Política

Marighella e os dilemas da revolução brasileira

04/11/2009 00:00

O XX Congresso do PCUS, realizado em 1956, representou uma virada na política do movimento comunista internacional. Nele foi apregoada a nova linha de coexistência pacífica entre o bloco socialista e o imperialismo estadunidense e, também, defendida a possibilidade de transição pacífica para o socialismo.

Visando adequar-se a essa linha, em março de 1958, a direção do PCB aprovou uma declaração afirmando que o processo de democratização era uma tendência irreversível e que existiria “a possibilidade real de conduzir, por formas e meios pacíficos, a revolução antiimperialista e anti-feudal” no país. Essas teses, inclusive, tiveram o apoio de dirigentes que, um pouco mais tarde, iriam aderir à luta armada. Durante os debates do V Congresso eles ainda travariam uma renhida luta contra a esquerda partidária que se posicionava em desacordo com o projeto de tese, considerado reformista. O que o fez com que eles mudassem de idéia e se aproximassem das teses apregoadas pela oposição que reorganizaria o PCdoB em 1962?

O primeiro grande acontecimento que viria abalar suas convicções foi a revolução cubana. Ela tinha se dado pela via da luta armada e em conflito com as teses reformistas do Partido Socialista Popular (comunista). A tentativa de ocupação da ilha por mercenários em abril de 1961, com apoio norte-americano, reforçou neles a idéia da necessidade de preparar-se para a resistência armada – e, também, minou a confiança nas possibilidades da coexistência pacífica, apregoava Krushov.

No inicio de 1962 realizou-se na ilha uma grande Assembléia Internacional que aprovou a II Declaração de Havana. Ela passaria a influenciar o programa de várias organizações revolucionárias latino-americanas. O documento afirmava: “O dever de todo revolucionário é fazer a revolução. Sabe-se que a revolução vencerá na América latina (...) mas não cabe aos revolucionários sentar-se à porta de sua casa para ver passar o cadáver do imperialismo”. Numa clara contestação aos soviéticos dizia: “não é justo enganar os povos com a vã ilusão de que é possível desalojar as classes dominantes por vias legais que não existem nem existirão”.

No Brasil as teses krushovistas, compartilhada pela direção do PCB, também foram abaladas por um outro acontecimento. Quando Jânio renunciou, em agosto de 1961, os comandantes militares não quiseram dar posse ao vice-presidente, João Goulart. O governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, com apoio do III Exército, comandou a resistência ao golpe. Formaram-se batalhões populares e o país chegou à beira de uma guerra civil.

O medo da revolução fez com que os golpistas recuassem, mas, antes, impuseram uma condição. Jango assumiria sob um regime parlamentarista, que lhe retiraria parte dos poderes. A proposta foi prontamente aceita.
Marighella ficou muito descontente com a saída conciliatória. Compreendeu que qualquer governo progressista, mais cedo ou mais tarde, deveria enfrentar uma reação armada, patrocinada pelos Estados Unidos.

Diante disso, no interior da maioria que ficou com o PC brasileiro (PCB) ocorreram diferenciações importantes. Em 1962, numa Conferência Nacional, Marighella expressou suas dúvidas sobre a absolutização dos métodos pacíficos. Acreditava na possibilidade de um golpe militar e que, por isso mesmo, era preciso estar preparado. Não era possível depositar todas as fichas no esquema militar de Jango e no possível papel progressista da grande burguesia.

O golpe militar de 1º de abril de 1964 precipitaria a crise interna. Novamente, a direção do Partido foi pega de surpresa e não esboçou nenhuma resistência digna de nota. Marighella foi um dos primeiros a se levantar contra a política adotada e exigir sua imediata substituição. O imobilismo o incomodava profundamente.

Em maio, policiais tentaram capturá-lo dentro de um cinema. Diante de uma resistência inusitada, eles atiram à queima-roupa. Uma bala atingiu-lhe o peito. Mesmo ferido, não se entregou e lutou com os que procuravam prendê-lo. O ato transformou-o num dos símbolos da resistência à ditadura. Alguns meses depois publicou “Como resisti à prisão”.

“Os brasileiros, afirmou ele, estão diante de uma alternativa. Ou resistem à situação criada com o golpe de 1º de abril ou se conformam com ela. O conformismo é a morte”. Aproveitou a ocasião para criticar os erros da direção do PCB: A grande falha foi “a crença na capacidade de direção da burguesia, a dependência da liderança proletária à política efetuada pelo governo de então”. E concluiu: “a ditadura surgiu da violência empregada pelos golpistas contra a nação, e não pode esperar menos que a violência por parte do povo para enfrentar os crimes cometidos pelo governo”.

