Política

Marx, Lima Barreto e o bonapartismo de hospício (I)

 

02/03/2020 15:30

 

 
O hospício e a história têm algo muito em comum: são espaços de agitação, de construção e de encarceramento. O hospício absorve toda alma e a história absolve toda alma. É nesse pandemônio que encontramos dois gênios da modernidade, um alemão e um brasileiro: Marx ([1852], 2015) e Lima Barreto ([1922], 2004).

Vale, contudo notar que o objetivo desta breve crônica é comparar, usando as tintas interpretativas dos nossos dois autores, outros dois indivíduos, nem gênios, um tanto iconoclastas, mas ambos fanfarrões tresloucados pelo poder: um francês e um brasileiro: Luís Bonaparte e Bolsonaro. Nossa comparação histórica tem o objetivo clássico ressaltado pelo próprio Marx na famosa obra aqui utilizada ([1852], 2015, p. 209): “fatos e personagens da história universal aparecem, por assim dizer, duas vezes (...): a primeira vez como tragédia e a outra como farsa”, deveríamos acrescer que no nosso caso analisado seria como farsa trágica, beirando as raias da loucura.

Entre 1848 e 1851 a França esperneia em um momento histórico chave. A “primavera dos povos” e a subversão dos atores sociais bradavam ventos revolucionários. A burguesia já dispunha do controle de parcela considerável do poder do Estado e naquele verão europeu de 1848 eram as forças de baixo que reivindicavam o controle da sociedade. Essas forças entraram em choque com a burguesia liberal já bem cedo, assim em 1848-49 os liberais descobriram que “revoluções eram perigosas”.

Um jornalista alemão do século XIX chamado Karl Marx, atento e solicito aos movimentos históricos, bem diferentes de boa parte dos jornalistas midiáticos do século XXI, observou que a burguesia francesa naquela altura, para deter todo e qualquer movimento que colocasse em risco o seu controle sobre a riqueza financeira e interesses econômicos, vai aos poucos cedendo espaço e poder de controle do Estado para um pretenso tutor dos interesses populares e gerais. Assim, em “novembro de 1849, Bonaparte tinha se contentado com um ministério não parlamentar e, em janeiro de 1851, com um ministério extraparlamentar; em 11 de abril, sentiu-se já suficientemente forte para formar um ministério antiparlamentar” (Marx [1852], 2015, p. 294).

A conformação do que historicamente se convencionou denominar de “Bonapartismo” refere-se a uma forma de regime político capitalista na qual a parte executiva do Estado passa a ser controlada por um indivíduo ou grupo de interesse que exerce poder supremo sobre todas as demais partes do Estado. Alguns aspectos desse movimento nervoso de perda de controle da burguesia foram cirurgicamente anotados pelo nosso jornalista investigativo de meados do século XIX, vale aqui fazer referência a quatro pontos tratados por Marx neste seu relato jornalístico publicado ainda na fervura dos fatos em 1852, que são notavelmente semelhantes aos próprios episódios deste Brasil de início da segunda década do XXI:

i) A eleição de Luís Bonaparte em dezembro 1848 demonstrou que era possível que a correlação de forças no jogo social levasse ao poder executivo figura que na expressão de Marx (sic., p.257) era supremamente “lamentável”, sendo que o exercício de manipulação de frações dos segmentos populares aparece pela primeira vez descrita na história como um “trapaceiro” social seria capaz de arregimentar forças e se impor vitorioso, podendo exclamar: “Hic Rhodus, hic salta” e todos acreditarem. Nada muito diferente das “facadas” festivas e das “fake news” que elegem Bolsonaro, novamente: “Hic Rhodus, hic salta” e todos acreditam.

ii)Após a eleição deste trapaceiro lamentável, os “senhores democratas se felicitavam mutuamente pelos êxitos milagrosos que esperavam do segundo [domingo do mês] de maio de 1852”, ao que se refere nosso criterioso jornalista é que as tais forças democráticas, tais como as nossas atuais oposições, esperavam ansiosos a eleição seguinte que se daria em maio de 1852 conforme a Constituição francesa de 1848.

