Política

Michel Löwy: "o Papa tem um espírito radical"

Um dos principais pensadores marxistas analisou o Papa Francisco em um diálogo com a teóloga argentina e professora universitária Emilce Cuda

10/07/2019 11:59

 

 

“O Papa Francisco, embora tenha suas raízes na cultura cristã latino-americana de libertação, combinada com a linha progressista argentina da Teologia do Povo, em um certo momento vai além dessas definições e é mais radical e mais anti sistêmico”, diz Michel Löwy, neste diálogo realizado em seu apartamento de Paris.

O autor de “Cristianismo da Libertação – Perspectivas marxistas e eco socialistas”, livro que acaba de ser lançado na Europa pela editora espanhola El Viejo Topo, não só é um dos principais intelectuais do marxismo atual, como também é coautor e impulsor do Manifesto Eco Socialista Internacional. Judeu e ateu, ganhou prestigio por suas investigações sobre a Filosofia e Teologia da Libertação Latino-Americana e sua relação com a política.

Este homem define o Papa com a frase seguinte: “um home que tem um espírito radical”, e assegura que ele não está de acordo com a ideia de que a religião é o baluarte do obscurantismo, tal como viram Marx e Engels. Mantém contato estreito com o Cristianismo da Libertação, como ele prefere chamar, em vez de Teologia da Libertação. Assegura que essa diferença mostra outra perspectiva da crença religiosa no campo político. Segundo Löwy, na América Latina, a religião desperta, em vez de adormecer. É o mesmo argumento usado pelo teólogo da libertação Gustavo Gutiérrez em defesa própria, segundo o contado no encontro de Boston sobre a teologia latino-americana, em 2017.

Em seu livro, o sociólogo francês dez aceitar a posição marxista segundo a qual a religião pode ser um narcótico, mas só quando se trata de “seitas religiosas que não são mais que uma frágil combinação de manipulação econômica, lavagem cerebral obscurantista e anticomunismo fanático”. Seria o caso da nova Teologia da Prosperidade, que abona o discurso fascista na América Latina. Entretanto, Löwy esclarece que, “embora a religião tenha sido, até o Século XVII, o espaço simbólico em que se disputavam forças antagônicas, na América Latina a relação é contrária. Nessa região, a religião da periferia é revolucionária e enfrenta um materialismo absolutista”. Esse é o entorno social que Francisco representa.

Ao longo de sua carreira, Löwy chegou a distinguir com clareza o que é um catolicismo intransigente, que se transforma em cristianismo social, capaz de criticar os excessos do capitalismo liberal sem se opor realmente à ordem político e econômica de seu tempo –algo próprio da teologia progressista europeia – e um cristianismo de libertação que se opõe ao sistema e se organiza para mudar imediatamente as estruturas – algo próprio da Teologia da Libertação latino-americana. Isso lhe permite descobrir que “a teologia do Papa é outra coisa”, porque “não vai do topo até a base, como a progressista, e tampouco da base até o topo, como a da libertação”. Pelo contrário, “vai da periferia ao centro”.

A entrevista revela que, segundo o autor, o discurso do atual pontífice “não é propriamente o da Teologia do Povo”. O argumento é: “enquanto a Teologia do Povo criticava o sistema por sua injustiça social, enfatizando os aspectos culturais sobre os econômicos, a encíclica Laudato Si é uma crítica do sistema econômico; uma crítica radical que vai além da Teologia do Povo; uma encíclica anti sistêmica, inclusive anticapitalista, embora a palavra ‘capitalismo’ não apareça”.

