Política

Menos ódio, mais democracia

O extremismo cresce protegido pela ideia de que a liberdade de expressão dá amparo ao vale tudo. É preciso estancar a intolerância antes que seja tarde.

18/03/2015 00:00

Roberto Brilhante

Créditos da foto: Roberto Brilhante
No dia 15, em meio a um mar de ódio, a um turbilhão de palavrões, a um desfile de símbolos pavorosos e esqueletos insepultos do período ditatorial, algo quase passou desapercebido.


 
 

Nas redes sociais, uma intensa militância reagiu com uma hashtag simples, direta e poderosa: #MenosOdioMaisDemocracia.


 
 

Mais importante do que o slogan ter ficado em primeiro lugar nos tópicos mais divulgados pelo Twitter no Brasil e chegado a terceiro no mundo é o fato de que ele consagrou-se como a palavra de ordem essencial de uma luta que mal começou e está longe de acabar.


 
 

A batalha que se trava agora é maior do que simplesmente a de defender um governo eleito que é fustigado por um golpismo indisfarçado.


 
 

O que está em jogo e precisa ser defendido com unhas e dentes é o próprio destino democrático do país, o legado de direitos da Constituição de 1988 e os avanços sociais da última década, diante do risco de grupos que se organizam para ameaçá-los com seu entulho autoritário.


 
 

Muitos consideram esse problema algo fora de hora, pois os grupos extremistas seriam minoritários. É verdade, são minoritários, como eram minoritários os nazistas, os macartistas, o Comando de Caça aos Comunistas, os que baixaram o Ato Institucional nº 5. O poder do extremismo nunca foi e nunca será uma questão numérica.


 
 

Dizem que os grupos que convocaram as manifestações são muito diferentes entre si. Dizem que o pessoal do #VemPraRua, aquele para quem o povo "não está preocupado com os detalhes jurídicos do Impeachment" (pois é, a eleição de um presidente da República, de repente, virou um mero detalhe jurídico) é diferente do Revoltados Online, o grupo que defende que o melhor candidato à presidência é Jair Bolsonaro.


 
 

Por sua vez, ambos são diferentes do Movimento Brasil Livre (MBL), que diz expressamente que "não acredita no uso da forca [sic] para fins politicos" - eles ainda não externaram sua posição quanto ao apedrejamento, à fogueira, ao empalamento e a outros métodos antigos e medievais.


 
 

Devem ser mesmo diferentes e possivelmente, a maioria dos que fizeram a multidão nas ruas não deve ter a mínima ideia nem de que eles existem.


 
 

A questão é que o poder de atração desses grupos cresce à medida em que aumenta a insatisfação não apenas com o governo, mas com a política e as instituições, de uma forma geral.


 
 

Não se pode analisar a conjuntura atual olhando apenas o dia 15. É preciso enxergar adiante. O "Fora, Dilma" e "Fora, PT" é disputado por duas orientações distintas e paralelas.


 
 

O PSDB e outros partidos de oposição querem simplesmente desgastar o governo até o osso, deixá-lo prostrado, derrotar sua agenda no Congresso e ganhar as eleições municipais do ano que vem com ampla margem de votos, acumulando forças para 2018.


 
 

Enquanto isso, os dois piores grupos de trombadinhas dos protestos querem mais. Querem esculhambar a política e as instituições do país, eliminar adversários, alguns com o uso da forca [sic] mesmo, e intimidar não apenas partidos e organizações sociais, mas pessoas que pensam diferente - sejam elas propriamente de esquerda ou aquelas que, simplesmente, são estigmatizadas por não engrossar o coro dos descontentes.


 
 

Esses grupos extremistas sabem muito bem que têm uma longa jornada adiante. Como o inquérito aberto no Supremo não traz qualquer evidência de crime de responsabilidade contra a presidenta da República, é óbvio que a narrativa desses grupos autoritários ultradireitistas espera apenas o momento certo para jogar a culpa no Congresso e no Judiciário por não terem feito nada [nada do que esses grupos queriam, obviamente].


 
 

A frustração a ser gerada com uma eventual não ocorrência de impeachment está sendo cozida em fogo alto para fermentar a adesão, se não a um golpe militar, à formação de algo que nunca existiu no Brasil: um grande partido de extrema direita, permanentemente mobilizado, agressivo, violento, com uma legião cada vez maior de adeptos e financiados empresarialmente - como é comum a qualquer partido de extrema direita. O fenômeno tende a superar o famigerado Integralismo.


 
 

Esse projeto político tem no ódio sua principal ideologia e na tibieza de muitos democratas sua grande avenida. A criação de um grande partido de extrema direita ajudaria a estreitar o espaço democrático, a 'endireitar' até partidos de centro, e a dar substância ainda maiora uma mídia que pulveriza veneno todos os dias sobre a sociedade.


 
 

O extremismo daqueles que falam em liberdade, mas a tratam como um emblema vazio ou um polidor de sabres; daqueles que incitam à violência contra adversários políticos; esse extremismo atroz se alimenta e cresce protegido pela confusão irresponsável e pusilânime de que a democracia e a liberdade de expressão dão amparo ao vale tudo.


 
 

Mais que uma palavra de ordem, #MenosOdioMaisDemocracia tornou-se uma insígnia, uma bandeira de todos os democratas e humanistas, inclusive liberais, contra aqueles que preferem a barbárie as ditaduras.



Menos ódio e mais democracia" é o escudo que precisa ser empunhado por todos aqueles que sabem o quanto custou ao Brasil redemocratizar-se, depois de uma noite que durou 21 anos. 

É preciso estancar o ciclo da intolerância antes que seja tarde demais.



 
(*) Antonio Lassance é cientista político.








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