Ledo engano e esperança fantasiosa dos democratas, ou como nos faz enxergar esse radical hoje esconjurado, esses senhores tinham perdido ”toda compreensão do presente perante a glorificação passiva do futuro”. O golpe de Estado desferido por Luis Bonaparte em dezembro de 1851 encerrou com chave sangrenta toda essa expectativa de normalidade institucional que detinham os “senhores democratas”. Esse relato de 170 anos do mundo francês nos parece infelizmente tão próximo da nossa própria realidade, talvez a história esteja aqui a gritar que não quer se repetir como uma trágica farsa.

iii) Muito curiosamente, o próprio bonapartismo francês se originou das escaramuças revolucionárias da febre dos povos ou “primavera dos povos”. A Constituição parida nesse processo de efervescência foi construída conforme a lógica convencional burguesa de que “pão pouco primeiro para os meus”. Uma dessas invenções na Carta Magna produzida pelos republicanos do “Le National”, um antepassado glorioso desse arremedo jornalístico que a elite paulista consagra no “Estado de São Paulo”, foi o “estado de sítio”, a intervenção pronta e simples militar quando de qualquer risco a ordem estabelecida, “aplicada periodicamente em cada uma das crises sucessivas”. Porém, há de se perguntar em que momento “caserna e bivaque, sabre e mosquete, bigode e uniforme” não proclamará “o seu próprio regime como o mais alto de todos”. Aqui não há como não ver a semelhança com a presença extensiva da figura da GLO (Garantia de Lei e Ordem) brasileira e o seu uso quase que recorrente nesses últimos anos, instrumentalizando a própria caserna brasileira a proclamar seu próprio regime.

iv) Aqui introduzimos nosso Lima Barreto, esse conhecedor mais que intimo do repositório da alma humana. Ora que Lima tinha grande respeito pelo Congresso Nacional era notável, para o “encerramento anual” do Congresso Nacional já era de grande lástima, abrindo-se assim algo como “um vazio na nossa vida comum e nos enchendo de pavor” (Lima Barreto, [1922], 2004, p. 487). De tal forma que nosso lúcido carioca observava que todo “brasileiro nasceu para ser um tiranozinho em qualquer cousa”, de maneira que sendo qual for a sua posição “trata logo de por pessoalmente em ação a autoridade de que está investido pelo Estado místico”.

Não diferente procedeu aquele Bonaparte eleito em 1848. Na medida em que se dissolviam os partidos da ordem burguesa e, mais e mais, como anotou os traços históricos de Marx sobre a crise em que se aprofundaram os democratas republicanos, fortalecendo o pretenso discurso popular de que o “país estava cansado” da Assembleia Legislativa, mais e mais se abriu os termos para o Golpe de estado a ser praticado pelo fanfarrão que a partir dali dispensava o “partido da ordem” e assumia ele mesmo “as suas próprias palavras de ordem”.

Bem que nosso Lima Barreto nos lembra de que “quando é presidente da República” apossa-se desse homem “logo um delírio cesariano e a sua autoridade que é limitada e contrabalançada, ele a transforma em ilimitada e sem peias”. Esse perfil psicológico não se aplica somente a forma titubeante do Bonaparte francês, mas provavelmente é ainda mais forte e delirante em possíveis títeres com alma deslavada do fascismo brasileiro. Riscos que já nos assinalou o jornalista filósofo alemão e mais do que nos ensinou em traços mais leves esse nosso jornalista tupiniquim.

Melhor ouvirem Marx e Lima Barreto e, o quanto antes, proporem o impeachment desse nosso candidato a Bonaparte de Hospício. Antes que seja tarde demais.

José Raimundo Trindade é professor da UFPa

Referências:


Lima Barreto. Toda Crônica. Volume II (1919-1922). Rio de Janeiro: Editora Agir, 2004.

Karl Marx. O 18 Brumário de Luís Bonaparte. In: A revolução antes da revolução. São Paulo: Expressão Popular, 2015.



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