No ano seguinte, Marighella publicou “A crise brasileira”. Nesse livro ele expõe a proposta de uma nova linha política. Tratava-se, agora, de “adotar uma estratégia revolucionária” que visasse “a preparação da insurgência armada popular”. Tendo em vista isso, “o trabalho mais importante, aquele que tinha o caráter prioritário era a ação no campo”. A aliança estratégica com os camponeses seria a única maneira de dar hegemonia ao proletariado na revolução nacional e democrática. A estratégia reformista, assentada numa aliança privilegiada com burguesia nacional, teria levado a subestimação do trabalho entre as massas camponesas. A conseqüência foi que o proletariado acabou ficando subordinado à burguesia.

Um grande debate se anunciava para o VI Congresso do PCB. Na Conferência de São Paulo, Marighella conseguiu 33 votos entre os 36 delegados presentes, contra a posição defendida por Prestes. A tese oficial também foi derrotada no Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Temendo perder no Congresso, a direção nacional interveio e iniciou o afastamento dos militantes descontentes, acusados de divisionismo.

Para Marighella a etapa de nossa revolução continuava sendo nacional-democrática e entre as forças sociais interessadas na sua realização se encontrava os setores progressistas da burguesia. No entanto, a hegemonia desse processo deveria estar nas mãos do proletariado. A maneira de se conseguir isso seria através da utilização de métodos de lutas mais avançados e da construção de uma aliança estratégica com os camponeses.

“O governo pelo qual lutamos, escreveu, não poderá ser senão o resultante da frente única anti-ditadura (...). Esforçando-nos para que tal frente única se torne realidade, sustentamos a necessidade da aliança com a burguesia nacional, levando em conta não somente tudo o que dela nos aproxima, quando se trata de objetivos comuns em defesa dos interesses nacionais, mas também tudo o que dela nos separa (...). E o Partido deve ser o chefe da oposição popular, para não ficarmos a reboque da oposição burguesa”. A hegemonia do proletariado, explica ele, não implicaria numa mudança no “caráter antiimperialista a anti-feudal, nacional e democrático da revolução brasileira”.

Marighella participou da I Conferência da Organização Latino-Americana de Solidariedade (OLAS), realizada em Cuba em 1967. Nesse conclave buscou-se, contra a vontade dos soviéticos, articular uma espécie de Internacional revolucionária latino-americana. Na ilha firmou convicções sobre os caminhos da revolução brasileira. A guerrilha agora era reconhecida como “o caminho fundamental, e mesmo único, para expulsar o imperialismo e destruir as oligarquias”.

Voltando ao país, fundou o Agrupamento Comunista de São Paulo e, depois, a Ação Libertadora Nacional (ALN). Uma das características dessa nova organização era a negação da importância dos partidos nos processos revolucionários latino-americanos. Seu lema era “a ação faz a vanguarda”. Uma posição que, claramente, não se enquadrava dentro da tradição marxista e leninista que tendia a valorizar o papel dos partidos de vanguarda (comunistas), inclusive na preparação e no desenvolvimento da guerra popular.

Podemos dizer que, nesse período, houve um claro desvio anti-teoricista no pensamento de Marighella – possivelmente influenciado por Regis Debray. Isso explicaria a pouca atenção dada ao estudo da realidade brasileira e a elaboração de uma estratégia adequada, como estava sendo procurado nos documentos anteriores do próprio Marighella. Não foi retomada a rica discussão sobre as etapas da revolução brasileira. A ação, por si só, parecia resolver esses complexos problemas teóricos e políticos. Os aspectos técnico-militares da revolução pareciam serem os únicos que realmente contavam. O resto era diletantismo, fruto da antiga cultura comunista pré-OLAS.

Apesar de todos os erros que possa ter cometido, especialmente nos últimos anos de sua vida, Marighella foi um exemplo de revolucionário comunista e grande patriota. Pátria ou morte. Venceremos!

Augusto César Buonicore nasceu em Campinas (21/07/1960).
Começou a militar no movimento estudantil secundarista em 1977.
Ainda atuando no movimento secundarista, ingressou no PCdoB no final de 1979. Hoje é historiador e segue militando no PCdo B.


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