Política

Mercadante vence Marta; agora, disputa no PT será por alianças

08/05/2006 00:00

Bia Barbosa

Créditos da foto: Bia Barbosa
SÃO PAULO – Aloizio Mercadante foi confirmado nesta segunda-feira (8) como o vencedor da prévia do PT de São Paulo e será o candidato do partido ao governo estadual. Ele obteve 3.757 votos de vantagem sobre sua concorrente, a ex-prefeita Marta Suplicy. Favorita na capital, onde conta com apoio do diretório municipal, Marta foi derrotada no interior do Estado.

Diferente da prévia do PT paulista em 2002, quando as correntes de esquerda lançaram seu próprio candidato - o deputado estadual Renato Simões, do Fórum Socialista, contra José Genoino, do então Campo Majoritário -, este ano os dois concorrentes foram do grupo dominante Articulação (ou Unidade na Luta), dividindo entre si a preferência das outras forças.

Entre as correntes maiores, Mercadante contou com o apoio da Democracia Socialista (DS) e do Fórum Socialista, enquanto a Articulação de Esquerda (AE) se juntou à candidatura Marta, cuja base em São Paulo já havia apoiado a corrente nas eleições internas do partido (o PED), no ano passado.

Segundo Carlos Henrique Árabe, membro da direção estadual do PT pela DS, a candidatura de Mercadante se mostrou mais aberta à pluralidade das correntes internas e deve permitir agora uma intervenção mais forte da direção partidária na condução da campanha e da construção do programa. “O PT sob a prefeitura de Marta foi muito submisso e pouco participativo politicamente. Mercadante dialoga melhor com os eleitores. Para nós, também foi importante seu posicionamento perante a crise do partido, a sua defesa de uma apuração dos fatos”, avalia Árabe.

Já de acordo com Angélica Fernandes, secretária de formação do PT estadual, a AE avaliou que Marta teria mais elementos para fazer o debate da realidade do Estado na campanha, o que aumentaria as sua chances também na disputa do eleitorado no embate com Serra e o PSDB. Segundo ela, a opção não teve nenhuma relação com o acordo da base de apoio da ex-prefeita na disputa do PED.

Passada a prévia e unificadas em torno de Mercadante, as várias correntes afirmam agora que o objetivo maior será a construção da estratégia de embate com o PSDB. Segundo Árabe, já a perspectiva democrática da realização de prévias apresentou para a população um diferencial fundamental entre a concepção política dos dois partidos, uma vez que Serra teria sido escolhido pelo PSDB através de um processo obscuro e fechado da cúpula partidária.

“A escolha [petista] não foi feita num apartamento fechado, com três ou quatro caciques. Isso é bonito. O PT se fortaleceu com as prévias. Nossa candidatura chamou a atenção da população e vai ser positiva”, afirmou também o presidente estadual do PT, Paulo Frateschi.

Berzoini fez coro: “Diante de uma crise política difícil, em que muito disseram que não deveríamos fazer uma prévia, estamos coroando este processo do partido. Um partido que consulta a sua base e não escolhe seu candidato numa mesa para quatro pessoas num restaurante de luxo. Sabemos do acirramento de projetos que marcará esta eleição e do comportamento dos adversários em relação aos nossos projetos. Mas as prévias contribuíram para um processo interno de politização e compromisso da militância. Um processo absolutamente democrático e transparente”.

Sobre o aparente favoritismo do PSDB, Árabe avalia que existem três gargalos da política tucana que o PT deverá explorar. Primeiro, o abandono da Prefeitura nas mãos do PFL em função de uma disputa interna do PSDB, que, ao dar ao grupo de Alckmin a candidatura presidencial, teria sido obrigado a fortalecer a ala serrista com a estadual; segundo, a fragilidade do governo Alckmin diante da crescente onda de denúncias sobre irregularidades, e, terceiro, as suspeitas de que as denúncias contra o candidato presidencial podem estar brotando de dentro do próprio ninho tucano.

Principalmente sobre o primeiro ponto, a saída do PSDB da Prefeitura, Mercadante alertou sobre a entrega da administração a um político “que não seria eleito de forma alguma [como cabeça de chapa] e cujo nome é desconhecido para 65% da população. Vamos cobrar os compromissos assumidos pelo PSDB em 12 anos de governo”. O deputado estadual Renato Simões arremata: “O governo do Estado é uma ficção. A gestão tucana não passa por qualquer crivo administrativo e ético, não houve a menor transparência” - o que, diz ele, estaria claro na blindagem que impediu a abertura de 69 CPIs contra a administração tucana na Assembléia Legislativa de São Paulo.

Outro detalhe, segundo Simões: nunca houve uma disputa em São Paulo na qual o governo estivesse sob julgamento. A saída de Alckmin para a corrida presidencial deve nacionalizar os problemas da gestão do PSDB no Estado, ou melhor, deve nacionalizar toda a disputa eleitoral paulista, uma vez que Mercadante, na posição líder do governo no Senado, vai contribuir para isso.

ALIANÇAS
O tema “alianças” deve ser agora a maior – e provavelmente única – nota destoante na harmonia interna do partido. De acordo com o grupo majoritário Unidade na Luta, do qual fazem parte Mercadante e Frateschi, a política de alianças do Estado deve ser a definida no recente Encontro Nacional do partido, ou seja, ampla e irrestrita (excluindo PSDB e PFL). DS, AE e Fórum Socialista discordam, principalmente no tocante ao tão cobiçado PMDB, que poderia colocar Quércia no caminho de Suplicy, caso o possível aliado queira apoio para a sua candidatura ao senado.

Na manhã desta segunda (8), ao falar do resultado da prévia, Frateschi deu sua primeira tacada. “Gostaríamos de oferecer a vaga de vice em São Paulo ao PMDB, mas não conseguiremos avançar aqui se não avançarmos a nível nacional. Se tivermos o apoio do PMDB, seguramente vamos ganhar as eleições em São Paulo. Não existe constrangimento em nos aliarmos ao PMDB do Quércia”.

Segundo Angélica Fernandes, o tema é visto com reservas pela AE, já que constituiu a maior polêmica do Encontro Estadual em dezembro passado, quando o partido decidiu que alianças se dariam apenas com partidos e forças progressistas e populares – definição na qual o PMDB não se encaixaria.

Já a DS, corrente que no Encontro Nacional defendeu solitariamente uma aliança mais limitada numericamente, mas mais garantida ideologicamente (no caso com PSB e PC do B), a posição no Estado será a mesma, o que poderá até levar à convocação de outro encontro estadual em junho, caso não haja consenso no diretório estadual. Segundo Árabe, assim como o PT, Serra também estaria cortejando o peemedebista Quércia, mas com mais promessas, o que jogaria a definição final ao acordo que se fará a nível nacional.

Sobre uma possível barganha da cadeira de senador com o PMDB que pudesse prejudicar Eduardo Suplicy, candidato à reeleição pelo PT, o deputado federal José Eduardo Cardozo foi categórico. “É fora de cogitação abrir mão da candidatura do Suplicy”. Sobre o nome de Quércia, no entanto, ele acha que, apesar das divergências, “há condições de superá-las. O PMDB apoiou o Mercadante, como líder do governo, em diversos momentos”.

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