quando é conduzido por países ricos.

Existem muitas outras razões que explicam por que economias avançadas têm interesse em ajudar países em desenvolvimento. Primeiramente, os atuais desequilíbrios demográficos e desigualdades econômicas entre regiões ricas e pobres parecem insustentáveis a longo prazo. A idade média na África é 18; na Europa, é 42, e 35 na América do Norte. A população da África está crescendo 2.5% ao ano, o que significa que irá dobrar até 2050; o crescimento populacional anual na Europa e na América do Norte é 0.06% e 0.6%, respectivamente. O PIB per capita médio na África em 2019 era cerca de $1.900 dólares, em comparação com $29.000 na Europa e $49.000 na América do Norte.

A ampla desigualdade não é nada nova. Mas no mundo cada vez mais interconectado de hoje, os pobres do mundo têm acesso à informação como nunca antes. Não importa quão altos sejam os muros construídos pelo mundo rico, e quantos imigrantes afogados está disposto a tolerar, pessoas desesperadas continuarão buscando uma vida melhor. Ajudar países pobres a saírem da pobreza é o jeito óbvio de amenizar a pressão.

Em segundo lugar, como Montesquieu e Adam Smith apontaram no século 18, o comércio e a paz se fortalecem entre si. No século 20, o establishment da Comunidade Europeia de Aço e Carvão, e subsequentemente a UE, sustentaram a democracia e a paz na Europa tanto quanto sustentaram a prosperidade econômica. Promover o comércio com países em desenvolvimento pode não tornar as economias avançadas mais eficientes. Mas irá ajudar a preservar a paz e a estabilidade – indiscutivelmente suas conquistas mais preciosas nos últimos 70 anos.

Em terceiro lugar, as economias avançadas se beneficiam com a abertura de outras maneiras além dos ganhos incrementais de eficiência. Por exemplo, o modelo econômico alemão baseado na exportação depende do poder de compra no resto do mundo. Com a África projetada para deter mais de um quarto da população mundial até 2050, aumentar o poder de compra dos seus cidadãos é bom não somente para o continente, mas também para a Alemanha e outras economias ocidentais.

Similarmente, não está claro se o dinamismo e a inovação dos EUA teriam se tornado possíveis sem a imigração. Cerca de um quarto de todas as startups de tecnologia e engenharia estabelecidas entre 2006 e 2012 tinham, ao menos, um imigrante em sua fundação, enquanto os imigrantes que chegaram aos EUA possuem quase duas vezes mais chances de se tornarem empreendedores do que os cidadãos nascidos no país. Muitos outros países exibem um padrão similar.

Finalmente, muitas pessoas em economias avançadas gostariam de ver um mundo mais justo e igual no qual o destino de alguém não seja determinado pelo seu local de nascimento – do mesmo modo que não deveria ser determinado pelo seu gênero, raça, religião, etnia ou orientação sexual. Aqueles que estão tentando construir um mundo melhor deveriam considerar prioridade o apoio aos pobres do mundo, e não apenas os desafortunados do seu próprio país. E não há maneira mais efetiva de ajudar do que mantendo as fronteiras abertas.

*Publicado originalmente em 'Project Syndicate' | Tradução de Isabela Palhares



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