Não obstante, ele diz que, “o que falta em Laudato Si é mostrar quem é o sujeito da mudança, porque o Papa não fala disso no documento”. Concorda com Francisco em que “temos que mudar”, mas se pergunta “quem vai implementar essa mudança”. Segundo Löwy, o próprio Francisco dá a resposta nos encontros com os movimentos sociais, “muitos deles muito radicais”. Ele vê que “o Papa claramente identifica o sujeito da mudança, diz a eles que são os que vão mudar as coisas, que têm que assumir essa missão, e que nas suas mãos está a mudança”. O sujeito da mudança não são os de cima, nem os de baixo, mas sim os que estão à margem, de acordo com a interpretação que Löwy faz do discurso de Francisco. A mudança vem de fora para dentro. Por isso, afirma que com esse gesto “Francisco mostra que vai além da Teologia do Povo”.

O que leva o Papa a ir além da Teologia do Povo? Löwy supõe que Bergoglio, “quando era bispo e cardeal, defendeu a linha do Vaticano, mas no momento em que é eleito Papa já não tem a quem render contas, a não ser a Deus, e isso lhe dá uma espécie de campo aberto, ou seja, de fazer o que parece justo, sem ter que sem ter que se justificar”. Isso explica, por exemplo, porque o autor valoriza a decisão de Francisco de realizar um encontro de diálogo em Roma entre cristãos e pensadores da esquerda marxista, do qual Michel Löwy foi parte. Ele conta que “ali aconteceu algo novo, surpreendente”.

A partir desse encontro Löwy nota que “a esquerda passou a ter mais empatia com o Papa que boa parte dos católicos”. Segundo sua experiência nesse diálogo, “os católicos que apoiam o Papa não conseguem segui-lo em sua radicalidade”. Nesse contexto, conta que os marxistas diziam: “olha o que o Papa disse”, tomavam a iniciativa. Os católicos não marxistas só se referiam a Francisco se os marxistas o haviam mencionado antes”.

Sua impressão é que Francisco está realmente na vanguarda, alguns passos adiante da Igreja, porque “a Igreja tem um setor reacionário que tenta fazer de tudo para frear o Papa e tirá-lo de onde está o mais rápido possível, enquanto outro setor que o segue pela legitimidade que tem; há uma minoria que assume sua radicalidade, e realmente está disposta a pensar nos termos do Laudato Si”.

Sua reflexão leva a perguntar se ele considera que o Papa tem conhecimento da teoria marxista. Löwy responde que “não se vê entre suas supostas fontes uma literatura de esquerda, salvo algum teólogo da libertação”. Com relação a isso, ele diz que Massimo Borghesi – autor da Biografia intelectual de Francisco –, “embora tenha localizado todas as fontes que Bergoglio leu, não tomou em conta o seu contato social com dirigentes sindicais, sociais e políticos”.

Segundo Michel Löwy, o Papa “dialoga com os movimentos sociais, onde há um discurso do qual ele se apropriou”. Diz que “um pensador não é só a soma de suas fontes, mas sim alguém que, com esse material, cria algo novo, e Bergoglio criou algo novo com toda essa leitura, além de sua experiência social”. Agrega que “para além de todas as fontes, o Papa está criando um novo discurso, uma nova teologia sem precedentes; algo que tem a ver com Juan XXIII, o único precedente parecido, mais que vai inclusive além dele”.

Aos que opinam que a religião não deve se meter na política, e com a experiência dos seus 81 anos, Löwy diz estar convencido de que, na América Latina, “a teologia tem um papel muito importante politicamente”. Tomando o caso concreto do Brasil, ele sustenta que, se não fosse assim, “não teria existido lá o PT, nem os sindicatos mais progressistas, nem o movimento de agricultores MST, sem o trabalho do Cristianismo da Libertação, que é muito mais que a teologia”.

Segundo o autor, “se no próximo período histórico a esquerda consegue mudar a correlação de forças, será porque esses militantes, ou seja, os que trabalham nas pastorais, nas comunidades de base, os teólogos, terão sido determinantes. Sem eles, não vai acontecer nada”. Ele intui que o movimento social cristão da libertação “terá uma oportunidade histórica, porque agora, com Francisco, possui um apoio importante”.

*Publicado originalmente em pagina12.com.ar | Tradução de Victor Farinelli

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